Correio da Manhã
Política

Lula prepara reação à ameaça de tarifaço de Trump

Presidente faz reunião ministerial e disputa com irmãos Bolsonaro narrativa da crise

Lula prepara reação à ameaça de tarifaço de Trump
Lula na reunião ministerial: "Brasil não é republiqueta" Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

As novas ameaças tarifárias dos Estados Unidos (EUA) contra produtos brasileiros deixaram de ser apenas uma disputa comercial. De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenta converter a pressão americana em um discurso de defesa da soberania nacional. Do outro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) busca se desvincular das acusações de que teria contribuído para o agravamento da crise ao estreitar relações com integrantes do governo Donald Trump.

No meio desse cenário aparecem temas que vão muito além das tarifas: minerais críticos, terras raras, relações com a China, Brics, crime organizado e até o julgamento do ex-deputado Eduardo Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF).

A escalada começou após o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) recomendar uma sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros por supostas práticas comerciais consideradas desleais. No dia seguinte, o mesmo órgão propôs uma nova tarifa de 12,5%, desta vez associada a alegações de falhas no combate ao trabalho forçado. Caso ambas sejam aplicadas simultaneamente, alguns produtos poderão enfrentar sobretaxas de até 37,5%.

“Brasil ajuda”

O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB-SP), um dos responsáveis pelas negociações, afirmou que os argumentos apresentados pelos EUA para justificar as novas sobretaxas "não se sustentam" e destacou que o Brasil está entre os poucos países do G20 com os quais os americanos mantêm superávit comercial.

" Entre os países do G20, só tem três países com os quais o Estados Unidos têm superávit na balança comercial: Reino Unido, Austrália e Brasil. Então, o Brasil não é problema, o Brasil ajuda.", afirmou.

Enquanto a área diplomática intensifica as negociações, Lula tem elevado o tom.

“Traição”

Durante reunião ministerial realizada nesta quarta-feira (3), o presidente afirmou que o Brasil foi tratado de forma incompatível com sua relevância internacional e classificou como "traição à pátria" a atuação de brasileiros que, segundo ele, trabalham para estimular punições contra o país.

"Não é possível", disse Lula ao afirmar que os Estados Unidos ignoraram os canais diplomáticos tradicionais e anunciaram medidas por meio das redes sociais. O presidente também afirmou que o Brasil "não é uma republiqueta insignificante" e declarou que o país não aceitará ser tratado de forma subordinada.

Além das tarifas

Embora as tarifas tenham dominado o debate público, especialistas avaliam que a disputa está longe de ser exclusivamente econômica.

Para Adriano Gianturco, coordenador do curso de Relações Internacionais do Ibmec- BH, a estratégia adotada por Trump segue uma lógica mais ampla de utilização da economia como instrumento de poder. "Diria que claramente não é uma questão meramente econômica, mas que obviamente envolve questões geopolíticas, questões também ideológicas, políticas, jurídicas. E também de interesses de negócios."

Segundo ele, o presidente americano retoma uma prática associada ao neomercantilismo, utilizando o peso econômico dos EUA como ferramenta de barganha. "Ele critica alguns países, ele coloca algumas dificuldades sobre alguns países para depois negociar. Ele se faz valer da própria potência dos Estados Unidos para barganhar, negociar de uma posição de vantagem."

A interpretação é semelhante à do jurista e analista político Melillo do Nascimento. "A tarifa virou instrumento de pressão econômica, geopolítica e política. É a lógica Trump. Ele quer transformar comércio exterior em alavanca de poder."

Na avaliação do especialista, os temas apontados pelos Estados Unidos — como comércio digital, etanol, propriedade intelectual, desmatamento e trabalho forçado — existem e fazem parte das discussões internacionais, mas funcionam também como instrumentos de uma negociação muito mais ampla.

"Quando tudo vira motivo para tarifa, a tarifa deixa de ser remédio comercial e passa a ser mensagem de poder," afirmou Melillo.

A própria movimentação diplomática desta quarta-feira reforçou essa percepção. Durante reunião ministerial da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em Paris, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, teve um encontro informal com o representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer. Segundo informações divulgadas pelo portal R7, os dois conversaram sobre a continuidade do diálogo entre os países e sobre o prazo de 30 dias estabelecido por Lula e Trump durante encontro realizado recentemente em Washington. A sinalização indica que, apesar da escalada retórica, os canais diplomáticos permanecem abertos.

