Correio da Manhã
Política

Bolsonaro depõe sobre arma apreendida

Decisões recentes de André Mendonça sofrem questionamentos políticos

Bolsonaro depõe sobre arma apreendida
Bolsonaro depôs para esclarecer questão da arma apreendida Crédito: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) prestou depoimento nesta terça-feira (23) à Polícia Civil do Distrito Federal para esclarecer a história da pistola registrada em seu nome e apreendida com um de seus seguranças durante uma blitz da Polícia Militar na semana passada.

A oitiva ocorreu a poucos dias do encerramento do prazo de 90 dias da prisão domiciliar humanitária concedida pelo Supremo Tribunal Federal (STF), aumentando a expectativa sobre os próximos desdobramentos do caso. O prazo da domiciliar se encerra nesta quinta-feira (25).

Segundo a defesa, Bolsonaro apenas reafirmou as explicações já apresentadas anteriormente. Os advogados sustentam que a arma apresentou uma falha mecânica e foi entregue a um segurança para manutenção. O episódio, no entanto, levou o ministro Alexandre de Moraes, relator do caso, a solicitar esclarecimentos sobre a razão de o ex-presidente manter o armamento em casa e sobre a realização do reparo justamente às vésperas do término da domiciliar. A decisão sobre a continuidade ou não do benefício caberá ao relator do processo.

Enquanto Bolsonaro busca esclarecer o episódio da arma, outra frente de investigação relacionada ao seu entorno político passou a movimentar o Supremo nesta semana. A discussão envolve o financiamento do filme Dark Horse, que retrata a trajetória política do ex-presidente, e a possibilidade de o caso passar para a relatoria do ministro André Mendonça.

A Procuradoria-Geral da República (PGR) defendeu que o caso seja redistribuído para André Mendonça por entender que existe conexão com as investigações do Banco Master. Atualmente, a palavra final está nas mãos do presidente do STF, ministro Edson Fachin, que decidirá qual será a relatoria do procedimento.

A investigação busca esclarecer se recursos ligados ao empresário Daniel Vorcaro, um dos principais alvos das apurações do caso Master, foram utilizados para financiar despesas relacionadas à permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos (EUA). O ex-deputado nega irregularidades.

Questionamentos

A possibilidade de Mendonça assumir também essa frente de investigação reacendeu críticas e suspeitas levantadas por setores políticos. O principal argumento é a diferença entre as medidas já adotadas contra Jaques Wagner e a ausência, até o momento, de providências semelhantes no caso envolvendo o filme.

Especialistas, porém, avaliam que ainda não há elementos concretos para sustentar acusações de parcialidade.

Para o professor de Direito Eleitoral Arthur Rollo, eventuais alegações de suspeição precisam ser sustentadas por fatos objetivos e não apenas por interpretações políticas. “Quaisquer alegações de suspeição devem ser feitas por meio de petição própria que evidencie elementos concretos que justifiquem a alegação”, afirma.
Rollo ressalta que as medidas determinadas contra Jaques Wagner partiram de pedidos formulados pela PF e tiveram manifestação da PGR. Segundo ele, comparar investigações distintas pode levar a conclusões equivocadas. “É difícil comparar decisões judiciais em investigações porque cada caso é um caso”, observa.

Avaliação

Na avaliação do cientista político Rodrigo Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o debate em torno da atuação de Mendonça reflete muito mais a disputa política em torno dos casos do que indícios concretos de irregularidade na condução dos processos.

“Não creio que o ministro possa neste momento receber uma suspeição ou parcialidade. Não há indícios, pelo menos pelo que eu li até o momento, de fazer qualquer tipo de insinuação nesse sentido”, afirma.

Prando lembra que as medidas cautelares normalmente têm origem em pedidos formulados pelos órgãos de investigação e posteriormente analisados pelo Judiciário. “Quem pede uma ação mais direta costuma ser a Polícia Federal. E aí o ministro acaba entendendo se ela é ou não viável”, diz.

Para ele, a discussão sobre tratamentos diferentes entre os casos de Jaques Wagner e do filme Dark Horse tende a permanecer no campo político enquanto não surgirem novos elementos nas investigações. “O direito e a ciência política não são exatos. Sempre existem interpretações que são politicamente moldadas a partir das narrativas dos grupos e dos atores políticos”, avalia.

Enquanto a definição sobre a relatoria do caso Dark Horse não é tomada pelo Supremo, o debate deve continuar alimentando disputas entre governo e oposição. No campo jurídico, porém, especialistas ouvidos avaliam que, até o momento, não há fatos capazes de colocar sob suspeita a atuação de André Mendonça.