Política

Lula e Flávio intensificam ataques, em busca dos indecisos

A uma semana do primeiro turno, candidatos apostam em Bets, caso Master e pontos da economia para atrair eleitores

Lula e Flávio intensificam ataques, em busca dos indecisos
Lula e Flávio trabalham para atrair e não perder votos Crédito: Paulo Pinto/Agência Brasil e Reprodução/Vídeo

Na última semana antes do primeiro turno das eleições gerais neste domingo (4), os principais candidatos à Presidência da República usam suas últimas cartas antes do fim do período da propaganda eleitoral, nesta quinta-feira (1º).

E em um cenário tão polarizado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) têm intensificado os ataques diretos um contra o outro em suas campanhas eleitorais, estratégia que deve seguir nos próximos dias.

Tempos de fake news

Em entrevista ao Correio da Manhã, a consultora de Análise Política Federal na BMJ Consultoria Raquel Alves avaliou que, nos dias finais que antecedem a eleição, as campanhas operam em duas velocidades distintas. “Em um plano ‘formal’ e nas ruas vale a ‘campanha raiz’: presença física nos maiores colégios eleitorais, atos com puxadores de voto, exposição máxima. O outro plano é o universo digital, onde a temperatura vai aumentar mais. E, infelizmente, há o risco de uma semana de boatos e fakenews. Não pelas campanhas oficiais, dado que isso poderia resultar em problemas legais, mas pelas militâncias”, afirmou a analista política para a reportagem.

E para além desses dois campos de atuação nas campanhas eleitorais, o cientista político Elias Tavares ainda reiterou que a estratégia das campanhas eleitorais de ambos os principais candidatos mira em “consolidar suas bases, evitar qualquer perda de voto e, principalmente, disputar aqueles últimos eleitores que ainda podem migrar de candidatura”.

“Nisso entra muito forte essa guerra de narrativas. A eleição chega à última semana extremamente polarizada e praticamente todo fato novo passa a ser incorporado imediatamente ao discurso eleitoral”, completou Tavares em conversa com o Correio da Manhã.

Bets

Pode-se citar como exemplo nessa guerra de narrativas a campanha de Flávio Bolsonaro em chamar Lula de “pai das Bets”, referindo-se à chamada Lei das Bets (Lei nº 14.790/2023), sancionada no primeiro ano da gestão 3 do petista.

A legislação regulamentou a atuação de casas de apostas on-line, que antes atuavam na informalidade total operando de fora do país sem autorização nem tributação. Contudo, a Lei deixou brechas. “O texto original deixou margem para a proliferação massiva de jogos virtuais programados de alta volatilidade, que não se comportam como apostas esportivas de quota fixa tradicionais, como o ‘jogo do tigrinho’ e outros cassinos virtuais”, explicou para a reportagem o professor de economia Márcio Salvato.

Diante dessa brecha na legislação, na última sexta-feira (25) o presidente Lula assinou a Medida Provisória (MP) que restringe ainda mais a atuação das Bets. Porém, como a medida ocorreu dias antes do primeiro turno, Flávio Bolsonaro e opositores acusam a medida de eleitoreira.

Nossa Senhora

Por outro lado, a militância petista espalhou as redes com informação, negada por ele, de que Flávio Bolsonaro, evangélico, se eleito, retiraria de Nossa Senhora Aparecida do título de padroeira do Brasil.

Para a reportagem, o doutor em História, mestre em Ciência Política e professor de Relações Internacionais do Ibmec-BH Adriano Cerqueira considerou que, apesar de ambas as campanhas eleitorais de Lula e Flávio atacarem seus adversários, o movimento do petista está partindo para o “tudo ou nada”.

“A ideia é tentar impactar isso, tentar mexer com o eleitorado cristão, que é majoritário. E colocar uma situação de desconforto na candidatura de Flávio, que é identificado como um candidato religioso, conservador. E já o Lula, tem aquela pecha, de não ser tão religioso. Então, é uma tentativa de melhorar nisso”, ponderou Cerqueira.

Votos válidos

O mestre em Ciência Política considera que, para as eleições de 2026, a campanha de Lula está mais agressiva e a de Flávio mais. “A gente vê por parte do governo que está tentando a reeleição esse tipo de ação mais agressiva de última hora, no sentido de tentar segurar um ou dois pontos percentuais dos eleitores que estão no movimento de migração [de voto]. Eu identifico isso como uma ação meio desesperada para tentar estancar uma sangria percebida que é essa perda de votos”, afirmou Adriano Cerqueira.

Já Elias Tavares ainda reiterou que, “a essa altura da eleição, uma parcela muito grande do eleitorado já está consolidada, onde Lula e Flávio Bolsonaro têm eleitorados muito cristalizados”. Portanto, “a migração direta de um campo para o outro tende a ser mais difícil”. Diante disso, o foco não é necessariamente migrar o voto de um candidato para outro, mas ir atrás do eleitor que ainda está indeciso, do eleitor de votará em candidaturas menores e do eleitor que, apesar de já ter uma preferência, “ainda pode mudar de candidato ou até decidir não comparecer”.

“Quando os dois primeiros colocados passam a concentrar cada vez mais a eleição, cresce naturalmente o argumento de que o eleitor precisa escolher entre aqueles que aparecem com mais força na disputa. Por isso essa última semana pode não provocar uma transformação completa do cenário eleitoral, mas pode produzir movimentos importantes nas margens. E numa eleição apertada, às vezes não é necessário convencer milhões de pessoas. Uma movimentação relativamente pequena do eleitorado já pode alterar a distância entre os candidatos e até a configuração com que eles chegam ao segundo turno”, destalhou o cientista político.

Debate

Para a reportagem, Raquel Alves chamou a atenção para o debate eleitoral na TV Globo previsto para esta quinta-feira. Após não comparecem nos outros convites para os debates eleitorais, a expectativa é que Lula e Flávio compareçam ao menos no último debate antes do primeiro turno, mas ainda sem certezas.

Na visão da analista política, considerando que ambos os presidenciáveis compareçam, “o cenário em 2026 dá ao debate da noite de 1º de outubro um peso adicional já que os cortes para redes podem ter forte apelo emocional sobre esses dois grupos estratégicos que vão definir a eleição, que são os indecisos suscetíveis à onda de voto útil e sobre o eleitor que decide no dia da eleição, na última hora”.