Por Lanna Silveira
Especialmente no Brasil, o mês de abril é dedicado a celebrar os discos de vinil: uma forma de mídia física que ultrapassa gerações sendo um dos principais itens de colecionador, principalmente entre amantes de música. A comemoração é atribuída ao mês pelo Dia Nacional do Disco de Vinil ser relembrado no dia 20 de abril desde 1978, em homenagem ao compositor brasileiro Ataulfo Alves, falecido dez anos antes nesta mesma data.
Para entrar no clima de festejo, o Correio Sul Fluminense fará uma série de reportagens para dar voz a todas as formas com as quais os discos de vinil podem tocar vidas, passando pela mania de colecionador; pelos comerciantes; e pelos artistas musicais que se encontraram criativamente no uso dos vinis.
Discotecagem em
vinil: uma cultura
de resistência
Na região Sul Fluminense, a cultura de discotecagem em vinil ainda está em crescimento e sobrevive por meio de projetos e pequenos coletivos independentes. Apesar de encontrar espaço em bares e festas populares, o formato ainda tem dificuldades de quebrar a barreira de nicho; seus DJs, porém, têm a gana de manter a prática viva e fazer acontecer. O Correio Sul Fluminense conversou com três DJs que têm atuação em cidades da região: Douglas Leal, ou "Água Escura"; Josafá e Max Muffin.
No âmbito da discotecagem, Douglas Leal é conhecido localmente pela festa "Cumbia de Aço": um baile de ritmos latino-americanos tocado 100% em vinil. Ele promove uma iniciativa similar na cidade de São Paulo, chamada "Noites de Cumbia". Douglas começou a se direcionar para a discotecagem em vinil em 2023, tendo como "mentores" os DJs Bob Marlinho e Mateus Prado (operador do Mameluco Sistema de Som, o primeiro sound system de Volta Redonda); ambos também são residentes da Cumbia de Aço atualmente. Além da aprendizagem, foram eles que possibilitaram o primeiro contato de Douglas com os equipamentos necessários para praticar o formato, como abriram espaço para que ele tocasse em eventos.
As influências musicais que regem a discotecagem de Douglas vêm de gêneros musicais distintos: desde o punk, passando pelo reggae, jazz e ritmos tradicionais de diferentes países do mundo. Hoje, sua discotecagem é mais focada em ritmos latinos, como mambo, salsa, son montuno, e diferentes vertentes da cumbia. "É um mundo musical que gosto muito. É muito dançante e rola uma identificação das pessoas com esses ritmos, ao mesmo tempo que soa fresco e diferente do que se ouve por aí".
Já o DJ Josafá é conhecido na região principalmente pela sua contribuição para a cena hip hop local, como fundador da Festa Fundamento e por seu tempo de atuação na Roda Cultural de Volta Redonda. Josafá começou sua trajetória na discotecagem praticando formatos digitais e teve cerca de oito anos de aprendizagem até consolidar seus sets nos toca discos.
Enquanto Douglas teve a oportunidade de aprender a partir de DJs da cena local, Josafá constata que o trabalho com o vinil ainda era bastante raro na época em que começou a discotecar, devido a uma transição forte do mercado da mídia analógica para a digital. Suas primeiras referências no formato foram, justamente, artistas que tentaram preservar a cultura do vinil mesmo quando ela tinha pouco espaço no mercado, citando como exemplos DJ Cirilo, DJ Sleep e DJ Nuts. Já as influências musicais que ditam a discotecagem e a pesquisa de Josafá partem de gêneros como MPB, jazz, blues e hip-hop. Alguns dos artistas citados como "pilares" pelo DJ são Run-DMC, Jorge Bem Jor, Ed Motta, Tânia Maria e Mano Brown: artistas com obras de maestria técnica, riqueza melódica e muito groove.
