O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) confirmou que o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin (PSB), deixa o Ministério para integrar a chapa presidencial e concorrer novamente como vice de Lula.
O comunicado foi realizado nesta terça-feira (31), na primeira reunião ministerial do ano, em que Lula se despediu de seus ministros que deixarão o Planalto para concorrer a outros cargos eleitorais. O presidente confirmou que ao menos 18 ministros, incluindo Alckmim, deixarão o Planalto. Os interessados têm até este sábado (4) para se desincompatibilizar do governo.
Recalculando a rota
Inicialmente, a expectativa era que Alckmin concorresse para o Senado por São Paulo, junto com a então ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, que confirmou sua desincompatibilização com esse objetivo. Diante disso, a vaga de vice-presidente poderia ser aberta para outro aliado do governo.
Lula explicitou essa vontade. Mas deixou claro que respeitaria a vontade de Alckmin, que preferiu manter-se na chapa ao lado de Lula. A confirmação, porém, revela outro dado: Lula procurou nomes para compor a vice com o objetivo de ampliar sua base de apoio. Não conseguiu.
Com isso, o palanque do governo para o estado de São Paulo confirmado até o momento é Tebet para o Senado e o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, que deixou o ministério em 20 de março, para concorrer para governador do estado. A candidatura dele visa tentar bater de frente contra a campanha de reeleição do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). É possível que a outra vaga na chapa seja da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva (Rede), que também deixa o cargo.
Ao Correio da Manhã, o cientista político e professor do curso de Relações Internacionais do Ibmec BH Adriano Cerqueira avaliou a mudança de estratégia em convocar Alckmin para concorrer novamente a vice-presidência evidencia que “uma possível ampliação de uma chapa eleitoral com outros partidos, tornou-se inviável” para o governo.
“Em certa medida, a medida é decorrente da frustração de não ter conseguido ampliar o leque de alianças partidárias numa chapa presidencial e que envolveria algum partido mais ao centro, em especial o PSD de Gilberto Kassab. Então optou-se por essa manutenção da atual chapa”, ele ponderou.
Vale destacar que, nesta segunda-feira (30), o PSD confirmou a pré-candidatura do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, para presidência da República. Caiado se desincompatibilizou do cargo nesta terça-feira e transferiu o governo para seu vice, Daniel Vilela (MDB).
Sobrevivência política
A reportagem ainda conversou com o professor de políticas públicas do Ibmec Brasília Jackson De Toni, o qual completou que, baseado nas últimas movimentações do governo quanto ao cenário eleitoral, se consolida “a narrativa de que o governo assumiu de vez um modo focado na sobrevivência política”.
“Ao ‘recalcular a rota’ e confirmar Alckmin novamente como seu candidato a vice na chapa presidencial de 2026, Lula toma uma decisão de forte simbolismo e pragmatismo político. A manobra repete a bem-sucedida aliança de 2022 que simbolizou a chamada ‘frente ampla’, reafirmando a ponte do governo com o centro, com setores conservadores e com o empresariado privado. Além disso, a manutenção da parceria supera resistências internas do próprio PT, que via em Alckmin o nome ideal para disputar o Senado e garantir um palanque mais forte para Lula em São Paulo”, destacou De Toni.
Por outro lado, Adriano Cerqueira avalia que o governo tem demonstrado dificuldades para se mostrar forte para outras siglas, especialmente de centro. “A meu ver, de uma dificuldade que o governo Lula está enfrentando neste momento de conseguir convencer os partidos mais ao centro de que tem uma candidatura com forte favoritismo para ganhar as eleições. Acho que a leitura que os partidos do centro estão fazendo é que essa eleição vai ser muito difícil para o Lula”, afirmou o cientista político.
Trocas
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determina que pessoas que ocupam cargos públicos no Poder Executivo e tenham interesse em lançar candidaturas para um cargo político no período eleitoral, com exceção do presidente da República e vice, devem se desincompatibilizar do cargo que ocupam seis meses antes do primeiro turno das eleições.
A medida visa impedir que o servidor se aproveite da máquina pública, recursos ou a visibilidade da sua função atual para obter vantagem indevida sobre os demais concorrentes. Diante disso, os interessados (sejam ministros, governadores, prefeitos) têm até este sábado (4), para se desincompatibilizar do cargo para focar em sua campanha eleitoral. Um exemplo é o agora ex-governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), que deixou o cargo nesta segunda-feira (30) para concorrer ao Senado pela capital federal.
O professor de políticas públicas reiterou que os respectivos ministros deste mandato “levam consigo o bônus da vitrine federal, mas também o ônus e os desgastes de áreas sensíveis como economia e educação”.
A reportagem ainda conversou com o mestre e doutor em Direito Constitucional e professor da USP Rubens Beçak, que considerou a troca de ministros em um “número muito expressivo”, destacou que o “o exercício ministerial dá um relevo muito grande, por conta da abrangência das políticas” realizadas pela respectiva pasta.
“Quanto mais importante for a função daquele ministério, mais visibilidade terá o ministro. E se ele tiver explorado bem isso, por exemplo, tendo realizado bem as tarefas e os programas que se dispôs a fazê-lo, ele terá como cacifar mais como moeda a apresentar o eleitor de realizações.
Veja os nomes de outros ministros que deixarão seus cargos para disputar a eleição:
Rui Costa - Deixa a Casa Civil para disputar o Senado pela Bahia
Gleisi Hoffmann - Deixa a Secretaria de Relações Institucionais para disputar o Senado pelo Paraná
Marina Silva - Deixa o Ministério do Meio Ambiente e Mudança Climática e, apesar de não ter confirmado, deve disputar o Senado por São Paulo
Camilo Santana - Deixa o Ministério da Educação e, apesar de não ter confirmado, deve disputar o governo do Ceará ou o Senado pelo Ceará
Carlos Fávaro - Deixa o Ministério de Agricultura e Pecuária deve disputar o Senado por Mato Grosso
André de Paula - Deixa o Ministério da Pesca e foi remanejado para o Ministério da Agricultura
Renan Filho - Deixa o Ministério dos Transportes para disputar o governo de Alagoas
Paulo Teixeira - Deixa o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar para disputar a Câmara dos Deputados por São Paulo
André Fufuca - Deixa o Ministério do Esporte para concorrer ao Senado pelo Maranhão
Macaé Evaristo - Deixa o Ministério de Direitos Humanos para concorrer a deputada estadual por Minas Gerais
Anielle Franco - Deixa o Ministério da Igualdade Racial para concorrer como deputada federal pelo Rio de Janeiro
Silvio Costa Filho - Deixa o Ministério de Portos e Aeroportos para disputar a Câmara dos Deputados por Pernambuco
Jader Filho - Deixa o Ministério de Cidades para concorrer como deputado federal pelo Pará
Waldez Góes - Deixa o Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional para disputar o Senado pelo Amapá
Sonia Guajajara - Deixa o Ministério dos Povos Originários para concorrer como deputada federal por São Paulo
Márcio França - Deixa o Ministério do Empreendedorismo e, apesar de não estar confirmado, deve ser remanejado para o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços