Política

Pesquisas do Veritá são suspensas pela Justiça Eleitoral após questionamentos sobre metodologia

Instituto que registrou o maior número de pesquisas no TSE em 2022 enfrenta decisões judiciais em diferentes estados nas eleições de 2026; casos envolvem amostragem, cronograma, transparência e possíveis duplicidades de dados

Pesquisas do Veritá são suspensas pela Justiça Eleitoral após questionamentos sobre metodologia
Instituto Verita tem sua credibilidade questionada por conta da metodolodia das pesquisas Crédito: Divulgação

O Instituto Veritá, que registrou o maior número de pesquisas eleitorais no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nas eleições de 2022, voltou ao centro de disputas judiciais neste ano. Levantamentos realizados pelo instituto foram suspensos ou tiveram a divulgação questionada pela Justiça Eleitoral em diferentes estados por problemas relacionados à metodologia, à composição das amostras, à transparência dos dados e ao próprio cronograma de coleta.

Em 2022, o Veritá registrou 152 pesquisas no TSE, abrangendo disputas para presidente, governador e Senado, segundo levantamentos publicados sobre a atuação do instituto naquele pleito.

Nas eleições de 2026, porém, decisões judiciais passaram a examinar de forma mais rigorosa alguns dos levantamentos apresentados pela empresa. Os questionamentos não significam, por si só, que todas as pesquisas do instituto sejam inválidas ou que tenha havido fraude comprovada. Em diferentes processos, magistrados apontaram inconsistências específicas e determinaram a suspensão da divulgação enquanto os casos são analisados.

A legislação eleitoral exige que as pesquisas sejam registradas e contenham informações suficientes para permitir a fiscalização de sua metodologia. O TSE destaca que o registro deve apresentar, entre outros dados, período de realização, plano amostral, margem de erro e informações metodológicas.

Rio Grande do Norte aponta distorção na amostra

Um dos casos envolve o Rio Grande do Norte. O TRE-RN identificou inconsistências na composição da amostra de pesquisas do Veritá e apontou uma participação de 34% de eleitores com ensino superior completo ou incompleto, percentual considerado muito superior ao perfil registrado no eleitorado estadual.

A própria jurisprudência reunida pelo TRE-RN para as eleições de 2026 registra caso envolvendo o Veritá no qual foram apontadas inconsistências no plano amostral, falta de especificação das bases utilizadas e distorções demográficas. A decisão menciona ainda a super-representação de segmentos de maior renda e a sub-representação das faixas economicamente menos favorecidas.

O tribunal considerou que a combinação dos problemas poderia comprometer a representatividade e a confiabilidade do levantamento.

A exigência de transparência não é meramente formal. O próprio TSE afirma que os dados registrados devem permitir a fiscalização da composição da amostra, da metodologia empregada e da adequação do levantamento ao perfil do eleitorado.

Sergipe também questionou composição do eleitorado

Em Sergipe, o questionamento envolve novamente a composição da amostra. O levantamento atribuiu participação elevada a eleitores com ensino superior, acima dos parâmetros apresentados nas bases utilizadas como referência.

O problema central, nesse tipo de situação, não é simplesmente o número absoluto de entrevistados, mas quem foi ouvido e em que proporção. Uma amostra pode ter milhares de entrevistas e ainda assim apresentar distorções caso determinados grupos estejam representados acima ou abaixo de sua participação no universo pesquisado. É justamente por isso que a regulamentação eleitoral exige que a composição da amostra seja informada à Justiça Eleitoral e possa ser fiscalizada.

Tocantins teve pesquisa suspensa antes do fim da coleta

No Tocantins, uma decisão do Tribunal Regional Eleitoral chamou atenção para uma inconsistência diferente. A pesquisa registrada pelo Veritá previa entrevistas entre 29 de março e 4 de abril de 2026. No entanto, a data indicada para divulgação dos resultados era 3 de abril, um dia antes do término previsto para a coleta.

A contradição foi classificada pelo relator como um problema “lógico, metodológico e legal”. A Justiça Eleitoral determinou a suspensão da divulgação do levantamento. Além do cronograma, a ação questionou outras informações apresentadas no registro, incluindo a ausência de detalhamento sobre a coleta e dados geográficos da amostra.

Espírito Santo teve questionamentos sobre distribuição das entrevistas

Outro caso relevante ocorreu no Espírito Santo. Em uma pesquisa do Veritá com 1.220 entrevistas, Vitória concentrou 514 questionários, o equivalente a 42,13% da amostra, embora representasse 8,89% do eleitorado estadual.

Ao mesmo tempo, Serra e Vila Velha, dois dos maiores colégios eleitorais do estado, não receberam entrevistas naquele levantamento. Os dados foram utilizados em representação que questionou a distribuição territorial da amostra.

Em outro processo, o TRE-ES suspendeu a divulgação de pesquisa que incluía os prefeitos Euclério Sampaio, de Cariacica, e Arnaldinho Borgo, de Vila Velha, em cenários para o governo estadual.

A decisão observou que o prazo para desincompatibilização havia terminado em 4 de abril, mais de 20 dias antes da realização daquele levantamento. Os dois prefeitos haviam optado por permanecer nos cargos e, portanto, não poderiam disputar as eleições de outubro.

