A última edição do Grammy Awards, realizada no último domingo (1), finalizou a temporada de premiações dos primeiros cinco anos desta década na música. Para relembrar a trajetória recente de escolhas dos votantes, o Correio Sul Fluminense irá listar todas as vitórias na categoria de álbum do ano referentes a lançamentos de 2020 a 2025: do pior ao melhor. Os critérios de "merecimentos" serão baseados em qualidade, medida pela recepção crítica e popular do álbum, e impacto cultural, baseados na popularização entre ouvintes e em uma possível influência exercida culturalmente pelo disco.
6° lugar: Midnights, de Taylor Swift
Levar o prêmio com Midnights após a vitória merecida de Folklore, apenas três anos antes, parece um grande sarcasmo do Grammy. Após receber aclamação popular e crítica por sair da zona de conforto, investir em construções musicais mais complexas e compor letras mais maduras e inventivas, Taylor retornou, com Midnights, à mesma proposta pop chiclete de Lover (2019). A diferença entre esses trabalhos é que, enquanto Lover investe em ganchos fortes e produções mais explosivas, Midnights recai em um minimalismo que abusa de vocais cantados em registro baixo e sintetizadores substituindo o uso de instrumentos. É possível entender o porquê desse tipo de trabalho ser tão certeiro para os fãs da Taylor; as faixas são confortáveis de escutar e a cantora é muito competente em compor letras que consigam gerar identificação com pessoas comuns. Mas nem o conteúdo do álbum, ou o burburinho que se criou a partir dele, foi impressionante.
Não ajuda que Midnights era, talvez, o álbum mais fraco da concorrência de sua edição. O nome que fazia mais sentido na noite era SZA, com o mega hit SOS, que manteve um sucesso estável mesmos anos após seu lançamento e renovou o status da artista como uma das gigantes do R&B/pop contemporâneo. Mesmo com menor repercussão, álbuns como Did You Know That There's a Tunnel Under Ocean Blvd, de Lana Del Rey - que tem o mesmo produtor de Midnights e, mesmo assim, apresenta uma maturidade e criatividade artística muito maior - também tinham méritos para vencer.
5° lugar: Harry's House, de Harry Styles
Harry's House, com certeza, é o melhor trabalho de Harry Styles até o momento. Uma interpretação divertida do pop e do neo-disco, com instrumentais bem construídos e uma performance vocal de qualidade. É um bom álbum do gênero, competente acima da média, mas não traz nada de novo - no máximo, consegue aproveitar ao máximo uma fórmula que já vinha sendo básica no pop mainstream desde 2019.
Harry's House não era o álbum mais fraco entre seus concorrentes; os álbuns de Lizzo e Coldplay eram ainda mais básicos e pouco inventivos. Os problemas começam com as indicações de Voyage, do ABBA; Um Verano Sin Ti, de Bad Bunny; e Mr. Morale & the Big Steppers, de Kendrick Lamar: todos trabalhos de qualidade, com mais conceito e de artistas que vinham batendo na trave e ainda não tinham um "Álbum do Ano" para chamar de seu. A gravidade da vitória de Styles se escancara com a indicação de Renaissance, da Beyoncé, que elevou a proposta neo-disco e dance pop à enésima potência. Com hits abraçados amplamente pelo público, Beyoncé uniu referências clássicas da música noturna, como Grace Jones e Donna Summer, a elementos modernos da cultura ballroom e do afrobeat. O álbum é um manifesto sobre a dominância da cultura negra na cena musical; uma força ignorada pelos votantes. Uma rejeição que, inclusive, retira a atenção das qualidades que Harry's House tem, pelo quão pequeno ele parece em comparação a Renaissance.
4° lugar: We Are, de Jon Batiste
A escolha do melhor álbum de 2021, provavelmente, teve o resultado mais surpreendente da década até agora. Essa edição teve uma das listas de indicados mais competitivas dos últimos anos, com uma série de álbuns extremamente populares entre os ouvintes e bem recebidos pela crítica: alguns dos destaques da lista são Planet Her, da Doja Cat; Happier Than Ever, da Billie Eilish; e Sour, de Olivia Rodrigo. Em uma categoria dominada por álbuns pop de sucesso, poucos esperavam que We Are - um álbum que explora as sonoridades clássicas de gêneros como R&B, jazz e soul - sairia vitorioso.
Apesar da narrativa de "cavalo azarão", "We Are" é um álbum muito bem-produzido e Jon Batiste é um ótimo intérprete. É sempre interessante presenciar a vitória de álbuns de qualidade que fogem do eixo mainstream da indústria. O que joga contra "We Are", nessa lista, é que não há muito mais para dizer sobre o álbum. É um trabalho capaz de agradar a todos que gostam genuinamente de música, mas que não necessariamente pode ser considerado como o maior representante do ano de 2021.
