A possível delação premiada de Fabiano Zettel, cunhado e braço direito de Daniel Vorcaro, inaugura uma nova fase no caso Banco Master, marcada não apenas pelo avanço das negociações com investigadores, mas também pela tentativa de o Congresso assumir protagonismo nas apurações. Preso desde 4 de março, na terceira fase da Operação Compliance Zero, Zettel passou a ser visto como peça-chave para destravar a engrenagem do esquema investigado.
A mudança na defesa reforça esse movimento. Os advogados anteriores deixaram o caso por “motivo de foro íntimo” e transferiram a representação ao criminalista Celso Vilardi que é conhecido por atuar em acordos de colaboração premiada. Vilardi foi o advogado do ex-presidente Jair Bolsonaro na ação por tentativa de golpe. Nos bastidores, a leitura é direta: a estratégia jurídica mudou, e o caminho da delação passou a ser considerado de forma concreta.
Estrutura
A decisão que autorizou as prisões, assinada pelo ministro André Mendonça (STF), detalha o papel de Zettel dentro da organização investigada. Segundo a Polícia Federal (PF), ele atuava como operador financeiro do grupo, responsável por viabilizar pagamentos, estruturar contratos simulados e dar suporte direto às ordens de Vorcaro .
Os elementos reunidos apontam que Zettel participava da “intermediação e operacionalização de pagamentos” e da criação de mecanismos para dar aparência legal a repasses financeiros, inclusive em tratativas com servidores do Banco Central (BC). Também caberia a ele a execução de pagamentos ligados ao grupo informal conhecido como “A Turma”, estrutura descrita como responsável por monitoramento e intimidação de adversários.
A própria decisão destaca que não é possível dissociar sua atuação da de Vorcaro, indicando uma relação operacional direta entre comando e execução dentro do esquema.
CPI do Master
Enquanto a frente judicial avança, cresce a pressão política para abertura de uma CPI do Banco Master no Senado. O pedido, protocolado ainda em novembro de 2025, já reúne mais de 50 assinaturas e mira exatamente os mesmos fatos investigados pela PF: suspeitas de fraudes financeiras, lavagem de dinheiro e possível cooptação de agentes públicos.
Na ação apresentada ao Supremo, senadores alegam omissão da presidência da Casa, senador Davi Alcolumbre (União-AP), em dar andamento ao requerimento, mesmo diante do cumprimento dos requisitos constitucionais. O argumento é que a investigação parlamentar se tornou “instrumento necessário” diante da dimensão do caso e do impacto sobre o sistema financeiro.
A eventual delação de Zettel pode acelerar esse processo. Parlamentares avaliam que novas revelações tendem a ampliar o desgaste político e tornar ainda mais difícil segurar a instalação da comissão.
Delator tardio
Nos bastidores da investigação, a expectativa é de um efeito em cadeia. A avaliação de investigadores é que, diante do avanço das tratativas envolvendo Vorcaro, outros integrantes do núcleo operacional devem buscar acordos para não ficarem isolados.
Para o jurista Melillo do Nascimento, esse movimento segue uma lógica própria do sistema. “A delação não é sobre arrependimento — é sobre utilidade”, afirma. Segundo ele, o fator decisivo é o timing: “delator tardio é quase sempre um delator caro e pouco interessante”.
Na prática, explica, o processo começa com sondagens informais e evolui para uma negociação baseada na capacidade do investigado de entregar informações novas, provas verificáveis e conexões relevantes. “No fundo, não se trata apenas de verdade, mas de correlação de forças”, diz.
É justamente esse cálculo que passa a orientar o caso. Com acesso direto à engrenagem financeira do esquema, Zettel surge como um dos nomes com maior potencial de ampliar o alcance das investigações.