Por: Beatriz Matos

Pesquisa aponta que voto em Flávio é mais instável

60% afirmam não ter certeza se votarão mesmo em Flávio Bolsonaro | Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

A pesquisa Meio/Ideia divulgada neste mês de abril revela um cenário eleitoral competitivo e imprevisível para 2026, mas com um dado que chama atenção neste momento: segundo a pesquisa, o voto no senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato de oposição à Presidência, seria hoje mais frágil que o voto no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que tenta a reeleição. Embora apareça numericamente forte, com ligeira vantagem, mas empatado na margem de erro com Lula num eventual segundo turno, parte relevante do seu eleitorado ainda não está consolidada, o que redesenha a disputa no campo da direita.

No cenário estimulado de primeiro turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lidera com 40,4% das intenções de voto, seguido por Flávio Bolsonaro, com 37%. Na sequência aparecem o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), com 6,5%; Renan Santos (Missão), com 3%, e o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo), também com 3%.

Já em um eventual segundo turno entre Lula e Flávio, há empate técnico: o petista aparece com 45,5% e o senador com 45,8%, dentro da margem de erro de 2,5 pontos percentuais.

Indecisão

Mas é na qualidade desse voto que está o principal alerta. A pesquisa mostra que apenas 39,6% dos eleitores de Flávio dizem estar decididos, enquanto 60,4% afirmam que ainda podem mudar de escolha até a eleição. No caso de Lula, o cenário é inverso: 73,4% dos seus eleitores já estão consolidados.

Segundo o cientista político Arthur Wittenberg, professor do Ibmec Brasília, esse dado não é trivial.

“Essa volatilidade entre os eleitores de Flávio Bolsonaro são atípicos para esse momento do ciclo eleitoral. Em abril de um ano eleitoral, candidatos com base consolidada costumam ter pelo menos metade dos seus eleitores decididos. Para comparação, Lula tem muito mais eleitores decididos do que Flávio. Isso não é ruído estatístico, é sinal estrutural: Flávio carrega intenção de voto que ainda não se converteu em identidade eleitoral. O eleitor está ‘estacionado’ nele, não comprometido com ele.”

Esse comportamento dialoga com outro indicador do levantamento: 51,4% do eleitorado brasileiro afirma que ainda pode mudar de voto até 2026, contra 48,6% que dizem já ter uma decisão tomada.

Transferência e disputa

A pesquisa também reforça que o capital político do ex-presidente Jair Bolsonaro ainda influencia o cenário. Na espontânea, ele aparece com 6% das intenções de voto, mesmo inelegível.

Para o cientista político Arthur Wittenberg, isso ajuda a explicar a instabilidade do filho. “O ex-presidente Jair Bolsonaro, apesar de inelegível, ainda tem 6% na intenção espontânea — o que é bastante expressivo. Ele é uma força eleitoral inegável. O problema é que transferência de capital político de um líder para um herdeiro é sempre incompleta, especialmente quando o herdeiro ainda não construiu uma narrativa própria que ative as mesmas emoções do eleitorado.”

Na mesma linha, o diretor do Ibmec e PhD em ciência política Ricardo Caichiolo avalia que o cenário revela uma direita ainda em definição. “A alta volatilidade entre os eleitores de Flávio Bolsonaro indica uma fragilidade incomum para o período pré-eleitoral. Nesse sentido, pode-se inferir que a direita demonstra insegurança com relação ao seu nome, sugerindo que ele ainda não foi totalmente consolidado como o sucessor natural do espólio político do pai.”

Esse espaço em aberto abre caminho para outros nomes. Caiado e Zema aparecem como alternativas competitivas e, segundo os especialistas, disputam diretamente esse eleitor ainda indeciso. “Há um vácuo político que permite a ascensão de alternativas como Ronaldo Caiado, que pode se mostrar com potencial para a migração de votos em seu favor. Outros nomes como Romeu Zema e Tarcísio de Freitas também chamam atenção desse eleitor que busca uma direita com perfil de gestão e menor exposição a desgastes jurídicos”, afirma o especialista Ricado Caichiolo.

O cenário se completa com índices elevados de rejeição: Lula tem 44,2% e Flávio Bolsonaro, 37,5%, o que indica um eleitorado dividido e ainda em compasso de espera.

Para Arthur Wittenberg, esse é o ponto central da disputa. “O bolsonarismo como força eleitoral ainda é suficiente para sustentar candidaturas competitivas — o segundo turno empatado com Flávio comprova isso. Mas como força coesa capaz de definir um candidato único, ele está, em alguma medida, fragmentado.”