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Política

Messias de um lado, Ciro Nogueira do outro: o jogo ficou um a um?

Para analistas, vitórias amenizam impactos de derrotas, mas não garantem reeleição de Lula

Messias de um lado, Ciro Nogueira do outro: o jogo ficou um a um?
Para analistas, peso da derrota de Messias ainda é maior para governo Crédito: Lula Marques/Agência Brasil.

Num dos seus famosos cocos, Jackson do Pandeiro reclamava: “Esse jogo não pode ser um a um, se o meu clube perder é zum-zum-zum”.

Em um tempo em que a polarização política torna a disputa cada vez mais próxima de um jogo de futebol, com torcidas ferozes dos dois lados, as duas últimas semanas foram marcadas por uma situação que lembra o “Um a Um” de Jackson do Pandeiro.

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) primeiro colecionou derrotas significativas com a derrota da indicação do advogado-gera da União, Jorge Messias, para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) e a derrubada do veto ao PL da Dosimetria. Mas depois, na semana passada, viu um dos principais líderes da oposição, o presidente do Progressistas, senador Ciro Nogueira (PI), tornar-se alvo das investigações sobre o Banco Master e Lula cumprir uma agenda com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, considerada positiva por ambos.

Na primeira semana, o advogado-Geral da União (AGU), Jorge Messias, teve sua indicação ao Supremo Tribunal Federal (STF) barrada no plenário do Senado por 42 contrários e 34 votos favoráveis – ele precisava de ao menos 41 votos a favor para ser aprovado ao cargo. Essa foi a primeira vez que uma indicação presidencial foi barrada no Senado desde o governo de Floriano Peixoto, em 1894.

Além disso, no dia seguinte, o plenário do Congresso Nacional derrubou o veto presidencial referente ao PL da Dosimetria, projeto que reduz as penas dos presos envolvidos nos atos antidemocráticos contra a sede dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023. Dentre os beneficiados com a redução das penas está o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), preso desde novembro por participar do grupo central que articulou um plano de tentativa de golpe de Estado, que desencadeou nos atos de 8 de janeiro. A medida foi promulgada nesta sexta-feira (8) pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).

Em contrapartida, na semana passada a oposição ao governo Lula também enfrentou derrotas. Na última quinta-feira (7), o senador Ciro Nogueira (PP-PI), um dos principais articuladores da oposição ao governo Lula no Congresso e presidente do Progressistas, foi alvo da quinta fase da Operação Compliance Zero da Polícia Federal (PF). O senador é acusado de ter atuado como uma ponte entre o poder Legislativo e o dono do Banco Master Daniel Vorcaro, em troca de favores. Segundo as investigações, Nogueira teria chegado a receber uma “mesada” de Vorcaro que chegou a R$ 500 mil para tentar aprovar projetos que beneficiassem a instituição. A operação foi autorizada pelo relator do caso Mater no STF, ministro André Mendonça.

No mesmo dia, a reunião entre o presidente Lula e Donald Trump (Republicano) foi considerada um sucesso. Os chefes de Estado discutiram sobre tarifas, terras raras, Copa do Mundo e demais temas de interesse entre os países, mas não levantaram temas polêmicos, como o Pix e a possibilidade dos EUA enquadrarem facções criminosas como organizações terroristas. Donald Trump não concedeu entrevista coletiva logo após a reunião, mas se manifestou em suas redes sociais como um encontro de respeito mútuo, inclusive classificando Lula como “muito dinâmico”.

“A reunião com Donald Trump garantiu a Lula a narrativa de alinhamento com o norte-americano, que é admirado pelo eleitorado mais conservador, e lhe dá certo fôlego político perante o eleitorado. Da mesma forma, a ação contra Ciro Nogueira municia o campo governista de elementos para ataques ao senador Flávio Bolsonaro devido aos laços de proximidade com o presidente nacional do Progressistas. Não se pode esquecer que Ciro era cotado e trabalhava nos bastidores para ser o vice na chapa opositora de Lula ao Planalto”, analisou a Consultora de Análise Política da BMJ Consultores Associados Raquel Alves em entrevista ao Correio da Manhã.

Empate?

Considerando as duas últimas semanas de vitórias e derrotas entre a base e a oposição governista, levanta-se o questionamento se ambos os lados chegaram a um “empate”, especialmente referente aos impactos nas campanhas eleitorais deste ano.

Para a reportagem, o cientista político Elias Tavares avalia que, mais do que buscar um empate entre ambos os lados, é importante ressaltar que tanto governo quanto oposição passaram por vitórias e derrotas.

“A leitura mais equilibrada desse cenário é que nem governo nem oposição conseguiram construir uma ‘semana perfeita’. O que houve foi uma troca de golpes institucionais com impactos diferentes. O governo sofreu derrotas muito simbólicas no Congresso, enquanto a oposição sofreu desgastes que atingem diretamente o discurso moral e de articulação política que vinha tentando consolidar”, ele destacou ao Correio da Manhã.

