Política

Depois da polêmica sobre a Padroeira, Flávio e Lula evitam presença nos festejos de Nossa Senhora

Candidatos participaram de missas mais reservadas em Brasília

Depois da polêmica sobre a Padroeira, Flávio e Lula evitam presença nos festejos de Nossa Senhora
Flávio participou de uma missa na Catedral de Brasília Crédito: Valter Campanato/Agência Brasil

No Santuário de Nossa Senhora Aparecida, na cidade de Aparecida do Norte (SP), a presença apenas dos candidatos a vice nas celebrações do dia da Padroeira do Brasil. Na véspera, cerca de dois milhões de pessoas participaram da principal procissão do Círio em homenagem a Nossa Senhora de Nazareth em Belém (PA) sem maior presença de políticos.

Depois de toda a polêmica no primeiro turno em torno de Nossa Senhora, as cerimônias em torno da devoção à mãe de Jesus Cristo acabaram evitadas. O candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, enviou como seu representante a Aparecida do Norte seu candidato a vice, o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL). O mesmo fez Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, candidato à reeleição: foi representado no Santuário de Aparecida por seu vice, Geraldo Alckmin.

De forma mais discreta, porém, os dois candidatos participaram das celebrações a Nossa Senhora em seu dia. Pela manhã, Lula assistiu a uma missa na capela do Palácio da Alvorada. E Flávio também foi a uma missa em homenagem a Nossa Senhora na Catedral de Brasília.

Para o advogado e analista político Melillo Dinis, que representa a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) no Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral, a exploração de Nossa Senhora Aparecida no primeiro turno das eleições acabou gerando forte desgaste às duas campanhas. “A maior prejudicada foi a própria Nossa Senhora”, avalia Melillo. “Mas ninguém tirou proveito político de fato disso. E tentar agora explorar politicamente um momento de devoção seria um erro ainda maior. Ninguém vai ao Círio de Nazareth ou ao Santuário de Nossa Senhora para encontrar políticos pedindo votos. E não se deve subestimar a inteligência e a fé das pessoas”.

Atos

O fim de semana de feriado foi marcado, então, por atos de campanha dos candidatos. No sábado (10), Flávio Bolsonaro participou de uma motociata em São Gonçalo (RJ), que contou também com a presença do governador eleito do Rio, Douglas Ruas (PL). O PT de Lula realizou manifestações em São Paulo, na Avenida Paulista, no domingo (11), e em Copacabana, no Rio de Janeiro, nesta segunda-feira (12).

Bolsonaro

Após a missa na Catedral de Brasília, Flávio Bolsonaro celebrou a permissão dada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes de poder voltar a visitar seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que se encontra em prisão domiciliar como resultado da condenação por tentativa de golpe de Estado. Ele informou que estará com Bolsonaro nesta terça-feira (13).

“Fiquei muito feliz que, no dia de Nossa Senhora Aparecida, é o dia em que estou autorizado novamente a visitar meu pai, vítima de uma injustiça. Hoje é só agradecer a Deus, agradecer a todo mundo que está rezando pelo nosso Brasil”, disse.

Lula

Após a missa no Alvorada, Lula também falou com a imprensa. E pregou a liberdade religiosa. “Em um país civilizado, harmônico e democrático, cada um segue a religião que quiser e todos nós temos que respeitar. Ninguém é obrigado a ser da mesma religião. O que precisamos apenas é respeitar a fé e a espiritualidade das pessoas”, afirmou.

Ao lado de crianças vestidas com camisetas do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), o presidente enfatizou a relevância do Minha Casa, Minha Vida, que Lula chamou de maior programa habitacional do país.

Lula mencionou metas de contratação de moradias desde o início da política habitacional e a entrega prioritária de 85% das chaves das casas a mulheres. “É possível acabar com o déficit brasileiro habitacional no Brasil, quando a gente faz os investimentos necessários, atendendo a parte mais pobre da população brasileira.”

Estratégias distintas

Perto do segundo turno, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) adotaram estratégias distintas. Atrás do adversário no primeiro turno, Lula busca corrigir falhas de organização e mobilização; Flávio tenta converter o apoio de partidos de centro, direita e centro-direita em votos.

Lula retomou as agendas de rua, que prosseguiram pelo fim de semana, em Ceilândia, no Distrito Federal, ao lado do candidato do partido ao GDF, Leandro Grass (PT), que disputa o governo distrital. Flávio reuniu empresários e apoiadores no Rio com Douglas Ruas (PL), eleito governador após a retotalização dos votos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que anulou os recebidos por Anthony Garotinho.

Para Rodrigo Prando, cientista político da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Flávio saiu das urnas com percepção de fortalecimento político, enquanto Lula precisa responder ao desgaste do governo e da campanha. “Lula reorganizou a campanha porque ele precisa tirar uma vantagem que não é apenas numérica”, afirma, sobre a imagem transmitida a eleitores e aliados.

Eduardo Galvão, especialista em relações governamentais e professor do Ibmec Brasília, pondera: “Reorganizar uma equipe não significa necessariamente melhorar a comunicação com o eleitor, assim como conquistar o apoio de lideranças políticas não garante a transferência de votos”.
Reorganização Lula

O Senador Camilo Santana (PT-CE) passou a dividir a coordenação-geral com Edinho Silva, presidente nacional do PT, enquanto Rui Costa, ex-ministro da Casa Civil, reforçou a organização das agendas e a articulação com lideranças. “Não há trocas, mas sim reforços”, declarou Camilo na sexta. Ele atuará na estratégia, negociação política e coordenação do segundo turno. Lula classificara a campanha como a menos organizada desde 1989, levando o PT a rever comunicação e mobilização.

Segundo Camilo, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro serão prioridades. Dados municipais e de abstenção orientarão as agendas. Lula quer participar de ao menos três debates, incluindo Band e Globo. No Nordeste, onde venceu nos nove estados, o PT quer ampliar votos e mobilizar ausentes. Após atuar na eleição cearense, Camilo buscará ampliar os votos de Lula no Ceará.

Flávio e alianças

Flávio Bolsonaro dedicou a primeira semana à consolidação dos apoios de União Brasil, Progressistas, Republicanos, Podemos e Novo, além de Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Augusto Cury, derrotados no primeiro turno. No Rio, associou a candidatura a investimentos, infraestrutura e empregos: “A gente vai resgatar a credibilidade do Brasil e do Rio”. Também buscou apresentar a mudança como uma proposta além da polarização.

Rodrigo Prando vê na estratégia a tentativa de explorar tanto a votação presidencial quanto o fortalecimento de forças conservadoras no Congresso e a expansão do PL. Lideranças dão capilaridade à campanha, mas o efeito exige mobilização local. Eduardo Galvão ressalta, “As pessoas não transferem automaticamente seus votos porque um partido ou candidato derrotado decidiu apoiar outra candidatura”. A escolha pode anteceder a aliança formal, que reforça tendências sem transferência proporcional.