Em um momento de crescente instabilidade geopolítica e de graves violações ao direito internacional, a defesa da soberania brasileira se torna uma das pautas mais importantes neste ano de eleição presidencial no país. Líderes nas pesquisas de intenção de voto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) têm posições diametralmente opostas nesse debate, sobretudo em relação à política intervencionista adotada pelos Estados Unidos a partir da posse do presidente Donald Trump.
De um lado, Lula mantém a rejeição a qualquer tentativa de interferência estrangeira em assuntos internos do Brasil. O mesmo discurso que contribuiu para a recuperação de seus índices de popularidade no ano passado, quando Trump impôs um tarifaço ao país como pressão contra o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), no Supremo Tribunal Federal (STF), por tentativa de golpe de Estado.
Na última sexta-feira (10), por exemplo, durante um evento da área de Educação, em São Paulo, o petista afirmou que Trump está "ameaçando todo mundo" e que “se ele soubesse da minha descendência com Lampião ele tomava muito cuidado”. “De qualquer forma, não queremos guerra. Queremos paz", observou.
Por outro lado, Flávio Bolsonaro tem, repetidamente, apelado para que o governo Trump interfira em questões internas do Brasil. Na área de segurança pública, por exemplo, já pediu aos Estados Unidos que classifiquem facções brasileiras como organizações terroristas, o que abriria caminho para uma possível intervenção militar norte-americana no Brasil.
Além disso, durante a Cpac, conferência conservadora realizada em março nos EUA, Flávio fez alertas sobre as eleições de outubro no Brasil, apelando para que a administração Trump monitore “a liberdade de expressão do nosso povo” e exerça “pressão diplomática para que as nossas instituições funcionem adequadamente”. Na mesma ocasião, anunciou que, se eleito presidente, o Brasil fornecerá terras raras e minerais críticos aos EUA, reduzindo parcerias com a China.
A partir das manifestações dos dois pré-candidatos, especialistas consultados pelo Correio vislumbraram qual deverá ser o perfil da política externa brasileira a partir de 1º de janeiro de 2027.
Cristina Pecequilo, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), especialista em política externa brasileira, alerta que as eleições de outubro no Brasil serão decisivas para o futuro da soberania do país.
“Acredito que o retorno das forças conservadoras ao poder representará o risco de uma perda de soberania à medida que o alinhamento com os EUA, sob quaisquer condições, passa a ser visto como prioritário. Isso já foi observado anteriormente e levou à perda de espaços e tensões com parceiros importantes como a China e os BRICS. Além disso, poderia trazer a ameaça da cessão de ativos estratégicos sem contrapartidas. Em síntese, seria um retrocesso”, ressaltou.
“A diplomacia do governo Lula tem sido conduzida de forma serena e firme, em defesa da soberania nacional, mesmo em um cenário internacional que está cada dia mais conturbado. Acho que o melhor exemplo do acerto da diplomacia atual, e que permaneceria em caso de reeleição, foi a postura na guerra comercial com os EUA, quando o Brasil não cedeu as ameaças dos EUA e defendeu seus interesses. Diplomacia é pragmatismo e serenidade, e isso tem sido a tônica da política externa de Lula 3”, concluiu.
Flávio deve repetir gestão do pai
Günther Richter Mros, professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), avalia que “em um eventual governo de Flávio Bolsonaro, a tendência seria a continuidade, e possivelmente o aprofundamento, da política externa adotada durante o governo do pai, Jair Bolsonaro, com forte componente ideológico e alinhada a agendas conservadoras no plano internacional”.
“No campo econômico, isso poderia significar maior adesão às diretrizes do sistema financeiro internacional tal como estruturado desde Bretton Woods, com ênfase na atuação de organismos como FMI e Banco Mundial e maior convergência com a chamada ‘cartilha de Washington’”, acrescentou.