A Justiça considerou que a inclusão dos nomes poderia comprometer a integridade do cenário apresentado aos entrevistados.

Amazonas teve suspeita de duplicação de respostas

No Amazonas, o questionamento chegou aos microdados apresentados pelo instituto. Uma representação analisada pelo TRE-AM apontou aproximadamente 380 pares consecutivos de linhas idênticas em todos os campos analisados da planilha. Segundo a decisão divulgada sobre o caso, os registros duplicados corresponderiam a cerca de 62% da amostra de 1.220 entrevistas.

A Justiça Eleitoral determinou a suspensão da divulgação da pesquisa registrada sob o número AM-03377/2026.

O ponto central do processo não foi apenas a existência de respostas semelhantes, mas a dimensão e a sequência das duplicidades apontadas na análise técnica apresentada à Justiça.

O caso, portanto, deve ser descrito como indício de irregularidade ou duplicação de dados apontado no processo, e não como fraude definitivamente comprovada, já que a existência de uma decisão liminar não equivale a uma condenação definitiva.

Paraíba questionou transparência da metodologia

Na Paraíba, o Veritá também foi alvo de representação eleitoral. Documento do TRE-PB mostra que o MDB pediu a suspensão da pesquisa registrada sob o número PB-06159/2026.

A discussão envolve justamente os elementos que permitem verificar como a pesquisa foi realizada e se o plano amostral registrado corresponde ao trabalho efetivamente executado.

Esse tipo de informação ganhou importância nas eleições de 2026 porque o TSE determina que as pesquisas registradas apresentem dados suficientes para que partidos, candidatos e sociedade possam fiscalizar sua metodologia.

Pesquisas por telefone entram no centro da discussão

Parte dos levantamentos recentes do Veritá utiliza uma unidade automatizada de respostas com reconhecimento de voz e transcrição de áudio.

Em pesquisa realizada em Pernambuco, por exemplo, o relatório metodológico informa que foram feitas 2.010 entrevistas entre 24 e 30 de março, com margem de erro de 2,5 pontos percentuais e intervalo de confiança de 95%. O instituto afirma ter utilizado dados do TSE, Censo, PNAD e PNADC para definir o plano amostral e informa que 20% das entrevistas foram auditadas.

O método, portanto, não é secreto. O problema discutido nos processos judiciais é se os procedimentos efetivamente executados correspondem ao que foi informado no registro da pesquisa.

Justiça Eleitoral pode suspender pesquisas quando identifica irregularidades

O TSE esclarece que a Justiça Eleitoral não realiza uma aprovação prévia dos resultados das pesquisas. Os institutos são responsáveis pelo registro das informações e pela observância das regras previstas na legislação. 

Quando partidos, candidatos ou outros interessados apresentam representações, os tribunais podem analisar eventuais irregularidades e determinar medidas como a suspensão da divulgação.

A legislação também exige registro prévio. Para as eleições de 2026, os levantamentos devem ser cadastrados na Justiça Eleitoral com antecedência mínima de cinco dias em relação à divulgação. A jurisprudência do TSE ainda estabelece que a falta de informações essenciais sobre a composição da amostra pode comprometer o próprio registro da pesquisa. Entre os dados exigidos estão gênero, idade, escolaridade e nível econômico dos entrevistados.

Veritá contesta questionamentos

O dono do instituto, Adriano Silvoni, afirmou que a empresa considera que há interpretações diferentes entre os tribunais. De acordo com ele, o Veritá já teve decisões revertidas e mantém confiança na própria metodologia. Silvoni também citou o desempenho atribuído ao instituto em eleições anteriores e afirmou que a empresa tem histórico de realização de pesquisas em grande escala.

O argumento encontra respaldo, ao menos em parte, no volume de levantamentos realizados pelo instituto. Em 2022, o Veritá foi responsável pelo maior número de pesquisas eleitorais registradas no TSE, com 152 levantamentos. Ao mesmo tempo, o desempenho histórico é uma questão diferente da regularidade de cada pesquisa. Em ranking elaborado pelo PollsterGraph, que avalia institutos com base em resultados eleitorais anteriores, o Veritá aparece atualmente na 72ª posição, com classificação C+.

Diferentes questionamentos

Os processos envolvendo o Veritá revelam diferentes tipos de questionamento: distorção na composição socioeconômica da amostra, concentração territorial das entrevistas, inconsistências no cronograma, falta de detalhamento metodológico, inclusão de nomes em cenários eleitorais questionados e suspeitas de duplicação de respostas.

Isso não significa que todos os levantamentos do instituto apresentem os mesmos problemas, nem que todas as acusações tenham resultado em decisões definitivas contra a empresa.

O ponto comum entre os casos é a exigência de que pesquisas eleitorais apresentem informações suficientes para que seus resultados possam ser fiscalizados. Em um ano de eleição, essa transparência ganha peso adicional porque os levantamentos são frequentemente utilizados para interpretar o cenário político e podem influenciar a percepção dos eleitores.

Para o eleitor, a principal recomendação técnica é observar não apenas os percentuais divulgados, mas também quem realizou a pesquisa, quando as entrevistas foram feitas, quantas pessoas foram ouvidas, qual foi a margem de erro, como a amostra foi composta e se o levantamento está regularmente registrado no PesqEle.