A disputa por espaço e influência no entorno de Jair Bolsonaro deixou os bastidores e ganhou as redes sociais. Em dois vídeos publicados nesta quarta-feira (24), Michelle Bolsonaro rompeu o silêncio para expor um racha dentro da própria família, relatar um rompimento com o enteado, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e afirmar que decisões políticas tomadas enquanto o ex-presidente estava preso partiram diretamente dele.
As declarações foram divulgadas no momento em que Bolsonaro aguarda a decisão do ministro Alexandre de Moraes sobre o pedido de prorrogação da prisão domiciliar, que termina nesta quinta-feira (25).
Ao longo dos vídeos, Michelle afirma que permaneceu calada para evitar desgastes à família, mas diz que os ataques passaram a atingir sua imagem e o momento delicado vivido pelo marido. "Eu tentei ficar quieta, mas percebo a maldade de alguns que se dizem defensores e aliados do meu marido", declarou.
Ela também rebateu críticas à sua atuação no comando do PL Mulher. Segundo Michelle, o convite para presidir o segmento partiu de Bolsonaro e do presidente nacional do partido, Valdemar Costa Neto, e fazia parte de um projeto para ampliar a presença feminina na legenda. Ao defender o trabalho realizado desde 2023, afirmou que percorreu o país estruturando diretórios e que o movimento contribuiu para a eleição de 1.005 mulheres em 2024. "Em matéria de política, eu faço somente o que eu e ele combinamos", disse, ao sustentar que todas as decisões tomadas durante a prisão do ex-presidente tinham o aval dele.
Ceará
Grande parte dos vídeos é dedicada à disputa política no Ceará. Michelle afirma que Bolsonaro definiu previamente que o PL disputaria as duas vagas ao Senado no estado com a vereadora Priscila Costa (PL-CE) e o pai do deputado André Fernandes (PL-CE), Alcides Fernandes. Segundo ela, após a prisão do ex-presidente, integrantes do partido passaram a trabalhar para retirar Priscila da disputa e abrir espaço para uma composição com Ciro Gomes (PSDB-CE).
Ao justificar sua posição, Michelle também saiu em defesa do senador Eduardo Girão (Novo-CE), pré-candidato ao governo do Ceará, afirmando que ele representa "as pautas da direita" e que uma eventual aliança com Ciro deveria ocorrer apenas em um eventual segundo turno. Em um dos trechos mais duros dos vídeos, ela afirma que Bolsonaro enviou um recado à direção do partido determinando que Priscila permanecesse candidata. "Priscila será candidata", relatou, acrescentando que descumprir essa orientação "será um ato de traição contra Jair Messias Bolsonaro. Venha de quem vier".
Pressão
Michelle também revelou detalhes do desgaste com Flávio Bolsonaro. Segundo ela, após as críticas feitas durante um evento no Ceará, o senador publicou manifestações em defesa de André Fernandes sem procurá-la antes. Ela afirma que tentou telefonar para o enteado e, quando conseguiu falar com ele, recebeu uma resposta dura. "Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política", relatou, acrescentando que, desde então, decidiu se afastar das discussões internas.
As declarações foram divulgadas no mesmo dia em que o ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinou que a Procuradoria-Geral da República (PGR) se manifeste sobre a arma apreendida pela Polícia Civil do Distrito Federal e que pertence a Bolsonaro. A defesa já pediu a prorrogação da prisão domiciliar, que termina nesta quinta, sustentando que o ex-presidente ainda necessita de acompanhamento médico.
Para o jurista e analista político Melillo do Nascimento, a apreensão da arma, por si só, não determina o desfecho do pedido. "A simples apreensão ou localização de uma arma não conduz automaticamente à prorrogação da prisão domiciliar nem à adoção de medidas mais severas."
Segundo ele, o Supremo deverá avaliar o contexto completo do cumprimento das cautelares. "A questão não é a existência da arma em si, mas o que ela eventualmente revela sobre o cumprimento das cautelares impostas e sobre a necessidade de manutenção, modificação ou reforço das medidas já determinadas pelo STF." Na avaliação do especialista, qualquer decisão também tende a repercutir politicamente. "Para além do jurídico, a batalha é política e qualquer decisão será parte das teorias da conspiração associadas ao caso específico de Jair Bolsonaro."
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