Segundo ele, “em termos de soberania, esse tipo de orientação pode envolver uma abertura mais ampla ao capital estrangeiro em setores estratégicos, como recursos naturais, inclusive terras raras, o que tende a gerar debates internos sobre os limites dessa abertura. Eventuais tensões institucionais com o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal não podem ser descartadas, sobretudo caso iniciativas entrem em conflito com dispositivos constitucionais”.
Em um eventual novo governo Lula, prosseguiu o docente, “a política externa tenderia a reforçar uma tradição recente de maior autonomia estratégica, com ênfase no aprofundamento das relações com o chamado Sul Global. Isso inclui o fortalecimento de coalizões como o BRICS e a defesa de reformas no sistema financeiro internacional, com vistas a ampliar a representatividade e reduzir assimetrias estruturais”.
“Nesse contexto, a soberania é frequentemente articulada não apenas como controle territorial ou econômico, mas também como capacidade de atuação autônoma no sistema internacional. Iniciativas como a possível internacionalização de instrumentos financeiros nacionais, como o PIX, podem ser compreendidas como parte dessa estratégia mais ampla de projeção de autonomia e inovação institucional”, afirmou Mros.
Ele concluiu: “De modo geral, portanto, os dois cenários apontam para concepções distintas de soberania. Uma mais associada à integração às estruturas já consolidadas da ordem internacional, e outra voltada à diversificação de parcerias e à busca de maior margem de manobra no sistema global”.
Ana Beatriz Zanuni, internacionalista na BMJ Consultores Associados, avalia que, “em caso de eleição do senador Flávio Bolsonaro, sua projeção para política externa brasileira tende a seguir o alinhamento ideológico observado no mandato de Jair Bolsonaro, priorizando a proximidade com o eixo liderado por Donald Trump nos Estados Unidos e parceiros regionais como Chile e Argentina”.
“Dessa forma, ainda que com uma postura por patriotismo em diferentes contextos, haveria uma abertura maior para a influência norte-americana em questões internas brasileiras. Isso inclui desde a facilitação de acordos sobre minerais estratégicos até a participação direta na segurança pública, com eventual classificação de grupos criminosos como terroristas. Tais intenções foram sinalizadas por Flávio Bolsonaro em sua última viagem aos EUA em março”, sublinhou a especialista.
Para Ana Beatriz, o rigor em relação à soberania nacional e à restrição de interferência externa deve se tornar a diretriz principal quando o assunto é a China.
“Devido ao distanciamento ideológico, a tendência de um eventual governo de Flávio seria voltada a diminuir a presença chinesa em setores estratégicos do Brasil. Essa abordagem pode incluir a redução de investimentos chineses e alteração da postura comercial. Um cenário possível já é observado no México, onde foram aplicadas tarifas de importação elevadas para determinados produtos com impacto mais significativo para os envios da China, em meio a negociações com Estados Unidos”, pontuou a internacionalista.
Para ela, caso Lula seja reeleito, a tendência é a manutenção de uma diplomacia baseada em pragmatismo, como observado sob a condução de Mauro Vieira à frente do Ministério das Relações Exteriores. “Dessa forma, as negociações com os Estados Unidos, por exemplo, visam resolver entraves comerciais, como a investigação da Seção 301 e a imposição de tarifas, enquanto busca cooperações estratégicas com limitações claras em áreas como minerais críticos e o combate ao narcotráfico”, afirmou.
“Portanto, mesmo buscando uma aproximação comercial, a postura do governo visa limitar a interferência política norte-americana em assuntos domésticos, especialmente em relação ao processo eleitoral e à segurança pública. Por essa razão, o governo se posiciona contra a classificação de facções brasileiras como grupos terroristas pelos EUA, visando impedir que tal medida abra espaço para intervenções estrangeiras que possam ferir a autonomia das instituições brasileiras - especialmente dentro do discurso de ‘Brasil Soberano’ adotado desde 2025”, ressaltou Ana Beatriz.