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Exposição leva debate sobre racismo na medicina brasileira

Por Redação

A discussão sobre vieses raciais na medicina ganha novos contornos e amplia seu alcance com a exposição "Nigrum Corpus", iniciativa que transforma um estudo aprofundado sobre desigualdades no atendimento em saúde em uma experiência visual acessível ao público. Gratuita, a mostra pode ser visitada até o dia 21 de abril nos hospitais Samaritano e Vitória, localizados na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, unidades da Rede Américas, segunda maior rede hospitalar do país.

Partindo da ideia de que nem todas as "doenças" são identificáveis por exames clínicos, "Nigrum Corpus" evidencia um problema estrutural ainda presente na medicina contemporânea: o viés racial. A exposição apresenta, por meio de cartazes, relatos e estudos que retratam situações de preconceito e desigualdade, promovendo um percurso de letramento étnico-racial voltado a estudantes, profissionais da saúde e instituições de ensino.

A iniciativa se inspira no livro homônimo idealizado pela agência Artplan, que reúne um estudo sobre o racismo no Brasil a partir de 20 doenças fictícias, baseadas em experiências reais. O projeto foi amplamente reconhecido em premiações nacionais e internacionais, acumulando conquistas expressivas em festivais como Cannes Lions, Effie Awards e El Ojo de Iberoamérica, o que reforça sua relevância tanto no campo criativo quanto no impacto social.

A versão audiovisual do projeto, intitulada "Corpo Preto", também recebeu destaque, sendo shortlist no PPA, demonstrando a força da narrativa em diferentes formatos. Para Cláudia Romano, presidente do Instituto Yduqs e vice-presidente do Grupo Educacional Yduqs, a educação desempenha papel central na promoção de mudanças estruturais, especialmente ao abordar de forma aberta o viés racial na medicina e contribuir para um sistema de saúde mais justo.

Na mesma linha, Silvio Pessanha, CEO do IDOMED, ressalta que levar "Nigrum Corpus" para além do ambiente acadêmico amplia a conscientização sobre os impactos do racismo na saúde, além de contribuir para a formação de profissionais mais atentos à diversidade, empáticos e comprometidos com práticas inclusivas.

Mais do que uma exposição, "Nigrum Corpus" se consolida como um instrumento de transformação social, reafirmando o compromisso das instituições envolvidas com a construção de uma medicina mais diversa, consciente e alinhada às demandas contemporâneas.

A iniciativa integra o programa Mediversidade, desenvolvido pelo Instituto Yduqs e pelo IDOMED, que busca promover mudanças no ensino médico por meio de práticas mais inclusivas, estruturadas nos pilares Ensinar, Incluir e Mobilizar. Entre as ações previstas estão o incentivo à pesquisa científica sobre diversidade, a revisão da matriz curricular dos cursos de Medicina — com meta de implementação em 70% das unidades até 2026 —, além da ampliação de políticas afirmativas e da oferta de serviços voltados a pacientes com diferentes marcadores étnico-raciais.

O programa também prevê a criação de um fundo de investimento para apoiar pesquisas e soluções voltadas à eliminação de vieses, bem como a oferta de bolsas de estudo destinadas a negros, indígenas e pessoas com deficiência, com reserva de vagas e incentivo à inclusão. Soma-se a isso a aquisição de simuladores com diversidade racial para aprimorar a formação prática dos estudantes.

A pauta da diversidade também é prioridade na Rede Américas. De acordo com Ricardo Mota, diretor de gente e gestão, a instituição desenvolve ações voltadas à promoção dos direitos humanos, incluindo grupos de afinidade, participação em iniciativas como o Fórum de Empresas e Direitos LGBTI e a adoção de protocolos específicos para o atendimento de pessoas trans. A rede também integra o Pacto Global pela inclusão de pessoas negras, com foco na ampliação da presença desses profissionais em cargos de liderança, contribuindo para transformações estruturais no setor.