A partir de 22 de julho, os Estados Unidos passarão a cobrar uma sobretaxa de 25% sobre a maior parte dos produtos brasileiros. A cobrança será adicionada às tarifas de importação já aplicadas. Pelos cálculos do governo federal, a medida deve atingir diretamente cerca de 18% de todas as exportações brasileiras destinadas ao mercado norte-americano, o equivalente a US$ 7,5 bilhões em vendas.
Diante desse cenário, o Palácio do Planalto acelerou a segunda etapa do Plano Brasil Soberano e intensificou as negociações para reduzir os impactos sobre os setores mais afetados. O programa conta com R$ 21 bilhões em crédito, dos quais R$ 15 bilhões são provenientes do Fundo de Garantia à Exportação (FGE) e R$ 6 bilhões do BNDES.
Com a demanda acima do esperado, o banco pediu ao Ministério da Fazenda a liberação antecipada de R$ 7,25 bilhões que já estavam previstos no fundo. Segundo o BNDES, não se trata de novos recursos, mas de uma medida operacional para atender aos R$ 18,2 bilhões em projetos já apresentados pelas empresas.
Enquanto o governo busca demonstrar capacidade de reação e reforça o discurso de defesa da soberania nacional, o episódio também ganhou contornos políticos. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) passou a ser alvo de críticas, que questionam se sua proximidade com o presidente norte-americano Donald Trump trouxe algum benefício ao Brasil ou acabou associando sua imagem a uma medida considerada prejudicial para a economia brasileira.
Narrativa Política
A resposta do governo também busca produzir um efeito político. Ao anunciar novas linhas de crédito e acelerar a liberação de recursos, o Planalto tenta reforçar o discurso de que reagiu rapidamente às medidas dos Estados Unidos. Para o advogado Guilherme Augusto Mota, especialista em Direito Público, a estratégia pode fortalecer a narrativa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas esse efeito dependerá da execução das medidas.
"O Plano Brasil Soberano ajuda a transformar esse discurso em resposta econômica concreta. Entretanto, é importante esclarecer que parte dos recursos anunciados corresponde à antecipação de valores já previstos no Fundo de Garantia à Exportação. Portanto, o volume nominal do programa não deve ser confundido integralmente com dinheiro novo."
Segundo o especialista, o governo só conseguirá transformar a crise em um ativo político se as medidas chegarem rapidamente às empresas e conseguirem preservar empregos e cadeias produtivas.
Já para o senador Flavio Bolsonaro, o desgaste político dependerá menos da proximidade com Donald Trump e mais das consequências concretas do tarifaço sobre a economia brasileira.
"É necessário separar responsabilidade jurídica de responsabilidade política. Não há, até o momento, elemento que permita afirmar que Flávio Bolsonaro tenha causado ou determinado a imposição das tarifas pelos Estados Unidos", explica.
O especialista avalia, no entanto, que a associação entre o senador e o governo norte-americano poderá pesar junto ao eleitorado caso os prejuízos econômicos se aprofundem.
Crédito
Além das linhas de financiamento, o governo também passou a ampliar a estratégia de apoio às empresas que dependem do mercado norte-americano. As novas operações do Brasil Soberano terão juros subsidiados, com taxas entre 10% e 17% ao ano, conforme o porte da empresa. O objetivo é preservar o fluxo de caixa das exportadoras e evitar demissões enquanto o governo tenta negociar uma saída diplomática para o impasse.
Segundo o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, a equipe econômica está reavaliando quais segmentos precisarão de atendimento prioritário diante da nova configuração do tarifaço. "A gente apurou que vários dos setores já estavam nas linhas beneficiadas do Brasil Soberano e a gente vai analisar agora quais foram as mudanças em termos de demanda, setores que eventualmente estavam fora nas exceções e acabaram sendo incluídos e afetados pelo tarifaço", afirmou.
Em outra frente, a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) anunciou um plano de R$ 130 milhões para ajudar empresas brasileiras a conquistar novos mercados e reduzir a dependência dos Estados Unidos.
O setor industrial também intensificou as articulações. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) reuniu-se com o vice-presidente Geraldo Alckmin e com o ministro do Desenvolvimento, Márcio Rosa, para discutir a sétima missão do programa Nova Indústria Brasil, que deverá concentrar ações voltadas às cadeias produtivas mais atingidas pelas novas tarifas.
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