Assim como Josafá, Max Muffin tem cerca de 15 anos de estrada como DJ. Max é fundador do projeto Vitrolando, que leva discotecagem 100% vinil para festas e bares da cidade - uma iniciativa pioneira, nascida da falta de espaço oferecida ao formato nas noites da cidade. Seu aprendizado envolveu acompanhar festas de discotecagem de vinil realizadas fora da região para poder estudar as pistas, assim como estudar performances registradas em vídeo online. Com o tempo, conseguiu investir em equipamentos para tocar e começou a aprender na prática. As maiores referências artísticas do DJ são a cultura dancehall e hip hop, destacando como um diferencial os artistas que trabalham com "sampling": técnica de produção que envolve a reutilização do trecho de outra música, reimaginando e construindo novos instrumentais a partir daquela base.
O Baile regido
pelo vinil
Na discotecagem em vinil, o disco se torna um instrumento para o DJ: esse contato palpável com a música que será tocada permite que ele use e abuse de criatividade e técnica para criar novas músicas e sons a partir da manipulação dos discos. Esse contato mais direto com a música, para Max, é parte do que transforma a experiência de ouvir um set 100% em vinil: a criação de uma experiência realmente interativa do DJ e do público com a música.
- O DJs de vinil tem um grande desafio na mixagem, porque isso precisa ser [sentido] no ouvido: o toca-disco não tem "sync" (tecla que sincroniza os dois sons) e o DJ precisa se ligar nos volumes e no timbre. Quando ele erra, é perceptível, e eu adoro ver minhas referências errando; deixa tudo mais verdadeiro. Tem muitos DJs [de formato digital] que tocam sets já mixados: a pessoa baixa um set completo, dá play, e fica ali encenando. No vinil, é impossível você ser enganado dessa forma.
Apesar de destacar que isso é uma opinião pessoal, Douglas acredita que exista uma diferença de apelo na discotecagem em vinil em relação a outras formas de mixagem. Parte da graça, para ele, é poder apresentar músicas que muitas vezes não estão disponíveis na internet, por serem lançamentos antigos e mais nichados. "Eu toco com vinis porque gosto de ter música em material físico, e resolvi começar a tocar porque gosto de compartilhar essas músicas com as pessoas também. Para mim, tem uma mágica de algo que atravessou o tempo para estar materialmente ali em boas condições, girando e botando as pessoas para dançar"
Como um DJ que transita entre o formato digital e o analógico, Josafá entende que a escolha de como cada set deve ser performado é feita a partir "necessidade" do público presente. Ele também destaca o valor a cultura do vinil, como um todo, apresenta para fortalecer a conexão do DJ e da pista com a música, e como esse formato de discotecagem valoriza a habilidade e a pesquisa de cada artista.
- Vejo a discotecagem em vinil sob três pilares fundamentais: o formato exige o domínio da mixagem, uma base essencial da profissão que, infelizmente, tem perdido o lugar para simples reproduções; o vinil valoriza a prática da coleção e a busca por sonoridades que fogem da lógica de algoritmos e da monotonia dos repertórios que focam nas "mais Tocadas"; e uma conexão real. Além dos encartes e fichas técnicas, é comum encontrar dedicatórias e cartas escritas nas capas, provando que música serve de ponte entre as pessoas, seja na pista de dança ou no convívio do dia a dia.
Se aprimorar
no formato
Para os DJs que ainda são iniciantes no vinil, ou que são habituados a outras formas de mixagem e têm vontade de aprender, as recomendações dos entrevistados são as mesmas: criar o hábito de acompanhar a cena local, observando os DJs e estreitando laços com outras pessoas que gostam e praticam o formato; investir em uma coleção de discos; buscar o máximo de conhecimento possível, com treino e pesquisa constantes, tendo muita paciência durante esse processo; e sempre apoiar a cena local, divulgando e marcando presença nos eventos, para que a possibilidade de desenvolvimento dos artistas e coletivos seja fortalecida.
Outro aspecto muito destacado é a habilidade de "ler a pista": entender o que o público presente vai receber bem e saber navegar os sets a partir disso. "Observem as pessoas e suas reações; analisem se a leitura de pista do DJ é boa. Tive um momento em que só queria fazer performances com 'scratch', mas eu não estava prestando atenção na pista. Queria apresentar os truques que eu aprendi, mas muitas vezes essas coisas não cabem se o seu público não entende. As duas partes têm que caminhar juntas", conclui Max.