Ele ainda destacou uma diferença relevante entre os casos: “As derrotas do governo foram institucionais e objetivas, enquanto as derrotas da oposição foram mais narrativas e de percepção pública. Isso significa que o governo amenizou danos, mas não apagou a demonstração de fragilidade no Congresso”, ponderou.

Na mesma linha, Raquel Alves destacou que, ainda que o governo tenha ganhado um respiro com as conquistas recentes, os feitos da oposição no Congresso ainda geram uma leitura de “café frio”, expressão na política brasileira para descrever o final de um mandato presidencial. Em outras palavras, para Raquel, a derrota de Messias e a derrubada do PL da dosimetria deram a impressão de um “fim de governo antecipado”.

“O Senado foi, nos três últimos anos, o fiador da governabilidade, uma espécie de parceiro (com muitas concessões) do Planalto. A ofensiva Messias e a derrubada do veto a dosimetria mostram que essa parceria não existe mais. Lula tentará, claro, restabelecer laços, e acredito que Alcolumbre até pode também fazer gestos de aproximação, mas não me parece que essa situação de extrema fragilidade da governabilidade seja revertida no curto prazo”, ponderou a analista política.

A reportagem ainda conversou com o cientista político e diretor da Dominium Leandro Gabiati. Ele avaliou, por outro lado, que “não dá para comparar a derrota que o governo sofreu com a rejeição de Messias no Senado ao movimento positivo que o governo teve, são questões diferentes”.

“O que o governo conseguiu é eventualmente interromper o crescimento de uma onda negativa e que ninguém sabe no que vai dar. Houve um caso muito negativo para o governo, que sinaliza problemas de liderança do presidente Lula e do governo. Isso aí pode crescer, pode aumentar se o governo não reage e não retoma de alguma forma o controle. Então, com esse movimento do Lula com Trump e das votações positivas que o governo teve na Câmara com a aprovação do projeto de minerais críticos e com o avanço da PEC do fim da escala 6x1, que é uma pauta que a sociedade vincula ao governo, o governo parece ter reagido ou fez um contraponto. Não quer dizer que uma coisa compensa a outra, quer dizer que o governo reagiu”, ele reiterou ao Correio.

Corrida eleitoral

Em ano eleitoral, todas as decisões se referem às eleições gerais em outubro deste ano. Neste sábado (9), o Partido Liberal realizou, em Florianópolis, o ato público de lançamento das pré-candidaturas de Flávio Bolsonaro à Presidência da República, Jorginho Mello ao Governo de Santa Catarina, além de Carlos Bolsonaro e Caroline De Toni ao Senado Federal, formalizando oficialmente a chapa puro sangue do PL.

E, baseado no atrito da relação entre governo federal e Congresso, especialmente Senado, os acontecimentos das duas últimas semanas impactam diretamente na campanha eleitoral de ambos os lados. Para a Consultora de Análise Política, no caso de Lula, isso impacta “na construção de alianças fortes nos Estados para construção de bons palanques” para o presidente.

Já no caso de Flávio Bolsonaro, inicialmente havia crescido a leitura que o senador deveria “encerrar as especulações por uma chapa puro sangue e devia procurar um nome no centrão para vice”. Contudo, com a ação da PF contra Ciro Nogueira, ele “precisa fazer o cálculo político de trazer para sua chapa um nome, sobretudo se esse nome for próximo de Ciro Nogueira”.

Leandro Gabiati considera prematuro “fazer qualquer prognóstico” acerca do possível cenário de outubro. “Há movimentos, há ondas. Por exemplo, a onda da oposição cresceu muito com a rejeição de Messias no Senado. Essa onda pode crescer ou poderia ter crescido mais se o governo não tivesse reagido. É preciso esperar para ver se tanto o movimento da oposição quanto o movimento do governo vão avançar ou não”, completou o cientista político.

Entretanto, para o professor de direito eleitoral Alberto Rollo os episódios recentes podem influenciar a corrida eleitoral para as eleições de outubro, desde que seja bem construída a narrativa política. “Tudo vão ser formas de noticiar e de passar esses acontecimentos para os eleitores. E a gente tá hoje vivendo uma pré-campanha muito concentrada nas redes sociais, então isso é um prato cheio para se falar mal do governo e se falar mal da oposição. Tentar grudar na cara do governo ou grudar na cara da oposição essas vitórias políticas ou essas derrotas políticas. Vai ganhar quem conseguir comunicar mais e conseguir comunicar melhor”, ele reiterou ao Correio da Manhã.

Elias Tavares ainda citou que “o eleitor médio não acompanha os detalhes institucionais do Senado ou da tramitação legislativa”. “O que chega para a população é a sensação geral de força ou fraqueza política. E hoje o sentimento predominante é de um país em disputa permanente, com nenhum dos lados conseguindo hegemonia clara”, completou.