O que começou com uma investigação envolvendo reportagens sobre o ministro Flávio Dino e avançou para uma disputa sobre o sigilo da fonte acabou expondo outras camadas de uma trama que hoje alcança o núcleo do poder no Maranhão.
As apurações que se cruzaram no Supremo passaram a reunir suspeitas de corrupção, obstrução da Justiça e desvios de recursos públicos. E agora uma das acusações chega ao Palácio dos Leões, sede do governo estadual.
Condenado a 13 anos de prisão pelo assassinato do empresário João Bosco Sobrinho, Gilbson Cutrim Júnior afirmou à Polícia Federal (PF) que circulava pelo Palácio dos Leões, mantinha reuniões com o governador Carlos Brandão (PSB) e transportava dinheiro que, segundo seu relato, era destinado ao grupo político do governador.
A acusação é grave, mas ainda está sob investigação. Não há, no depoimento, prova isolada de que Brandão tenha recebido propina. O governador nega qualquer participação e contesta a credibilidade de Gilbson. O peso do novo relato está em outro ponto, pois ele acrescenta uma peça ao conjunto de suspeitas que, nos últimos meses, transformou um homicídio ocorrido em 2022 em porta de entrada para apurações sobre pagamentos ilícitos, contratos públicos, emendas parlamentares e possíveis tentativas de interferir nas investigações.
De acordo com os depoimentos acessados pelo portal G1, Gilbson descreveu à Polícia Federal uma relação de proximidade com o núcleo político do governador. Disse que frequentava o Palácio dos Leões e que chegou a ter uma vaga reservada na garagem. Em um dos trechos mais fortes do depoimento, afirmou: “Eu pegava dinheiro deles, dele para levar pro Carlos, inclusive levei valores para dentro do palácio, entendeu?”
Um homicídio
Quando João Bosco foi morto a tiros por Gilbson, em agosto de 2022, o crime foi inicialmente tratado como resultado de uma desavença pessoal. Gilbson respondeu pelo assassinato e acabou condenado.
Anos depois, a versão apresentada à PF mudou a dimensão da história. O condenado passou a sustentar que o conflito que terminou em morte estava inserido em uma cobrança de dinheiro relacionada a pagamentos de contratos públicos. A PF passou a investigar essa hipótese e possíveis ações posteriores destinadas a impedir que o contexto viesse à tona.
As decisões de Flávio Dino mostram que os investigadores tentam descobrir se Gilbson exercia uma função operacional em tratativas de pagamentos ilícitos e se, depois de preso, sua família passou a receber auxílio financeiro para que ele permanecesse em silêncio. A decisão mais recente registra a hipótese de um “sistema continuado de repasses financeiros, entregas em espécie, pagamentos indiretos e custeio de despesas”.
É aí que aparece Daniel Brandão, sobrinho do governador. A PF investiga sua participação nas tratativas anteriores ao homicídio e sua possível ligação com recursos desviados de contratos públicos e emendas parlamentares. Dino determinou nesta semana seu afastamento por 180 dias da presidência do Tribunal de Contas do Maranhão (TCE-MA).
Também aparece Raimundo Cutrim, ex-secretário de Segurança Pública e delegado aposentado. Já alvo de prisão domiciliar em outra frente, ele é apontado pela investigação como possível articulador de ações para obstruir as apurações. É o mesmo Cutrim que posteriormente seria identificado pela PF como suposta fonte do jornalista Luís Pablo, levando o caso à um discussão nacional sobre quebra de sigilo.
Camadas
É justamente essa sucessão de personagens e investigações que transformou o episódio em uma Caixa de Pandora.
As reportagens de Luís Pablo sobre familiares de Dino provocaram uma investigação que alcançou sua suposta fonte. Quando decisões relacionadas a Cutrim e a outras apurações vieram à tona, apareceu um cenário muito mais amplo: um homicídio, suspeitas de pagamentos ilícitos, empresas e contratos públicos, recursos de emendas e possíveis ações para interferir na produção de provas. Agora, o depoimento de Gilbson acrescenta o Palácio dos Leões a esse mapa.
Carlos Brandão nega as acusações. Sua defesa também abriu uma batalha paralela sobre a própria investigação, sustentando que o STF não seria competente para conduzir apurações contra um governador, cuja prerrogativa de foro para crimes comuns é no STJ. Daniel Brandão também declara “absoluta inocência”.
A Polícia Federal ainda terá de separar relato de prova e verificar até onde as declarações de Gilbson encontram confirmação em documentos, movimentações financeiras, mensagens e outros elementos reunidos na investigação.
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