Correio da Manhã
Política

Ruth Cardoso: a primeira‑dama que trabalhava

Janja disse que Brasil não teve esposa de presidente ativa. Esqueceu-se da mulher de FHC

Ruth Cardoso: a primeira‑dama que trabalhava
Criado por Ruth, Comunidade Solidária é base dos programas sociais Crédito: Facebook/Fundação Fernando Henrique Cardoso

A primeira-dama, Rosângela (“Janja”) Lula da Silva, concedeu uma entrevista ao vivo para o Uol nesta semana e, dentre as perguntas acerca de seu trabalho, ela declarou que “a sociedade brasileira nunca teve uma primeira-dama que efetivamente trabalhasse”.

A declaração da primeira-dama e antropóloga foi considerada polêmica, pois ela não levou em consideração a história e trajetória da ex-primeira-dama Ruth Cardoso (1930-2008), antropóloga, professora universitária e doutora em Ciências Sociais (1972) pela Universidade São Paulo (USP). Após a fala de Janja, o diretor-geral da Fundação FHC, Sergio Fausto, classificou-a como “desconhecimento da história”.

O Correio da Manhã conversou com o jornalista Mário Galán Salimon, que trabalhou com Ruth Cardoso de 1998 até 2003 como assessor de imprensa e também como presidente do Conselho da Comunidade Solidária. E para a reportagem, ele relembrou o trabalho da antropóloga enquanto foi primeira-dama.

Qual o papel?

O jornalista ponderou que concorda com o ponto de Janja de que a população no geral não enxerga com clareza qual é o papel da primeira-dama ou faz ideia do que é cumprir esse papel. Contudo, ele classificou como grave o esquecimento sobre Ruth Cardoso, especialmente da esposa do principal representante do Partido dos Trabalhadores (PT). “O PT conhecia muito bem a Comunidade Solidária, então o PT não tem desculpa para dizer que não conhece Ruth Cardoso”, ele afirmou.

Esposa do ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, Ruth foi oficialmente primeira-dama nos dois mandatos de Fernando Henrique, de 1995 a 2002. “Ela atuava como primeira-dama por obrigação, ela detestava isso. Ela não gostava de ser chamada de primeira-dama, ela preferia ser chamada de professora ou simplesmente Ruth”, detalhou Salimon.

Um dos principais feitos de Ruth Cardoso foi fundar o projeto Comunidade Solidária em 1995, uma ação de combate à pobreza e à exclusão social. A iniciativa foi fundamental para organizar e unificar as bases dos programas de transferência de renda no Brasil, como o Bolsa Família. Mário ainda detalhou que o programa era multifacetado. Na visão de dona Ruth, a sociedade é “um motor que só funcionaria bem se houvesse uma integração dos três setores”: as organizações públicas (governo), as organizações privadas de interesse público (ONGs e a sociedade civil) e as empresas privadas.

Esterótipos

Questionado pela reportagem, Mário avaliou que existe um estereótipo que coloca a mulher na posição de estar associada a questões menos relevantes da política, tirando-a de centros de debates e colocando o papel da primeira-dama em uma posição exclusivamente social, mas de maneira superficial. “Só que o entendimento de social da dona Ruth é muito mais alto. Ela dizia: ‘A gente não está fazendo uma assistência social. Nós estamos na verdade criando condições para a sociedade se desenvolver e melhorar a capacidade de resolver seus próprios problemas’”, ele destacou.

“O social não é só você cuidar de pessoas que são ‘coitadas’. Você ter um pensamento social é ver essa liga que está entre as pessoas e que a gente não consegue enxergar, que muitas vezes é o que está complicando as coisas. A dona Ruth nos levou a enxergar a sociedade com essa lente mais sociológica e mais antropológica”, completou.