Por: Beatriz Matos

Inclusão de Zema no inquérito das fake News abre nova crise política

Agora Romeu Zema: o inquérito das fake news não tem fim | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O pedido do ministro Gilmar Mendes para incluir o ex-governador Romeu Zema (Novo-MG) no inquérito das fake news pode até ter sido tratado, no calor do momento, como mais um atrito entre Supremo e política. Mas o episódio revela algo maior e mais sensível: o avanço do alcance do inquérito sobre um território cada vez mais difuso, onde crítica, narrativa política e humor se misturam.

O estopim foi o segundo episódio da série “Os intocáveis”, publicada pelo ex-governador nas redes sociais. Em formato de teatro de fantoches, o vídeo satiriza ministros do Supremo, especialmente Gilmar Mendes e Dias Toffoli, em meio às discussões sobre o envolvimento no caso do Banco Master.

A encenação não é neutra. O roteiro mistura ironia com referências diretas a decisões judiciais, menções a quebra de sigilo que ocorreram no âmbito da CPI do Crime Organizado e insinuações sobre movimentações financeiras. Tudo embalado como humor, mas com conteúdo claramente político. E foi exatamente aí que o vídeo deixou de ser só uma provocação.

O movimento

Na petição enviada ao ministro Alexandre de Moraes, relator do inquérito, Gilmar Mendes argumenta que o conteúdo ultrapassa a crítica institucional e atinge diretamente a honra dos ministros. O documento afirma que a publicação “vilipendia não apenas a honra e a imagem deste Supremo Tribunal Federal, como também da minha própria pessoa”.

Mais do que o conteúdo em si, o ministro chama atenção para o alcance da postagem. Com milhões de seguidores e forte circulação nas redes, o vídeo deixa de ser apenas opinião e passa a ter potencial de amplificação de narrativas, um ponto central levantado pelo ministro dentro do inquérito.

O conteúdo

A própria transcrição do vídeo, anexada à petição, ajuda a entender o incômodo. Nos diálogos encenados, os personagens fazem referência a “quebra de sigilo”, “movimentações suspeitas” e citam o Banco Master em tom de insinuação.

O problema, na avaliação do ministro, não é o humor em si, mas o tipo de narrativa que ele carrega. A crítica deixa de ser genérica e passa a sugerir vínculos e irregularidades envolvendo integrantes da Corte. É aí que o caso entra no radar do inquérito.

Parlamentares da oposição passaram a tratar o episódio como um marco perigoso. O argumento é direto: se um ex-governador pode ser investigado por um conteúdo de teor crítico, abre-se um precedente sobre o alcance do inquérito e seus limites.

A crítica vai além do caso Zema. Ela mira o próprio modelo do inquérito das fake news, frequentemente questionado por concentrar, dentro do Supremo, funções que normalmente seriam separadas. O inquérito das fake news, que nasceu para investigar estruturas organizadas de desinformação, passa agora a encostar em conteúdos de natureza política, com linguagem híbrida, onde humor e crítica se confundem.

Zema, no entanto, não recuou e dobrou a aposta. Após a repercussão do pedido, voltou às redes para defender o conteúdo e reforçar o tom político da série. Disse que o humor sempre foi usado como ferramenta de crítica ao poder e questionou a reação dos ministros.

Morte de “Sicário”

O episódio também se conecta diretamente aos desdobramentos mais recentes do caso Banco Master. A Polícia Federal concluiu que Luiz Phillipi Mourão, apontado como operador de Daniel Vorcaro, tirou a própria vida dentro da superintendência em Belo Horizonte, sem participação de terceiros. A conclusão reforça o peso das investigações sobre a estrutura paralela ligada ao banqueiro, que inclui o grupo de espionagem conhecido como “A Turma”. O material já foi encaminhado ao Supremo, onde segue sob relatoria do ministro André Mendonça.