3° lugar: Folklore, de Taylor Swift
Após o lançamento de "Lover" (2019) - um trabalho morno, com uma recepção igualmente morna do público e da crítica -, Taylor surpreendeu a todos com o lançamento de Folklore em agosto de 2020. O álbum representou um direcionamento criativo inédito em sua carreira: incorporar elementos eletrônicos em vertentes do folk. Talvez o auge de seu longo período de colaborações com o produtor Jack Antonoff, o álbum apresenta uma riqueza instrumental e uma criatividade em temas líricos que conseguiu conquistar até mesmo seus críticos mais ferrenhos.
A concorrência de Taylor no Grammy contava com bons álbuns - como Chilombo, de Jhené Aiko, e o mega hit Future Nostalgia, de Dua Lipa -, mas nenhum deles apresentou o mesmo equilíbrio de qualidade e impacto conquistados por Folklore. Não se pode ignorar, entretanto, o quanto a campanha do álbum foi beneficiada pela ausência inexplicável de um álbum muito aclamado pela crítica e pelo público nas indicações do Grammy: "After Hours", do The Weeknd. O disco, que vinha se tornando um fenômeno cultural e teve faixas dominando as paradas anos após seu lançamento, possuía apelo sólido para levar o título. Fato é que ele não estava no páreo e Folklore era, sem contestação, o mais merecedor da noite.
2° lugar: Debí Tirar Más Fotos, de Bad Bunny
O porto-riquenho já é figurinha carimbada do Grammy desde 2019, com todos os seus álbuns recebendo, pelo menos, uma indicação, e um acúmulo de três vitórias: até então, todas na categoria de "Melhor Álbum de Música Urbana". Neste ano, Bad Bunny conseguiu que um trabalho latino finalmente quebrasse a bolha da subcategoria e fosse reconhecido como um álbum de música popular. Apesar do cantor já ter conquistado o posto de "artista mais ouvido do mundo" no Spotify quatro vezes desde 2020, seus lançamentos raramente eram indicados em categorias "pop" ou gerais. Para a música latino-americana, a vitória abre um precedente promissor; para o contexto social e político do continente, a projeção de alguns dos temas nacionalistas explorados por Debí Tirar Más Fotos fortalece o discurso de valorização da soberania do sul global.
O trabalho, entretanto, não se pauta só na política: Bad Bunny também canta sobre coração partido, experiências noturnas, vida em comunidade e o despertar romântico em batidas brilhantemente criadas por produtores e musicistas de estilos latinos variados. Em uma concorrência contra álbuns lançados no ano retrasado que tiveram pouco impacto em 2025; álbuns pop extremamente aclamados em seu nicho, mas que fizeram pouco barulho entre o público geral; e trabalhos que sequer tinham mérito suficiente para ter sido indicados, a vitória de Bad Bunny finalmente reconhece o status de artista pop conquistado por ele em todos os seus lançamentos e premia um trabalho muito bem construído.
1° lugar: Cowboy Carter, de Beyoncé
Dez anos antes da edição de 2025, Beyoncé era a vencedora incontestável da categoria de álbum do ano com o revolucionário Beyoncé (2013). O mérito não foi reconhecido pelos votantes da categoria, que decidiram premiar Morning Phase (2014), do Beck. A mesma sina se repetiu com seus dois lançamentos seguintes, Lemonade (2016) e Renaissance (2022). A tão antecipada vitória de Beyoncé só veio com Cowboy Carter (2025): o álbum que mais a distanciou de seu status de "diva pop" ao investir na sonoridade country. Assim como Debí Tirar Más Fotos, Cowboy Carter une um forte posicionamento sociopolítico, com o resgate das origens negras em um gênero que se tornou dominado por artistas brancos no mainstream, a letras que tratam de temas leves, românticos, sensuais e divertidos. Apesar da base forte no estilo sonoro e estético do country, Beyoncé traz um trabalho multigênero, que investe também em marcas do folk, pop, blues rock e psicodélico. O trabalho é um show de referências que mostra o entendimento da artista sobre as raízes dos gêneros trabalhados: desde o cover de "Blackbird", dos Beatles, até as homenagens a músicas icônicas de Dolly Parton e Nancy Sinatra.
Cowboy Carter disputava em uma lista de fortes concorrentes no âmbito pop, em um embate com alguns dos lançamentos mais populares do ano: Brat, Hit me Hard and Soft e Short n' Sweet eram alguns de seus algozes. Há quem diga que Beyoncé ganhou pela narrativa de rejeição que construiu ao longo da última década. É mais fácil, contudo, reconhecer a qualidade da performance vocal; a riqueza de elementos em cada instrumental e como todas as faixas se constroem em uma evolução; a forma como Cowboy Carter não soa como nenhum álbum country, ou pop, que já tenha sido lançado; a qualidade da masterização e da mixagem. Simplesmente, a grandeza do trabalho e o patamar artístico cada vez mais incomparável que Beyoncé alcança a cada novo lançamento. Trouxe um gênero de nicho para as paradas até mesmo de países internacionais e representou um novo auge artístico aos 30 anos de carreira. Se isso não é um "álbum do ano", nada mais é.