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Cais do Valongo 15 anos depois

Cais o foi, na época colonial e imperial, o maior porto do país e da escravidão | Foto: Agência Brasil/Tomaz Silva

A cidade do Rio de Janeiro relembra, nesta quinta-feira (26/2), o reencontro com um marco fundamental de sua identidade e da história global: os 15 anos da redescoberta do Cais do Valongo. Identificado em 2011 durante as escavações das obras de revitalização do Porto Maravilha, o sítio arqueológico — reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco em 2017 — é o símbolo da Diáspora Africana nas Américas.

O porto teria sido o local de chegada de mais de 1 milhão de homens, mulheres e crianças africanos para serem escravizados, em um dos episódios mais cruéis da história da humanidade. Desde então, o espaço reafirma sua importância como centro de memória e educação: escolas municipais e privadas utilizam o Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana como ferramenta pedagógica, e a comunidade científica encontra no achado fonte inesgotável para novas pesquisas sobre o Brasil.

A operação que pretende reconectar a Pequena África, unindo Praça Onze, Cais do Valongo e Sambódromo, traz números robustos: expectativa de investimento de R$ 1,75 bilhão e construção de 38 mil unidades residenciais para atrair mais de 100 mil novos moradores nos próximos 25 anos. As obras vão demolir o Viaduto 31 de Março e erguer a nova Biblioteca dos Saberes, com assinatura do arquiteto vencedor do prêmio Pritzker, Diébédo Francis Kéré, potencialmente um dos principais equipamentos culturais do Rio nas próximas décadas.

Descoberta do Cais

Construído em 1811, o cais ficava afastado do Centro, na antiga Freguesia de Santa Rita, com o objetivo de ocultar as condições degradantes do tráfico de pessoas escravizadas, um dos pilares da economia brasileira à época. Operou legalmente até 1831, quando a atividade foi proibida internacionalmente "para inglês ver". Mas a atividade prosseguiu clandestinamente por anos até as reformas estruturais que ocultaram os vestígios dessa história.

Em 1843, ganhou estátuas gregas e passou por obras para ser rebatizado como Cais da Imperatriz, com a finalidade de recepcionar Teresa Cristina, vinda da Europa, para se casar com Dom Pedro II. Posteriormente, em 1911, foi novamente soterrado durante as reformas urbanísticas do prefeito Pereira Passos.

Desenterrado um século depois de seu último soterramento, o cais foi preservado como memorial a céu aberto para visitação pública em acordo entre a Prefeitura e lideranças do movimento negro. Com a descoberta do sítio, o projeto viário do Porto Maravilha para a Rua Barão de Tefé, que previa duas mãos de direção, foi então alterado para mão única.

Assim, o Cais do Valongo tornou-se o eixo central do Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana, sinalizado pela Prefeitura, que possui marcos como Cemitério dos Pretos Novos, Pedra do Sal, Jardim Suspenso do Valongo, Largo do Depósito e o Centro Cultural José Bonifácio. Em parceria entre a Secretaria Municipal de Educação (SME) e o Instituto Pretos Novos (IPN), o circuito tornou-se uma ferramenta educativa viva, levando todos os anos milhares de alunos da rede municipal para conhecer de perto a história.