Política

Estratégia de Flávio para estancar crise é defender CPI do Master

Davi Alcolumbre, porém, resolve sentar em cima da investigação. Senador tenta mudar foco com reunião com Trump

Estratégia de Flávio para estancar crise é defender CPI do Master
Flavio cobrou a instalação da CPI: "Não tenho nada a temer. Não tenho nada a esconder" Crédito: Andressa Anholete/Agência Senado

O senador Flávio Bolsonaro (PL) decidiu subir o tom. Em meio ao avanço das investigações envolvendo o Banco Master e ao desgaste provocado pela divulgação de áudios, relações políticas e conexões financeiras com o banqueiro Daniel Vorcaro, o pré-candidato bolsonarista passou a defender publicamente a instalação de uma CPMI para investigar o caso. O movimento, porém, acontece num momento em que aliados do próprio PL admitem reservadamente preocupação com a possibilidade de novos fatos surgirem sobre a relação entre os dois.

Enquanto discursava no plenário do Congresso rodeado por aliados, atacando o governo Lula, o Supremo Tribunal Federal (STF) e cobrando a abertura da comissão parlamentar, nos bastidores já circulavam articulações sobre uma nova viagem de Flávio aos Estados Unidos (EUA). A agenda inclui tentativa de encontro com o presidente norte-americano Donald Trump e é vista por interlocutores como uma tentativa de reorganizar o ambiente político em torno do senador.

A movimentação ocorre justamente quando a delação premiada de Daniel Vorcaro enfrenta dificuldades. Depois da Polícia Federal (PF) considerar insuficiente o material entregue pelo banqueiro, a Procuradoria-Geral da República (PGR) segue como única instância ainda negociando um possível acordo. Investigadores avaliam que Vorcaro ainda não apresentou informações consideradas centrais para a estrutura do caso. E avalia-se é que a tendência é o relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, não homologar a delação.

A percepção do advogado e analista político Melillo Dinis é de que o escândalo já deixou de ser apenas uma crise financeira envolvendo o Banco Master e passou a contaminar diretamente o ambiente político de Brasília.

Pressão

Na sessão do Congresso para apreciar vetos presidenciais, a questão acabou gerando forte debate. De um lado, Flávio Bolsonaro usou o plenário para sua ofensiva política. Por outro, foi cobrado pelo deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) sobre seu envolvimento com a crise.

Cercado por parlamentares aliados, o senador afirmou que não tem “nada a esconder” e desafiou a esquerda a apoiar a criação da CPMI.

“Mais do que nunca, é necessária a instalação dessa CPMI do Banco Master”, afirmou. “Eu quero Daniel Vorcaro e Augusto Lima sentados naquela CPMI falando qual é a relação que eles tinham com Flávio Bolsonaro, qual é a relação que eles tinham com Lula e qual é a relação que eles tinham com Alexandre de Moraes.”

O discurso veio acompanhado de uma tentativa clara de deslocar o foco das acusações envolvendo seu nome para ataques ao governo federal e ao PT. Flávio repetiu críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mencionou investigações envolvendo o filho do presidente, Fábio Luiz da Silva, “o Lulinha”, e tentou associar o caso Master ao Palácio do Planalto.

Ao mesmo tempo, aliados do senador passaram a reforçar publicamente a narrativa de que Flávio teria sido apenas mais um entre diversos políticos, empresários e empresas que mantiveram relação institucional ou comercial com Vorcaro antes do escândalo vir à tona.

No discurso, o senador tentou enquadrar o financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro como um investimento privado sem irregularidade. “Do outro lado, está o filme do presidente Bolsonaro, que recebeu investimento privado de alguém que, na época, não tinha absolutamente nada que pudesse desabonar a sua conduta”, afirmou.

Explicações

Em seguida, as falas de Flávio foram rebatidas por Lindbergh Farias.

