Por: Beatriz Matos

Vorcaro em Brasília amplia pressão por depoimento no Senado

Vorcaro foi transferido para Brasília na sexta-feira | Foto: Reprodução/Polícia Penal

A chegada do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, a Brasília reacendeu a pressão no Congresso para que ele preste depoimento nesta terça-feira (10). Preso preventivamente pela segunda vez na quarta-feira (4), na terceira fase da Operação Compliance Zero, o empresário foi transferido nesta sexta-feira (6) do interior de São Paulo para a Penitenciária Federal de Brasília, em decisão autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Vorcaro deixou o presídio de Potim por volta das 11h30 e foi escoltado pela Polícia Penal Federal em uma aeronave de pequeno porte da Polícia Federal (PF). A transferência ocorreu após pedido da própria PF, que alegou necessidade de garantir a integridade física do investigado e assegurar maior controle sobre sua custódia, diante da capacidade de articulação e influência atribuída ao banqueiro.

No presídio federal, a estrutura conta com 208 celas individuais, com cerca de seis metros quadrados. Antes de ser integrado ao regime normal da unidade, Vorcaro deverá permanecer 20 dias em isolamento, em uma cela de nove metros quadrados, período padrão de adaptação para novos detentos.

No mesmo dia em que Vorcaro era transferido para Brasília, era confirmada a morte de Luiz Philipi Machado de Mourão, o “Sicário”. Mourão foi preso junto com Vorcaro. Segundo o ministro do STF André Mendonça, ele comandava um núcleo da organização criminosa de Vorcaro que monitorava informações de adversários e, muitas vezes, os intimidava. Sicário tentou suicídio em Belo Horizonte, onde estava preso, entrou em protocolo de morte cerebral e seu falecimento foi confirmado na sexta-feira.

Depoimento

Mesmo com a nova prisão, segue mantida a expectativa de que o empresário compareça à Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado nesta terça-feira (10). O presidente do colegiado, senador Renan Calheiros (MDB-AL), avalia que a autorização concedida anteriormente por Mendonça continua válida.

Segundo o parlamentar, a transferência para Brasília pode, inclusive, facilitar a audiência. “Do nosso ponto de vista, não mudou nada. A autorização já havia sido dada pelo ministro André Mendonça. Havia a questão do transporte de São Paulo para Brasília, mas agora ele já foi transferido”, afirmou.

Calheiros também disse que a defesa de Vorcaro chegou a sinalizar interesse em que o banqueiro fosse ouvido pela comissão. Caso a intenção seja mantida, o Senado poderá solicitar uma nova autorização ao Supremo em razão da mudança na natureza da prisão.

Pressão

Nos bastidores do Congresso, o depoimento do dono do Banco Master é visto como peça central para o avanço das investigações sobre o escândalo financeiro que envolve a instituição.

Vorcaro já deixou de comparecer a duas convocações anteriores — na CPMI do INSS e na CPI do Crime Organizado — após obter habeas corpus no STF que tornou sua presença facultativa. Agora, com o empresário preso em Brasília, parlamentares defendem que ele seja ouvido.

O deputado Alencar Santana (PT-SP) afirmou que a transferência elimina um dos principais obstáculos logísticos. “Agora ele já se encontra em Brasília e facilmente pode comparecer a uma sessão da CPMI para dar os esclarecimentos que a população brasileira espera”, disse.

Enquanto isso, a CPMI do INSS já recebeu documentos enviados pela Polícia Federal (PF) com quebras de sigilo bancário, fiscal e telemático do banqueiro. O presidente da comissão, senador Carlos Viana (Podemos-MG), pretende pedir revisão da decisão do Supremo para tornar o comparecimento obrigatório.

Bastidores

O caso também ampliou a tensão política em torno das investigações. Conversas apreendidas pela Polícia Federal mostram que Vorcaro mencionava o senador Ciro Nogueira (PP-PI) como “um dos grandes amigos de vida”.

Na CPI do INSS, o deputado Kim Kataguiri (União-SP) apresentou requerimentos para ampliar o alcance das apurações. Um deles pede a convocação de Martha Graeff, então companheira de Vorcaro, apontada nas investigações como pessoa que teria conhecimento de encontros e contatos do banqueiro com autoridades.

Outro requerimento solicita que o ministro Alexandre de Moraes, do STF, seja convidado a prestar esclarecimentos sobre menções a interações com o empresário em mensagens interceptadas pela PF.

Apesar da pressão pública, parlamentares admitem reservadamente que há resistência em ampliar as investigações. O motivo é simples: o avanço das apurações pode atingir nomes de diferentes partidos, o que reduz o apetite político para a instalação de uma CPI exclusiva sobre o Banco Master.