As regras do Desenrola 2.0, nova estrutura do programa do governo federal para renegociação de dívidas, devem também incluir os endividados não inadimplementes, ou seja, os contribuintes que têm dívidas ativas mas que pagam suas contas em dia. O pedido foi formulado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para a equipe econômica do governo após o ministro da Fazenda, Dario Durigan apresentar a modelagem do Desenrola 2.0 ao presidente da República no começo da semana.
O Ministério da Fazenda comunicou que concluiu a modelagem do Desenrola 2.0 e apresentou a proposta ao presidente Lula na terça-feira (29). Desde que foi apresentado, o programa visa amenizar os impactos financeiros de um problema que tem sido a pedra no sapato do governo: o endividamento das famíliass. E um dos principais setores atingidos com esse problema é a classe média brasileira, o que pode ser um problema em um ano eleitoral.
De acordo com o Mapa da Inadimplência e Renegociação de Dívidas do Serasa, referente a março deste ano, o Brasil registrou 82,8 milhões de inadimplentes, o equivalente a 50,51% da população do país. Segundo o levantamento, são 338,2 milhões de dívidas que totalizam R$ 557 bilhões em dívidas. Em comparação ao mesmo período de 2025, isso é um aumento de 7,1 milhões de pessoas inadimplentes no país (75,7 milhões).
Ao Correio da Manhã, a consultora de Análise Política na BMJ Consultores Associados Raquel Alves destacou que, para reconquistar parte da classe médica, o governo precisa “mostrar que entende as demandas urgentes, de médio e longo prazo” da categoria e “elaborar propostas com soluções estruturantes e não apenas conjunturais”.
“De nada adiantam pacotes sucessivos que resolvam problemas imediatos e deixem questões profundas (como o alto custo da classe média com educação, saúde, segurança pública, transporte) sem solução. E claro, a estabilidade fiscal, porque afinal a classe média tem pouca margem de manobra para suportar choques econômicos”, destacou a analista política.
Desenrola 2.0
De acordo com o Ministério da Fazenda, a reformulação do programa Desenrola tem como foco a renegociação de dívidas ligadas a cartão de crédito, cheque especial e crédito direto ao consumidor. A proposta é implementar descontos de até 90% na cobrança de juros bancários. Segundo o Banco Central (BC), a taxa média de juros do rotativo do cartão de crédito é de 428% ao ano, já no caso de cheque especial, a taxa de juros média é de 137,9% ao ano.
Dentre as alternativas de pagamento, está a liberação, ainda que limitada, do uso do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) para ajudar a quitar o saldo da dívida. Questionado pela imprensa nesta quarta-feira (29), o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, declarou que a segunda fase do Desenrola deve consumir aproximadamente R$ 4,5 bilhões do FGTS, com um teto de R$ 8 bilhões. Segundo o ministro, a medida permitirá que trabalhadores que ganhem até cinco salários-mínimos (atualmente em R$ 8.105, R$ 1.621 mensais) possam quitar suas dívidas.
Ainda na quarta-feira, o secretário do Tesouro Nacional, Daniel Leal, informou à imprensa que, se o governo federal utilizar os valores esquecidos nos bancos não haverá impacto primário nas contas públicas, já que se tratam de valores de receita privada e não do Tesouro Nacional. Contudo, caso a equipe econômica do poder Executivo utilize um investimento no Fundo Garantidor de Operações (FGO) para dar aval as renegociações com recursos do Tesouro Nacional, haverá impacto primário nas contas públicas.