A geração Z, nascida entre 1997 e 2012, tem demonstrado preocupação crescente com a aparência e os sinais do envelhecimento, em meio a exposição constante às redes sociais. Especialistas apontam que o contato diário com imagens editadas e filtros intensifica a autocrítica e faz com que jovens passem a notar imperfeições que, em outros contextos, poderiam ter menor impacto na percepção de si.
O movimento se traduz tanto pela procura por procedimentos estéticos entre pessoas dessa faixa etária quanto pela adoção de rotinas rigorosas de autocuidado cada vez mais cedo.
Para a comunicadora de beleza e bem-estar Vanessa Rozan, embora o envelhecimento seja uma questão presente em todas as gerações, jovens da geração Z tendem a estar mais atravessados por essa preocupação, devido a exposição constante à própria imagem nas redes sociais.
Segundo Rozan, que é doutoranda em psicologia social com foco na análise dos padrões de beleza nas redes sociais na PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), essa dinâmica, intensificada por filtros e ferramentas de edição, pode aumentar a insatisfação com a aparência e impulsionar a busca por procedimentos estéticos.
Para ela, esse movimento pode estar ligado ao fenômeno chamado de "dismorfia do Snapchat", quando a percepção da própria imagem se torna distorcida e pequenas marcas naturais da idade são vistas como problemas.
O gerontólogo Alexandre Kalache diz que esse fenômeno também passa por uma mudança nas relações entre gerações. Segundo ele, os jovens convivem cada vez menos com pessoas idosas, seja na família, no trabalho ou nos espaços sociais, e, com isso, perdem referências concretas sobre o que é envelhecer. O resultado é que a velhice passa a ser vista como algo distante, desconhecido e, por isso, mais assustador.
- Sempre pergunto aos jovens quando foi a última vez que conversaram por mais de meia hora com alguém com mais de 80 anos que não fosse os avós por obrigação. Quase ninguém consegue responder. Sem essa convivência, essa geração permanece isolada em seu próprio círculo, e vão envelhecer lamentando ter envelhecido -diz.
A médica Maria Eduarda Pires, 24, já fez preenchimento de olheiras e lábios, botox e usou diferentes tipos de canetas emagrecedoras. Na última vez que foi aplicar toxina botulínica, para tratar somente o bruxismo, acabou fazendo também aplicação na testa, sugerida pela profissional ao observar pequenas linhas de expressão. "Não era algo que me incomodava. Mas já que eu estava ali", observa.
Ela diz que não percebe o mesmo nível de preocupação com a aparência entre mulheres mais velhas da família. Entre amigos e familiares do seu convívio, ela afirma que é comum ver filhas investindo em intervenções precoces, enquanto mulheres mais velhas não apresentam essa pressão por correções.
O avanço dos procedimentos estéticos minimamente invasivos entre os mais jovens é uma tendência mundial. Levantamento da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS, na sigla em inglês) mostra que a aplicação de toxina botulínica foi o procedimento estético mais realizado por pessoas de 18 a 34 anos no mundo, de 2018 a 2024.
Nesse período, a quantidade de botox aplicado por jovens dessa faixa etária cresceu 29,9% no mundo, passando de 1,3 milhão em 2018 para 1,7 milhão em 2024.
Tanto a entidade internacional quanto a SBCP (Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica) não têm um recorte específico dos procedimentos feitos por brasileiros jovens. Ainda assim, a percepção dos especialistas é de crescimento consistente no país.
Por Folhapress