Terras raras

Um dos pontos que mais chamou atenção na fala de Lula durante a abertura da reunião ministerial foi a referência direta aos minerais críticos e às terras raras.

O presidente revelou ter entregue pessoalmente a Trump um documento sobre o tema durante a reunião realizada na Casa Branca. Segundo Lula, o material fazia parte de um conjunto de quatro documentos apresentados ao presidente americano para aprofundar a cooperação bilateral.

Lula comentou as novas pressões americanas. "Quem quiser explorar terras raras daqui, vai ter que falar com o governo brasileiro."

A declaração ocorre em meio ao interesse internacional nos minerais estratégicos brasileiros. Esses insumos são considerados fundamentais para a fabricação de baterias, semicondutores, equipamentos militares, veículos elétricos e tecnologias associadas à transição energética.
Para Adriano Gianturco, porém, o tema não explica sozinho a atual ofensiva americana. "Todos os países do mundo têm interesses nas terras raras. A China também tem interesses das terras raras no Brasil. Assim como outros países."

Ainda assim, a inclusão do assunto na narrativa presidencial mostra que o Planalto enxerga espaço para conectar a discussão econômica à defesa dos recursos estratégicos nacionais, fortalecendo o discurso de soberania.

Guerra política

Se no plano diplomático a crise segue aberta, no campo político ela já produz efeitos concretos. Lula transformou os “irmãos Bolsonaro” em alvos centrais de sua narrativa. Durante a reunião ministerial, voltou a afirmar que existem brasileiros estimulando medidas contra o próprio país por interesses eleitorais.

A ofensiva ocorre após Flávio Bolsonaro intensificar contatos com integrantes do governo Trump e depois de Eduardo Bolsonaro se tornar alvo de uma ação penal no STF. O ministro Flávio Dino marcou para 16 de junho o julgamento da denúncia contra Eduardo. A Procuradoria-Geral da República (PGR)sustenta que o ex-deputado atuou nos Estados Unidos para pressionar ministros do Supremo e incentivar sanções contra integrantes da Corte e contra o próprio Brasil.

“Lula prejudica”

Enquanto isso, Flávio tenta construir uma narrativa oposta. Em vídeo publicado nas redes sociais, o senador afirmou que Lula estaria prejudicando as negociações ao atacar integrantes do governo americano, especialmente o secretário de Estado, Marco Rubio.

"Agora, você acha que xingar a pessoa com quem você vai ter que negociar ajuda ou atrapalha o Brasil? É claro que só atrapalha", disse.

Flávio também rejeitou as acusações de que teria estimulado medidas contra o país. Segundo ele, durante sua visita aos Estados Unidos pediu diretamente a Donald Trump que não taxasse empresas brasileiras e, posteriormente, reforçou o apelo em carta enviada a Rubio. "Se depender de mim, não vai ter tarifa nenhuma. Mas aí, o que o Lula faz? Xinga o secretário do Estado americano, ataca o presidente Trump", afirmou.

Para Adriano Gianturco, o efeito político desse movimento ainda está em aberto. "Flávio Bolsonaro pode tanto ser beneficiado por essa questão quanto ser prejudicado."

Segundo ele, a carta tem menos potencial de influenciar Washington e mais capacidade de dialogar com o eleitor brasileiro. "É mais para sinalizar para o público interno: olha que eu não estou jogando contra os interesses do Brasil."

Já Melillo do Nascimento avalia que o risco político para o senador pode ser significativo. "O eleitor pode até aceitar crítica dura ao governo. Entretanto, aceita muito menos a impressão de torcida contra o Brasil."

Para o analista, a disputa tende a ser resumida por uma pergunta simples. "O eleitor vai se perguntar: quem está defendendo o país e quem está usando o país como peça de campanha?"

Na avaliação de Melillo, a disputa comercial, porém, abre espaço para que Lula explore politicamente a defesa da soberania nacional. O especialista afirma que crises externas costumam permitir ao presidente assumir esse papel perante o eleitorado.