Por: Beatriz Matos

Flávio chega ao empate e ameaça reeleição de Lula

Flávio empata com Lula num eventual segundo turno | Foto: Lula Marques/Agência Brasil

A pesquisa AtlasIntel/Bloomberg, realizada entre 19 e 24 de fevereiro, mostra um empate técnico entre o presidente Luis Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) em um eventual segundo turno de 2026 — com 46,3% para Flávio e 46,2% para Lula, dentro da margem de erro.

É a primeira vez, nesta série, que o nome do senador encosta a ponto de ultrapassar numericamente o petista na simulação direta. O levantamento ouviu 4.986 respondentes.

O movimento aparece com nitidez na linha do tempo do confronto Lula x Flávio: em dezembro, Lula tinha 53% contra 41% do senador; em janeiro, a vantagem caiu para 49,2% a 44,9%, e agora chega ao 46,2% a 46,3%.

Para o cientista político Eduardo Galvão, diretor da Burson e professor do Ibmec-DF, o quadro combina desgaste de governo e reorganização do outro campo.

“A erosão de três pontos de Lula e o empate técnico com Flávio Bolsonaro no segundo turno parecem resultar de uma combinação de fatores. Há, sim, um desgaste natural de governo, sobretudo quando a avaliação positiva perde intensidade e a desaprovação se mantém elevada. Em contextos assim, o eleitorado tende a testar alternativas competitivas. Ao mesmo tempo, há sinais de consolidação do campo bolsonarista em torno de um nome viável. Não se trata necessariamente de uma grande migração ideológica do eleitorado, mas de um realinhamento dentro de blocos já polarizados, com parte do eleitor volátil reagindo mais ao humor econômico e à percepção de desempenho do governo do que a mudanças programáticas profundas.”

Números

Lula lidera todos os cenários de primeiro turno em que aparece. No cenário 1, tem 45,0%, contra 37,9% de Flávio Bolsonaro (PL) — com Ronaldo Caiado (PSD) em 4,9% e Romeu Zema (Novo) em 3,9%, além de Renan Santos (Novo) (2,9%) e Aldo Rebelo (Democracia Cristã) (1,1%).

No cenário 2, Lula marca 45,1% e Flávio 39,5%; Zema aparece com 3,9%, Ratinho Jr. (PSD) com 3,8%, Renan Santos com 3,2% e Aldo Rebelo com 1,1%. No cenário 3, Lula tem 45,3%, Flávio 39,1%, Zema 5,7% e Renan Santos 3,7%.

Há ainda um cenário em que Tarcísio de Freitas (Republicanos) entra no lugar de Flávio: Lula fica com 43,3% e Tarcísio com 36,2%. E, quando o teste inclui Lula, Flávio e Tarcísio juntos, o presidente sobe para 47,1%, Flávio cai para 33,1% e Tarcísio aparece com 7,4%.

Mesmo quando Lula é retirado do jogo e o nome do PT passa a ser Fernando Haddad (PT), a pesquisa aponta disputa apertada: Haddad marca 39,1% e Flávio 37,1%.

Para o professor Arthur Wittenberg, do Ibmec Brasília, o empate não se explica apenas por oscilação: “Essa queda de Lula combinada com a alta de Flávio sugere mais do que ruído estatístico: há sinal de desgaste do governo. A desaprovação majoritária e a avaliação negativa do governo criam terreno para voto punitivo. O empate técnico decorre menos de ‘onda nova’ e mais da soma entre custo de governo e consolidação do campo adversário. O índice de aprovação do governo tem caído pela pesquisa.”

Desgaste

Na avaliação do governo, o retrato é de divisão com viés negativo: 48,4% consideram a gestão Lula ruim ou péssima, 42,7% avaliam como ótima ou boa e 8,9% classificam como regular.
Quando a pergunta é desempenho pessoal do presidente, 51,5% desaprovam e 46,6% aprovam.

Ainda assim, o embate mais duro aparece na rejeição quando 48,2% dizem que não votariam em Lula de jeito nenhum, enquanto 46,4% afirmam o mesmo sobre Flávio Bolsonaro.

O professor Arthur Wittenberg observa que o cenário empurra a eleição para o eleitor mediano: “O avanço consistente de Flávio indica sobretudo coordenação do eleitorado bolsonarista em torno de um nome viável. É típico de contextos polarizados: quando surge um herdeiro competitivo, o voto útil se antecipa. Ainda não há evidência clara de expansão estrutural da base; o movimento parece mais transferência intrabloco do que realinhamento. Está em consolidação.”

Bolsonaro orgulhoso

Na manhã desta quarta-feira (25), após visitar o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, na Papudinha, Flávio usou a melhora momentânea no quadro de saúde para fazer um apelo por prisão domiciliar e, ao mesmo tempo, comentou a leitura que o grupo tem feito das sondagens.

“Ele estava hoje mais bem disposto”, disse, relatando que conversou com médicos e mencionando “uma crise de soluços” e “de vômitos” ocorrida na última segunda-feira (23). O senador afirmou que Bolsonaro “acompanha as pesquisas” e que “ficou feliz com o resultado”, citando números para Tarcísio e para a própria pré-candidatura ao Planalto.

Flávio também disse que ainda não discute vice e informou que a escolha será algo pessoal. “Não, nós não estamos tratando de vice ainda, estamos muito longe da campanha”, e afirmou que pretende procurar aliados para “parar qualquer tipo de aresta” no campo bolsonarista.

Na leitura de Eduardo Galvão, esse tipo de quadro tende a definir a eleição pela aversão, não pela paixão: “O empate no segundo turno, mesmo com Lula competitivo, revela duas dinâmicas simultâneas. De um lado, pode haver um teto de crescimento para o presidente, típico de lideranças muito conhecidas e com rejeição consolidada. De outro, o bolsonarismo demonstra possuir um piso sólido, capaz de garantir presença constante na casa dos 40% ou mais em cenários polarizados. Isso reforça a ideia de que a disputa de 2026, se mantida nesse eixo, tende a ser definida nas margens, por pequenos deslocamentos de opinião, desempenho econômico e capacidade de mobilização.”

A própria pesquisa sugere esse ambiente: ao perguntar qual resultado causa mais medo, 47,5% dizem temer a reeleição de Lula, enquanto 44,9% afirmam temer a eleição de Flávio — e 7,1% declaram que ambos preocupam igualmente.

Galvão resume o desafio estratégico: “Quando quase metade do eleitorado declara temer tanto a reeleição de Lula quanto a eleição de Flávio, o que se desenha é uma eleição movida mais por rejeição do que por entusiasmo. Esse ambiente altera profundamente a estratégia de campanha. Em vez de apostar apenas na mobilização emocional da base, os candidatos precisarão reduzir resistências, falar com eleitores cansados da polarização e oferecer garantias de estabilidade. Em disputas assim, vence menos quem empolga e mais quem consegue parecer menos arriscado aos olhos do eleitor médio.”