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Interior: Idosos viajam para ter acesso a saúde

Especialistas apontam que envelhecer fora dos grandes centros, pode significar mais autonomia nas atividades diárias e qualidade de vida, mas também maior dificuldade de acesso a consultas, exames e procedimentos especializados, resultado da distância, da escassez de serviços e da concentração de profissionais nas capitais.

Dados do estudo Demografia Médica no Brasil 2025 mostram que, em 2024, as capitais concentravam quase quatro vezes mais médicos por habitante do que o interior (6,97 por mil, contra 1,9). A desigualdade é ainda maior entre especialistas.

A aposentada Maria da Silva, 71, moradora de Autazes, interior do Amazonas, enfrenta longas viagens até Manaus para dar continuidade ao tratamento de um câncer do colo do útero. Sem atendimento especializado em sua cidade, depende da capital para consultas, exames e sessões de quimioterapia. O trajeto pode levar mais de 12 horas, de barco ou de carro.

Além da distância, o custo pesa no orçamento da aposentada, que vive com um salário mínimo (R$ 1.621). Cada deslocamento pode chegar a R$ 400, sem contar alimentação e transporte dentro da cidade. "Às vezes deixo de comprar uma fruta para guardar o dinheiro para ir ao médico", diz.

Em alguns períodos, precisa permanecer dias ou até semanas em Manaus para dar conta dos atendimentos. Quando não consegue companhia ou transporte, consultas e sessões são adiadas. "Teve vez que perdi porque não tinha quem me levasse", afirma.

A médica de família e comunidade Jéssica Leão conhece bem as diferenças entre a capital e o interior. Após atuar em São Paulo, se mudou para Alto Paraíso de Goiás, onde hoje trabalha na atenção primária. Segundo ela, o principal problema não é apenas a distância, mas a falta de médicos de família nas unidades básicas.

Supervisora do programa Mais Médicos, Leão afirma que a necessidade de deslocamento é recorrente. "Muitas vezes, o paciente precisa ir para outra cidade ou até outro estado para conseguir atendimento, porque acaba sendo inviável onde mora", diz.

Apesar das dificuldades, o ambiente do interior pode favorecer o bem-estar. Menor exposição à violência, ausência de trânsito e melhor qualidade do ar impactam o envelhecimento, inclusive na saúde mental.

Um estudo baseado no ELSI-Brasil, analisado em tese da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), apontou que 34,1% dos idosos em áreas urbanas apresentam sintomas depressivos. Fatores como violência percebida, poluição sonora e baixa coesão social estão associados a maior prevalência desses quadros.

Por Folhapress