Correio da Manhã
Cinema

Michael Jackson ainda é o Rei do Pop

Sucesso mundial de bilheteria, a biopic do cantor aumenta interesse do público e canções do astro registram alta de execuções nas plataformas de streaming

Michael Jackson ainda é o Rei do Pop
Jaafar Jackson deu vida ao tio, Michael, na cinebiografia. Seu desafio foi tentar não fazer uma imitação. Crédito: Divulgação/ Lionsgate

Protagonizado por Jaafar Jackson, sobrinho do rei do Pop, 'Michael' é um fenômeno de público. Devido ao feriado de Tiradentes, o longa estreou antecipadamente, em 21 de abril, o que rendeu a ele um dia a mais na semana de abertura, coroada com o recorde do ano no Brasil até o momento. Foram mais de 1.7 milhão de espectadores no fim de semana e a maior abertura de 2026 no país, arrecadando mais de R$ 40 milhões.

Após os sucessos de cinebiografias como "Bohemian Rhapsody" (2018) - que contou a história de vida de Freddie Mercury e da banda Queen -, e de "Rocketman" (2019) - musical sobre Elton John -, era apenas uma questão de tempo para que o maior músico de todos os tempos ganhasse sua própria adaptação para as telonas. Para chegar próximo da aparência e energia de Michael Jackson, a produção decidiu apostar no próprio sangue da família, convidando o sobrinho do Rei do Pop, Jaafar - filho de Jermaine Jackson -, para dar vida ao tio. E o garoto teve uma abordagem tão respeitosa e querida, que vem recebendo elogios da crítica internacional.

Conforme revelou o diretor do filme, Antoine Fuqua ('O Protetor'), o trabalho de Jaafar era de muito risco, ainda mais para o primeiro papel de um ator, mas ele soube sintetizar a personalidade de Michael Jackson com maestria. "O que te atrai para o mundo de Michael é a autenticidade absoluta de Jaafar. Todos concordamos que não poderia haver imitação do Michael. Em vez disso, o que Jaafar conseguiu foi estar completamente presente e trazer aquele mesmo espírito positivo que vimos Michael trazer para tudo o que ele fez. É algo que você pode sentir", afirmou o diretor.

Outro destaque do longa que vem transformando as salas de cinema do mundo em verdadeiras casas de shows é o poder dos shows históricos do músico, que foram recriados com muita fidelidade. Segundo o diretor, esses momentos transcendem 'apenas' quem foi o Michael e consegue dialogar com o público ao fazê-lo relembrar de como era vida na época do concerto. "Em toda cena de shows, eu queria que o público sentisse que está bem ali, o mais próximo possível de Michael. Para os fãs, esses momentos lembram não só quem Michael era, mas quem você era quando ouviu essas músicas pela primeira vez. E para quem está descobrindo Michael, eles são uma revelação", afirmou Fuqua.

A produção do filme contou com mais de 400 funcionários que tiveram muito empenho, principalmente nessa questão de recriar os shows. Internamente, a produção sabia que a 'playlist' seria a alma do filme, então conseguir retratar as apresentações de Michael Jackson com o máximo de fidelidade e emoção era a grande prioridade dos bastidores. "Em nossas sequências de concerto, é como se você estivesse preso à câmera, voando pelo estádio. Você está com Michael no palco um minuto, e na plateia no minuto seguinte. Ninguém nunca viu uma apresentação dele assim antes. Mesmo que você tivesse a sorte de ver Michael ao vivo, você o verá e ouvirá de um jeito que ninguém jamais viu" explicou o supervisor musical John Warhurst.

Compreender o homem por trás do mito

O longa foi escrito por John Logan ('007 – Operação Skyfall'), que traz no currículo três indicações ao Oscar e um prêmio Tony, o "Oscar do teatro". A ideia do projeto era conseguir decifrar Michael Jackson além de seu sucesso estrondoso na indústria musical. Quem era o homem por trás dos prêmios? O que aconteceu em sua vida para que ele se tornasse esse ícone mundial, capaz de parar ruas apenas por estar nelas?

Para ele, conseguir traduzir sua vida e seu poder de dialogar com diferentes idiomas por meio da música em palavras foi desafiador, mas 'irresistível'. "O que estava por trás de tudo isso era o coração pulsante de um homem que queria trazer alegria. Ele acreditava profundamente em sua música como um ato espiritual, e no fato de que ele realmente sentia que essas músicas poderiam unir o mundo inteiro e curar o mundo de certa forma. Então, quando comecei a olhar para a vida do Michael, fiz a pesquisa como um dramaturgo pesquisando material histórico. Entrei e li tudo, tanto o material sobre Michael quanto as centenas de páginas de anotações que ele escreveu para si mesmo, notas inspiradoras, letras de músicas. Como uma música como 'Beat It' passou de uma ideia inicial para uma apresentação final?", questiona o roteirsta. "Para mim, foi uma jornada muito simples, de um homem que precisava se tornar livre. Porque ele veio do nada, em Gary, teve uma relação difícil com o pai, e o The Jackson 5 o tornou uma superestrela global quando ele tinha dez anos. O resto da vida dele teve a ver com ser livre e finalmente ser Michael Jackson, o artista solo. Então, para mim, é uma história alegre, sobre criatividade. Como escritor, era algo irresistível", completa Logan.

Por fim, ele explicou como foi o processo de escolha das músicas que entraram para o filme.

