Por: Beatriz Matos

"Bessias", o escolhido de Lula, enfrenta rejeição histórica no Senado

Alcolumbre avisou antes da Mesa do Senado: "Vai perder" | Foto: Lula Marques/Agência Brasil.

Jorge Messias chegou esperançoso, de peito aberto e com a Constituição Federal de 1988 na mão. Ao ser questionado sobre a expectativa para a sabatina, respondeu apenas com um largo sorriso: “Deus abençoe”.

O nome Messias tem um significado que remonta à sua trajetória até o desfecho desta fatídica quarta-feira (29). Refere-se a alguém “consagrado para uma missão especial”. Foi o que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez ao indicá-lo para uma das cadeiras mais importantes do país: a de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).

Mas a missão terminou de forma inesperada. O advogado-geral da União foi rejeitado por 42 senadores. Para ser aprovado, precisava de pelo menos 41 votos favoráveis.

“Vai perder”

Antes mesmo do encerramento da votação, o presidente da casa, Davi Alcolumbre (União-AP), já havia “cravado” um placar. Com o microfone aberto, sussurrou: “Acho que vai perder por 8”. O resultado final veio próximo da previsão: Messias acabou derrotado por sete votos, com apenas 34 favoráveis.

O resultado não só impediu a ida ao Supremo, como entrou para a história política recente como uma das derrotas mais duras de uma indicação presidencial.

A última vez que o Senado havia barrado um nome ao STF foi em 1894, no governo de Floriano Peixoto. Naquele ano, cinco indicações foram rejeitadas — os únicos registros até então. Mais de um século depois, Lula experimenta o mesmo desfecho amargo.

Se aprovado, Messias seria a 11ª indicação de Lula ao Supremo, considerando os três mandatos.

A rejeição caiu como um recado direto ao Planalto. Mesmo com a liberação de mais de R$ 12 bilhões de emendas parlamentares às vésperas da votação e com mudanças na composição da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), a base não conseguiu segurar o placar.

Peso de Alcolumbre

Nos corredores do Senado, a leitura não é única. Parte da base aliada atribui o resultado à atuação da oposição, especialmente ligada ao bolsonarismo. Outros, no entanto, apontam para um fator mais silencioso, e, talvez, o mais determinante: o peso de Davi Alcolumbre.

O presidente do Senado nunca escondeu sua preferência por outro nome para o Supremo, o senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG). A escolha de Lula por Messias gerou ruído desde o início e contaminou a relação entre Planalto e Congresso ao longo dos últimos meses.

O encontro entre Alcolumbre e Messias, aos 45 minutos do 2° tempo, até sinalizou uma tentativa de distensão. Mas, ao que tudo indica, não foi suficiente para reverter o cenário.

Salão Azul

Messias passou meses circulando pelos corredores do Senado, batendo de gabinete em gabinete, conversando, tentando construir apoio. No Salão Azul, virou figura constante. À mesma pergunta sobre expectativa, repetia: “Estamos confiantes”.

Nos bastidores, o governo também estava. A conta do Planalto indicava entre 44 e 45 votos favoráveis. Havia, sim, o reconhecimento de que o voto secreto poderia trazer traições. Mas a rejeição não estava no radar. E ela veio. Direta, numérica e histórica.

Aprovado na CCJ

A sabatina de Jorge Messias na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) começou ainda pela manhã e se estendeu por mais de oito horas. Foi a primeira etapa vencida pelo indicado de Lula antes da votação em plenário.

Ao abrir a fala, Messias adotou um tom pessoal e institucional, lembrando a trajetória até chegar ali. “Estar aqui já é em si um privilégio”, afirmou logo no início da exposição.

Durante o discurso, ele tentou equilibrar acenos ao Congresso com uma defesa do papel do Supremo. Em um dos trechos mais sensíveis, afirmou que o Judiciário não deve avançar sobre outros Poderes: “Nem ativismo, nem passivismo; a palavra é equilíbrio”.

Messias também fez questão de reforçar a necessidade de respeito às regras institucionais, em um momento em que o próprio Supremo é alvo de críticas dentro do Parlamento. “Regras protegem a sociedade contra o voluntarismo judicial”, disse.

A fala foi construída com foco em sinalizar moderação e compromisso institucional. Ao tratar da relação entre os poderes, destacou que o Judiciário deve atuar com cautela: “O papel da jurisdição constitucional está exatamente colocado no processo de equilíbrio entre os Poderes”.

O indicado também trouxe um elemento pessoal ao discurso, ao mencionar a fé e a origem. “Aqui vos fala um servo de Deus”, afirmou, ao destacar a trajetória familiar e religiosa. Na CCJ, Messias teve 16 votos favoráveis. Precisava de 14. O otimismo, porém, esbarrou mais tarde no plenário.

Repercussão

Ainda no Senado, o indicado se manifestou visivelmente abatido com o desfecho. “Eu cumpri o meu desígnio, participei de forma íntegra e franca de todo este processo”, afirmou.

Ao longo da fala, Messias reconheceu o resultado e evitou confrontos: “O Senado é soberano. O plenário falou, agradeço os votos que recebi. Faz parte do processo democrático”.

Em um dos momentos mais pessoais, resumiu o sentimento da noite: “Tem dias de vitórias e tem dias de derrotas. Nós temos que aceitar”. E completou: “Lutei o bom combate”.

Ao lado dele, o ministro de Relações Institucionais, José Guimarães (PT), também se pronunciou, adotando um tom institucional e tentando sustentar a escolha do governo. Segundo ele, o presidente Lula “encaminhou o melhor nome”, ressaltando que Messias “preencheu todos os requisitos exigidos pela Constituição”.

Apesar disso, Guimarães reconheceu o resultado e devolveu a pressão ao Congresso: “Cabe agora ao Senado explicar as razões dessa desaprovação”.

Do outro lado, a oposição tratou o episódio como um sinal político mais amplo. O senador Sergio Moro (PL-PR) afirmou que há “uma insatisfação em relação ao Supremo Tribunal Federal” e defendeu uma reflexão interna da Corte.

Já o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ampliou o tom e conectou a derrota ao cenário político nacional. Para ele, “o Brasil está muito mal, com insegurança jurídica” e o resultado seria reflexo de um desgaste do governo.

Na mesma linha, o senador Rogério Marinho (PL-RN) classificou o episódio como uma derrota do Planalto e defendeu que a próxima indicação ao Supremo fique para depois das eleições.

Nos bastidores do próprio Judiciário, também houve manifestação. O ministro do STF André Mendonça saiu em defesa do indicado: “O Brasil perde a oportunidade de ter um grande Ministro do Supremo”. E completou: “Messias é um homem de caráter, íntegro e que preenche os requisitos constitucionais para ser Ministro do STF”.

Em tom mais pessoal, Mendonça ainda afirmou: “Messias, saia dessa batalha de cabeça erguida. Você combateu o bom combate”.