Por: Paula Vieira

Ato reafirma Estado laico e equidade religiosa

Líderes de diferentes crenças organizados pelo mesmo propósito | Foto: Luan Cezário

Líderes de diversas crenças realizaram um ato em frente à Prefeitura do Rio, na Cidade Nova, em defesa do Estado laico e da equidade religiosa. Cerca de 300 pessoas formaram um cordão humano de mãos dadas para cobrar tratamento igualitário no uso de espaços públicos. A manifestação, realizada na última quarta-feira (14) reuniu católicos, evangélicos, judeus e representantes de matriz africana.

O protesto ocorreu em meio à controvérsia envolvendo a instalação de um palco gospel no Réveillon da Praia do Leme, episódio que reacendeu o debate sobre o tratamento desigual entre manifestações religiosas promovidas e financiadas pelo poder público.

Líderes pedem igualdade de direitos

Participaram nomes como o babalawô Ivanir dos Santos, o Padre Gegê e o Pastor Julio Costa. A queixa central foi o palco gospel no Réveillon do Leme, com financiamento público. Líderes pedem que o Estado trate todas as crenças com igualdade e defendem que a verba municipal não pode beneficiar apenas uma.

A abertura das falas ficou a cargo de Padre Gegê, que entoou o canto histórico “O povo unido jamais será vencido”. A canção foi acompanhada em coro por todos os presentes, transformando a frente da Prefeitura em um espaço de afirmação democrática, memória coletiva e resistência.

“O que está em jogo aqui não é opinião, é o cumprimento da Constituição. O Estado brasileiro é laico, e a laicidade não é concessão política, é dever legal. Quando o poder público escolhe quem pode ocupar o espaço financiado com recursos públicos, ele deixa de ser laico e passa a produzir exclusão institucional”, disse o  advogado Carlos Nicodemos, membro conselheiro do CNDH (Conselho Nacional de Direitos Humanos), que atua na defesa dos direitos religiosos e integra a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa.

“Defender o Estado laico é garantir que nenhuma fé seja silenciada e que nenhuma crença seja transformada em instrumento de privilégio”, disse o babalawô Ivanir dos Santos.

Macaque in the trees
De mãos dadas, religiosos destacam o respeito entre diferentes crenças | Foto: Luan Cezário

Representando a Association Sholem Aleichem (ASA), David Albagli Gorodicht destacou o apoio da comunidade judaica ao ato: “Estamos dando apoio a esta causa dentro do espectro da comunidade judaica, que luta pelo Estado laico. Consideramos fundamental essa afirmação”.

O pastor Julio Costa, da Igreja Igreja Evangélica Assembleia de Deus do Ministério Luz Apostoloca, em Belford Roxo, enfatizou o caráter ecumênico da mobilização: “Esse ato foi a defesa do Estado laico. É muito importante defendermos para que haja tratamento igualitário para todas as religiões”.

Já Carlos Alberto Pracias, babalorixá do Asé Ilê Omim Odara, em Mesquita, destacou a relação direta entre laicidade e democracia: “O ato foi muito importante para que a gente pudesse manter um Estado realmente laico e também a democracia. Se pode para um, tem que poder para todos. Se não pode para nenhum, não pode para ninguém”, enfatizou.

Respeito à diversidade religiosa

A palavra de ordem do ato foi "Essa Gente Somos Nós" | Foto: Luan Cezário

Com o lema "Essa Gente Somos Nós", o grupo reforçou que a democracia exige respeito à diversidade. Além de falas, o ato teve o Reisado Filhos da Flor. O objetivo central foi reafirmar que o espaço público é de todos e que nenhuma religião deve ser invisibilizada pelo município. A união marca a luta por justiça e por direito.

Para os participantes, a mobilização reafirmou que a defesa do Estado laico não representa ataque a nenhuma fé, mas uma exigência de justiça, equidade e respeito à pluralidade religiosa brasileira.