“O senhor sobe à tribuna como se não tivesse acontecido nada”, disse Lindbergh. “Nenhuma explicação à nação, nenhuma explicação ao Brasil.”

“Só Vossa Excelência pode explicar sobre os “R$ 61 milhões”, disse Lindbergh. De acordo com o áudio que se tornou público, Flávio Bolsonaro pediu a Daniel Vorcaro R$ 134 milhões para financiar o filme Dark Horse, cinebiografia de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Desse total, já teria recebido R$ 61 bilhões.

CPMI

Tudo, porém, ficou apenas no embate retórico entre governo e oposição. Porque, na prática, pelo menos por enquanto não haverá CPMI do Banco Master. O presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre (União-AP), indicou que não pretende avançar com a criação da comissão neste momento. Nos bastidores, líderes partidários avaliam que há receio de que uma investigação parlamentar televisionada amplie ainda mais o desgaste político do caso. E há quem aponte para o risco de a crise respingar no próprio Alcolumbre, porque o Fundo de Previdência do Amapá foi um dos que investiu recursos no Master.

Para Melillo Dinis, a resistência em abrir a comissão revela temor dentro do próprio sistema político.

“O que existe por trás desse movimento é uma lógica de contenção de danos. Há receio de que uma CPI produza vazamentos, desgaste permanente e instabilidade num momento em que o sistema político tenta chegar relativamente organizado até o fim de 2026”, afirmou.

Segundo ele, o Senado tenta evitar que o caso se transforme num novo centro de guerra política em Brasília. “Quando lideranças políticas seguram uma CPI, isso quase sempre revela que há muita gente preocupada com o tamanho do incêndio, não apenas com a fumaça”, completou.

Reação

A preocupação aumentou dentro do próprio PL. Segundo os bastidores colhidos com aliados da legenda, cresceu entre integrantes do partido o temor de que novos fatos envolvendo Flávio Bolsonaro possam surgir nos próximos meses.

Nos bastidores, integrantes do partido afirmam que “não podem ser surpreendidos” novamente e admitem que novas contradições poderiam tornar a situação politicamente “insustentável” para o senador, hoje tratado como principal nome bolsonarista para disputar a Presidência da República.

Em meio à crise, Flávio também iniciou mudanças na equipe de comunicação. O publicitário Marcello Lopes anunciou oficialmente que deixa a pré-campanha presidencial do senador. Embora a nota pública tenha atribuído a saída a questões pessoais e profissionais, nos bastidores o movimento foi interpretado como tentativa de reorganizar a gestão da crise. Agora, o publicitário Eduardo Fisher assumirá a comunicação da campanha.

Para Melillo, a troca reforça o diagnóstico interno de desgaste político. “Troca de comunicação em meio à crise nunca é casual. Isso normalmente acontece quando a avaliação interna é de que a narrativa pública começou a gerar desgaste eleitoral”, afirmou.

Segundo ele, a tentativa de aproximar Flávio Bolsonaro novamente de Donald Trump também faz parte dessa estratégia. “A viagem aos Estados Unidos e a aproximação com Donald Trump fazem parte de uma estratégia clássica de reposicionamento. Vão tentar sair da defensiva doméstica e ocupar espaço com uma agenda internacional, ideológica e simbólica junto ao eleitorado conservador.”

Na avaliação do analista, o movimento ajuda a reorganizar a militância no curto prazo, mas também pode reforçar a percepção de fragilidade política. “Em política, quando alguém muda rapidamente o foco da conversa, os adversários sempre exploram isso como sinal de preocupação real.”

Bastidor

Ao deixar o plenário do Congresso, Flávio Bolsonaro foi cercado por jornalistas e questionado sobre a possível reunião com Donald Trump. Em meio ao empurra-empurra e às gargalhadas de aliados, o senador respondeu em inglês, apesar de todos os profissionais presentes serem brasileiros.

A cena repercutiu nos corredores do Congresso e foi interpretada por parlamentares da oposição como uma tentativa de deboche diante da crise.