"Eu queria que o mundo visse onde tudo começou, desde suas raízes no The Jackson 5 até o lançamento de sua carreira solo, e revelasse as batalhas pessoais pela liberdade criativa e pessoal que alimentaram seu fogo. Apesar de tudo isso, sua paixão e determinação incansável deram ao mundo algumas das melhores músicas já feitas. Cada música escolhida e cada apresentação dramatizada que escolhemos foi feita para levar e acompanhar Michael em sua jornada pessoal", concluiu.

Público 'redescobre' o Rei

Talvez o maior legado imediato de 'Michael' seja o redescobrimento de parta do público das canções do Rei do Pop. De acordo com dados fornecidos pelo streaming musical Deezer, as reproduções das músicas de Michael Jackson cresceram 153%, fazendo o cantor subir 40 posições no ranking dos artistas mais ouvidos da plataforma e alcançar o #68 lugar na semana de estreia do filme.

Com isso, as 10 músicas mais ouvidas pelos brasileiros na plataforma foram, nesta ordem: "Billie Jean", "Beat It", "Thriller", "Smooth Criminal", "Don't Stop 'Til You Get Enough", "They Don't Care About Us", "Human Nature"; "Heal The World" e "Bad e You Are Not Alone".

Nos rastros do Rei do Pop

Nos rastros do Rei do Pop
Em seus shows, Rodrigo Teaser aposta na reprodução fiel de figurinos, coreografias e arranjos das canções eternizadas por Michael Jackson Crédito: Divulgação

Leonardo Volpato (Folhapress)

Fã de Michael Jackson desde que tinha cinco anos e cover do artista desde os nove, Rodrigo Teaser, 46, diz estar ansioso para entender como a repercussão do filme "Michael" - em cartaz nos cinemas - vai impactar o seu trabalho. Ele se apresenta em shows pelo Brasil e em outros países, sempre caracterizado como o Rei do Pop.

"Desde que o meu show estreou, em 2012, é a primeira vez que temos algo assim", comenta. "Nos últimos anos, o que a gente experimentou foi o oposto. Documentários atacando a imagem dele, tentativas de cancelamento infundadas e ainda assim seguimos trabalhando muito. Não sei se vai ter um aumento na agenda, talvez tenha uma busca maior por ingressos."

O cover afirma que adorou o longa que tem Jaafar Jackson na pele do tio, Michael. Ele já assistiu quatro vezes à produção, mas ainda tem suas ressalvas. "Confesso que, mesmo tendo gostado do filme, não é o roteiro que eu esperava", avalia. "Perderam uma oportunidade de justificar traumas importantes da vida do MJ. Mas o Jaafar foi uma escolha certíssima."

No último dia 2 de maio, o artista independente se apresentou para 15 mil no Changsha International Convention & Exhibition Centre, na China, com o espetáculo "Michael Lives Forever". Em suas turnês por mais de dez países, Rodrigo já dividiu o palco com músicos que fizeram parte da banda do ídolo, incluindo a guitarrista Jennifer Batten, o backing vocal Kevin Dorsey e o baterista Jonathan Moffett.

O entusiasmo dele é grande ao falar sobre a notoriedade que ganhou perante a equipe que trabalhou com Jackson. Até hoje, ele foi o único brasileiro autorizado a entrar em Neverland, residência oficial do ídolo. "E meu show é o único a ter supervisão do coreógrafo original do MJ, LaVelle Smith Jr., que trabalhou com ele por quase 20 anos e que coreografou Beyoncé, Ricky Martin, Janet Jackson, Rihanna etc.", afirma.

O amor por Michael Jackson começou de uma forma inusitada na vida de Rodrigo. Na época da escola, ele era muito retraído, mas às escondidas usava a dança para se soltar. Sua mãe percebia nele um talento nato, e até para ajudar a ultrapassar a timidez, o colocava para performar na frente de toda a família.

"Depois que ela notou que meu passatempo era dançar Michael Jackson em casa, passou a me incentivar. Uma vez que você experimenta algo que te faz bem e te coloca num lugar especial, você sempre vai tentar fazer aquilo melhor", recorda.

Conforme ele foi crescendo, seu dom para seguir os passos e os trejeitos do astro aumentava na mesma proporção. Ele começou a se dedicar aos mínimos detalhes para que o que era hobby se transformasse numa profissão.

"Minha família me apoia desde o início. Algumas das recordações mais queridas que tenho são da minha família reunida ajudando a montar figurinos. Minha esposa, que hoje é minha empresária, eu conheci há 25 anos enquanto fazia um show."

Como rotina, Rodrigo conta que leva cerca de 1h30 se maquiando e faz isso por conta própria. Outra paixão é encontrar detalhes que possam aperfeiçoar as vestimentas de MJ. "Eu posso usar uma luva de lantejoulas? Sim. Posso usar uma luva de brilhantes falsos? Também. Mas quando você sobe no palco com uma réplica fiel de cristais Swarovski, quem é fanático percebe", diz.

O artista independente afirma que hoje consegue ter uma vida confortável com sua arte, e projeta dar um novo passo na carreira. "Eu fiz coisas e realizei feitos que nunca imaginei como um artista cover. No início, eu só queria levar minha apresentação para a mesma casa de shows dos artistas que eu admirava. Fiz Broadway, show na Copa do Mundo, viajei todos os continentes", comenta. "Agora, meu maior sonho é fazer minha própria música, sair das sombras e passar a existir."