A investigação sobre o Banco Master entrou em uma nova fase que pode ser mais sensível e potencialmente mais explosiva. Por decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), a Polícia Federal (PF) terá mais 60 dias para aprofundar as apurações. O prazo adicional ocorre em meio a uma possível mudança estratégica na defesa de Daniel Vorcaro, que passou a sinalizar, nos bastidores, interesse em firmar um acordo de delação premiada.
A prorrogação do inquérito atende a um pedido da própria PF, que tenta consolidar provas e avançar no rastreamento do fluxo financeiro do esquema. O objetivo, segundo investigadores, é fechar lacunas sobre a origem e o destino dos recursos movimentados. A avaliação interna é de que, ao mapear as transações, será possível identificar responsabilidades, conexões políticas e eventuais ramificações ainda não reveladas.
Defesa
A troca de advogados marcou uma inflexão no caso. O criminalista José Luís Oliveira Lima, conhecido como Juca, assumiu a defesa de Vorcaro no lulgar de Pierpaolo Bottini e já procurou a Polícia Federal para tratar da possibilidade de colaboração. A sinalização foi recebida como relevante por interlocutores das investigações.
Nos bastidores, também houve aproximação com integrantes do gabinete do ministro André Mendonça. Segundo relatos, a conversa foi considerada “promissora”, mas condicionada ao conteúdo que poderá ser apresentado. Três pontos foram colocados como essenciais para qualquer avanço: apresentação de novas linhas de investigação ainda desconhecidas, indicação de novos nomes envolvidos e entrega de provas materiais com datas e detalhes que permitam a reconstrução dos fatos.
A eventual delação é vista como peça-chave para reorganizar o tabuleiro do caso. Isso porque, até aqui, as apurações já indicam uma rede complexa que envolve agentes do sistema financeiro, operadores e possíveis interlocutores no meio político.
Bastidores
A possibilidade de colaboração de Vorcaro também provocou movimentações fora do campo jurídico. Nos bastidores de Brasília, começa a ganhar força uma articulação que envolve Executivo, Legislativo e Judiciário, com foco no ministro Dias Toffoli. A informação foi dada pelo jornal “O Globo”.
A avaliação de interlocutores é de que uma delação pode atingir nomes relevantes da política nacional, incluindo figuras como o senador Ciro Nogueira (PP-PI), o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), o presidente do União Brasil, Antônio Rueda, além de outras lideranças partidárias. Diante desse cenário, cresce a preocupação em conter eventuais danos institucionais, especialmente dentro do Supremo.
Há, inclusive, discussões sobre uma possível saída negociada de Toffoli, como forma de evitar o avanço de um processo de impeachment. No Executivo, a leitura é de que uma crise dessa magnitude, em ano pré-eleitoral, teria impacto direto sobre o governo, já que o ministro foi indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Mensagens
Um dos pontos mais sensíveis da investigação envolve mensagens atribuídas a Vorcaro. A Polícia Federal realizou análise técnica de conteúdos que indicariam uma troca de comunicações, em 17 de novembro, com o ministro Alexandre de Moraes.
Os registros, no entanto, apresentam características atípicas. Parte das mensagens teria sido redigida em aplicativos de bloco de notas e enviada como imagens de visualização única pelo WhatsApp. Em nota, Moraes afirmou que os conteúdos não aparecem como enviados ao seu contato e que análises técnicas indicam incompatibilidade com seus contatos.
Apesar disso, os investigadores tratam o material com cautela e seguem tentando validar a autenticidade e o contexto das mensagens. O conteúdo extraído do celular de Vorcaro também cita outras autoridades, o que amplia o alcance potencial das apurações.
CPMI
No Congresso, a pressão política se intensifica. A CPI do Crime Organizado aprovou a convocação da influenciadora Martha Graeff, ex-companheira de Vorcaro, considerada peça central para esclarecer a dinâmica do caso. Ela deve comparecer à CPI na próxima segunda-feira, (23).
As investigações mostram que foi com ela que o banqueiro compartilhava detalhes de suas articulações, inclusive envolvendo autoridades e decisões estratégicas. Mensagens do celular de Vorcaro que foram vazadas pela CPIMI do INSS indicam que Vorcaro teria transferido bens que podem ultrapassar os US$ 100 milhões — cerca de R$ 520 milhões — para contas no exterior vinculadas à ex-namorada.
Entre os ativos mencionados está uma mansão em Miami, avaliada em aproximadamente US$ 86,5 milhões. A Polícia Federal trabalha com a hipótese de blindagem patrimonial por meio de estruturas jurídicas conhecidas como trusts.
A defesa de Martha Graeff nega qualquer irregularidade. Em nota, afirmou que ela não possui bens decorrentes do relacionamento, desconhece a existência de trust em seu nome e informou ainda que ela declara regularmente seu patrimônio às autoridades fiscais americanas. A defesa também classifica a divulgação das mensagens como ilegal e afirmou que a influenciadora está à disposição para prestar esclarecimentos.
Apesar da convocação, a presença de Martha na comissão ainda é incerta. Parlamentares discutem a possibilidade de depoimento em sessão reservada, inclusive por videoconferência.
Enquanto isso, as investigações seguem avançando em múltiplas frentes. Desde novembro de 2025, quando foi deflagrada a primeira fase da operação, o caso já revelou suspeitas de fraudes em larga escala, com prejuízos estimados em mais de R$ 12 bilhões. Em etapas posteriores, houve bloqueio de bilhões em bens, além da identificação de uma estrutura paralela que incluiria monitoramento de adversários e até cooptação de agentes públicos de dentro do Banco Central (BC).