Por: Gabriela Gallo

Caso Master recoloca corrupção no debate eleitoral

Para analistas, escândalo mudará eixo do debate eleitoral | Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

A cada dia em que se aproxima o período eleitoral, se desdobra um novo capítulo da fraude bilionária do Banco Master. E em um país que enfrenta uma forte polarização política, o desenrolar dos fatos e as pessoas envolvidas nele, questiona-se o quanto isso influenciará o eleitor brasileiro e como o governo e a oposição devem conduzir o caso no processo eleitoral.

Ao Correio da Manhã, o professor de políticas públicas do Ibmec Brasília Jackson De Toni considera que o escândalo “recolocou a corrupção como tema central das eleições de 2026”. Além disso, como as investigações atingem figuras ligadas aos três poderes, o caso ainda fomenta na população “um forte sentimento antissistema e de repulsa à política tradicional, em um cenário que se assemelha ao período da Operação Lava-Jato”.

Por outro lado, o coordenador de análise política da BMJ Consultores Associados Lucas Fernandes avaliou para a reportagem que, ao contrário de escândalos clássicos de corrupção como a Lava-Jato, o caso Master é mais complexo por ser um caso de “natureza predominantemente institucional, com suspeitas relacionadas a relações indevidas entre agentes econômicos, sistema político e órgãos de regulação”.

E, consequentemente, “é mais complexo de explicar para o eleitor” que tende a produzir efeitos eleitorais indiretos, “baseados mais em percepções de proximidade entre poder econômico e poder político do que em acusações simplificadas de corrupção”.

Narrativas

O fato em comum para ambos os analistas é que cada lado tentará monopolizar a narrativa envolvendo as fraudes bancárias do Master para tentar se desassociar do caso na disputa eleitoral em outubro e transferir a culpa e o desgaste político para o respectivo adversário.

Para Jackson De Toni a estratégia do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deve focar em “adotar um discurso proativo de combate à corrupção, argumentando que as irregularidades só vieram à tona graças à autonomia dada à Polícia Federal”.

Lucas Fernandes ainda completou que o governo deve explorar “o que mais incomoda a oposição atualmente”, que é o fato de que as conexões públicas mais frequentes do presidente do Banco Master Daniel Vorcaro “atingem sobretudo figuras da direita e do Centrão”, especialmente após a quebra de sigilo telefônico de Vorcaro com a namorada. Mas é preciso lembrar que parte importante da origem dos consignados falsos que engordaram a carteira de créditos do Master deu-se na Bahia depois que o sócio de Vorcaro, Gustavo Lima, comprou do governo baiano, do PT, o CredCesta.

“A esquerda deve tentar enquadrar o episódio como prova de que o discurso moral da direita é seletivo e que parte do campo conservador mantém relações profundas com grupos econômicos e financeiros quando isso lhe convém. Nesse sentido, referências a Ciro Nogueira, viagens em jatinho, encontros e troca de mensagens com Vorcaro oferecem material para uma contraofensiva narrativa”, destacou o analista político para o Correio da Manhã.

Em contrapartida, ambos os analistas consideram que a oposição deve citar o encontro entre Lula e Vorcaro em dezembro de 2024 para associar o governo com o caso Master. “O próprio governo já precisou responder publicamente, dizendo que as agendas foram institucionais e se beneficia do fato de que, até o momento, não foram descobertas trocas de mensagem robustas com figuras do alto escalão do governo Lula”, disse Fernandes.

Contudo, a principal cartada da oposição será tentar deslegitimar instituições, especialmente o Supremo Tribunal Federal (STF) e os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, em um discurso antissistema. Jackson De Toni destacou que o intuito será “galvanizar o antipetismo, questionar as condenações referentes aos atos de 8 de janeiro de 2023 e promover CPIs para desgastar ainda mais as instituições”.

Legislação

Contudo, vale destacar que as campanhas eleitorais não são um “vale tudo” e que há limites na legislação eleitoral acerca do que é permitido ser usado para “atacar” adversários políticos. “A legislação impede o impulsionamento de campanha eleitoral negativa. Também pune a divulgação ou a fabricação de notícias fraudulentas, o que pode gerar desde aplicação de multa até inelegibilidade”, detalhou para a reportagem o especialista em Direito Eleitoral Renato Ribeiro de Almeida.

Ele ainda completou que “criticar com base em fatos verídicos, desde que sem impulsionamento, é permitido”. “O que não pode ocorrer é a criação de conteúdos artificiais, como deepfakes ou imagens manipuladas, que possam confundir o eleitor com informações inverídicas”, reiterou Renato.