“Não é possível falar em liberdade querendo derrubar a democracia”. Com essa frase, uma crítica indireta ao principal adversário de sua chapa nas eleições deste ano, o senador Flávio Bolsonaro (RJ), candidato do PL, Geraldo Alckmin foi escolhido na convenção do PSB, na noite de quarta-feira (29), o candidato a vice-presidente de Luiz Inácio Lula da Silva. Ambos tentarão a reeleição por mais quatro anos.
No auditório Brasil 21/Meliá, os delegados do PSB aprovaram a candidatura de Alckmin para repetir a chapa com Lula, que foi vitoriosa em 2022 na disputa contra o então presidente, Jair Bolsonaro. O discurso de Alckmin referia-se ao hoje ex-presidente, que se encontra em prisão domiciliar, condenado por tentativa de golpe de Estado. Flávio, o candidato do PL, é seu filho.
“A democracia é guardiã da liberdade”, disse Alckmin. “Não é possível falar em liberdade, como no segundo turno da última eleição, utilizando o aparato de Estado para impedir as pessoas de votarem legitimamente e tentando impedir a eleição, propondo a derrubada de um governo eleito”, continuou o vice-presidente. A acusação feita a Bolsonaro, que levou à sua condenação e a outros ex-integrantes do governo é de que o então presidente teria utilizado a Polícia Rodoviária Federal para tentar evitar o deslocamento de eleitores e, depois, no 8 de janeiro de 2023, invadindo e depredando as sedes dos três poderes. Bolsonaro nega a intenção de golpe e, na mesma linha, Flávio Bolsonaro, que na sua campanha afirma que, se eleito, concederá a ele e aos demais condenados indulto. “Quem não acredita na democracia, não deveria nem disputar eleição”, provocou Alckmin.
Lula no domingo
Com a oficialização do nome de Alckmin como candidato a vice, restará a homologação de Lula como candidato à reeleição. A convenção da Federação PT/PV/PCdoB que fará essa oficialização será no domingo (2) em São Paulo.
Com a entrada do PSB e com a federação formada pelos três partidos, Lula vai até agora formando a maior aliança eleitoral das eleições deste ano. Também faz parte dela o PDT, que aprovou a entrada na coligação em convenção no dia 20 de julho.
Adversários de Lula nessa disputa até agora formaram chapas puras. No sábado (24), Flávio Bolsonaro foi escolhido candidato pelo PL sem outros partidos parceiros. O partido tem expectativa de fechar aliança com o Progressistas e o União Brasil. Mas oficialmente, os dois partidos declararam que ficarão neutros na disputa presidencial. Outro possível aliado do PL, o Republicanos, também posicionou-se pela neutralidade. O MDB, com o qual Lula teve conversas e tem aliados, como o senador Renan Calheiros (AL), também preferiu ficar neutro.
No domingo (25), o PSD também anunciou uma chapa pura com as candidaturas de Ronaldo Caiado a presidente e Gilberto Kassab como vice. No caso, o partido não tem expectativas de aliança com outras legendas. Na segunda-feira (26), foi a vez do partido Novo, em Brasília, lançar Romeu Zema candidato à Presidência. Zema confirmou conversas com o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa (Democracia Cristã) para ser seu vice. Mas os ataques fortes que ele faz ao Supremo podem constranger Barbosa a aceitar a companhia na chapa.
“Homicida”
Em seu discurso, o presidente Lula também desferiu ataques ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Numa linha semelhante à adotada por Alckmin, a estratégia pareceu ser centrar o fogo sobre Bolsonaro, e não sobre seu filho, Flávio, dando a entender que, na avaliação de ambos, sua candidatura se resumiria a ser uma continuidade de seu pai, tornado inelegível pela condenação e prisão.
Na convenção do PL, um avatar feito com Inteligência Artificial mostrou Jair Bolsonaro pedindo votos para Flávio. O uso do avatar levou, inclusive, a uma representação do PT e sua federação à Procuradoria-Geral da República. Na mesma linha, o ministro do STF Alexandre de Moraes pediu explicações, e Jair Bolsonaro respondeu que não sabia da produção do vídeo com sua imagem e voz reproduzida com Inteligência Artificial.
Vestindo um terno cinza, usando um sapato preto com solado de borracha e chapéu Panamá, Lula lembrou a atuação de Bolsonaro durante a pandemia de covid-19. Falou da atuação do Sistema Único de Saúde (SUS) na pandemia e da recuperação do Hospital do Andaraí, no Rio de Janeiro, onde esteve na terça-feira (28) com o presidente da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhanon.
“O SUS finalmente conseguiu ter visibilidade por causa da decência dos médicos, das enfermeiras, dos faxineiros, dos motoristas, que colocaram a sua vida em risco para salvar milhões de pessoas das mãos de um homicida chamado Bolsonaro, que é responsável por mais da metade das pessoas que morreram neste país”, afirmou.
Lula ainda voltou a reagir às declarações do presidente da Argentina, Javier Milei, que participou da convenão do PL no sábado. E afirmou que, enquanto estiver na Presidência da República, não aceitará interferências externas no processo eleitoral brasileiro. Era uma referência também ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. "Enquanto eu for presidente e estiver vivo, ninguém de fora vai meter o bedelho nas eleições brasileiras."
“Serei reeleito”
Lula puxou pela mão o presidente do PSB, João Campos, ex-prefeito do Recife. E declarou apoio à sua candidatura ao governo de Pernambuco. A declaração de Lula é reputada como importante por João Campos, porque a governadora do estado, Raquel Lyra (PSD), que tenta a reeleição, também busca o apoio do presidente. Lula pode ter no estado um palanque duplo, mas poderia também – esse era o temar – ficar neutro quando à disputa em Pernambuco para não atrapalhar as conversas com Raquel Lyra.
“Não há nenhuma razão, mesmo se a gente só errar daqui para a frente, para a gente não ganhar a reeleição”, disse Lula.
“Aliança verdadeira”
João Campos comandou as duas votações que homologaram a candidatura de Alckmin e a coligação com Lula. “Eu fico emocionado de, com 32 anos de idade, liderar uma das convenções mais importantes da história do nosso partido”, disse o presidente do PSB. João Campos estimou que a união com Lula fará o PSB “crescer de forma significativa”. Sua expectativa é que o partido dobre a sua bancada de deputados federais (o PSB tem hoje 17 deputados). “O Brasil precisa de você. Conte comigo, conte com esse presidente nacional, conte com o nosso partido”, declarou João Campos.
"Tenho certeza de que a aliança com Alckmin será decisiva este ano também. A relação entre Lula e Alckmin foi importante não apenas para vencer a eleição, mas para governar o país”, afirmou o presidente do PSB.
Além de reforçar a unidade da coligação, Campos afirmou que a eleição terá como eixo central a defesa da soberania nacional e destacou a atuação de Alckmin no diálogo com o setor produtivo durante a resposta do governo às tarifas anunciadas pelos Estados Unidos.
Diferente de 2022
A permanência de Alckmin na vice representa uma escolha diferente daquela feita em 2022. Na avaliação do cientista político Rodrigo Prando, o atual contexto eleitoral reduz o impacto simbólico da composição, mas mantém Alckmin como um nome associado à estabilidade política e à confiança dentro da coalizão governista.
"Em 2022, Alckmin representava a construção da Frente Ampla e ajudava a imprimir uma imagem de moderação à candidatura de Lula. Agora, sua permanência é muito mais resultado da confiança construída ao longo do mandato. Lula gostou do trabalho de Alckmin como vice e ministro e essa parece ter sido uma escolha essencialmente pessoal."