Por:

cresce número de

Por Agatha Amorim

Morar sozinho deixou de ser exceção para se tornar parte da rotina de milhões de brasileiros. Dados recentes do IBGE mostram que cerca de um em cada cinco domicílios do país é ocupado por apenas uma pessoa, movimento que vem ganhando força nos últimos anos e acompanha mudanças profundas na forma de viver, envelhecer e se relacionar.

Se antes a ideia de viver só era frequentemente associada à solidão, hoje ela aparece cada vez mais ligada à autonomia, à liberdade e, em muitos casos, a novos começos. No Sul Fluminense, histórias diferentes ajudam a dar rosto a esse cenário.

Aos 73 anos, Izabel Corrêa Ferreira, moradora de Barra Mansa, construiu uma rotina que passa longe da imagem de isolamento. Viúva há décadas, ela decidiu seguir sozinha e transformou o cotidiano em um exercício constante de autonomia.

Acorda cedo, prepara o próprio café, cuida da casa sem ajuda e ainda encontra tempo para caminhar durante a semana. À tarde, se dedica ao artesanato, que complementa a renda, e aos hobbies — plantas e pássaros que observa da janela. Também mantém presença nas redes sociais e realiza trabalhos voluntários em hospitais.

"O que mais fascina são os momentos de paz e tranquilidade, a certeza de que quem comanda sou eu", diz. Para ela, a experiência vai além da ausência de companhia. "Morar sozinha não é solidão, é sentir que sou capaz de conviver comigo mesma."

O relato de Izabel dialoga com uma tendência nacional. Entre as mulheres que vivem sozinhas no país, uma parcela significativa é formada por idosas, muitas delas viúvas ou com os filhos já fora de casa. Em alguns momentos, ela admite, a vontade de uma boa conversa aparece, mas não chega a romper o equilíbrio que construiu. "Quando vem a sensação de paz e liberdade, tudo isso deixa de ser relevante."

Liberdade como estilo de vida

Se, entre os mais velhos, morar sozinho muitas vezes é resultado das circunstâncias da vida, entre adultos a escolha costuma ser mais deliberada. É o caso de Márcio Rogério Pereira, de 51 anos, de Pinheiral.

Ele vive sozinho há cerca de 25 anos e resume a decisão de forma direta: buscava liberdade e independência. Desde então, mantém uma rotina simples, dividida entre o trabalho durante a semana e momentos de lazer nos fins de semana.

"Minha rotina é tranquila. Trabalho de segunda a sexta, geralmente almoço fora e cuido da casa eu mesmo", conta.

A autonomia aparece como principal vantagem. "É o sossego, fazer as coisas na hora que quiser e se quiser." A fala de Márcio ecoa um perfil que se repete nos dados do IBGE: homens adultos, principalmente entre 30 e 59 anos, formam um grupo expressivo entre os que vivem sozinhos.

Recomeço e autonomia

Para Simone Louredo, de 50 anos, moradora de Volta Redonda, morar sozinha marca uma fase mais recente e carregada de significados. Depois de anos dividindo a casa com o filho, ela passou a viver sozinha há cerca de um ano, quando ele saiu de casa.

Empreendedora há mais de uma década, ela organiza a rotina entre o trabalho e os cuidados com a casa. O negócio surgiu de uma necessidade: quando o filho foi diagnosticado com diabetes tipo 1 ainda criança, ela criou uma alternativa para acompanhar mais de perto a alimentação dele e, ao mesmo tempo, gerar renda.

Hoje, a casa mais silenciosa também trouxe mudanças no ritmo. As tarefas ficaram mais leves, mas a responsabilidade de resolver tudo sozinha se tornou mais evidente.

"A vantagem é poder tomar todas as decisões sem precisar dividir opiniões, mas também é um desafio ter que dar conta de tudo. Tem sempre os dois lados", afirma.

Apesar das diferenças de idade, rotina e trajetória, as histórias de Izabel, Márcio e Simone se encontram em um ponto comum: todas ressignificam o ato de morar sozinho.

Entre silêncios e rotinas próprias, há espaço para liberdade, desafios e, principalmente, autonomia. Para Izabel, essa é a síntese de uma vida que aprendeu a caminhar por conta própria:

"É sentir que sou capaz de conviver comigo, com qualidades e defeitos. Isso é ter paz."