Em meio à disputa global por tecnologia, minerais estratégicos e mercados consumidores, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) inicia nesta quarta-feira (18), na Índia, uma das agendas internacionais mais estratégicas do ano. A missão, que começou na terça-feira (17) com embarque de Brasília, inclui compromissos em Nova Délhi e visita de Estado à Coreia do Sul, combinando inteligência artificial, ofensiva comercial e rearranjo diplomático.
Após um Carnaval de forte exposição pública e semanas depois de um procedimento cirúrgico, Lula retoma a agenda externa em um momento de tensão comercial entre grandes potências e de corrida por insumos estratégicos. O retorno ao Brasil está previsto para o dia 24 de fevereiro.
Reposicionamento
No Planalto, a leitura é de que a viagem consolida a estratégia de diversificação de parceiros. Para o mestre em Relações Internacionais Uriã Fancelli, o gesto não fortalece automaticamente o Brasil diante de outras potências, mas amplia sua margem de negociação.
“Essa agenda mostra que o Brasil tem uma cartela diversificada de parceiros comerciais e estratégicos”, afirma. Segundo ele, ao se aproximar de Índia e Coreia do Sul, o país demonstra que não depende exclusivamente de um eixo geopolítico. “O desafio é transformar esses movimentos em margem de manobra e não simplesmente reagir de forma defensiva.”
Para Fancelli, a aproximação com a Índia carrega também um componente simbólico. “Quando o Brasil se move em direção a parceiros como a Índia, ele não está só dizendo ‘tenho outras opções’, mas está se aproximando de países que também questionam essa ideia de hegemonia incontestável dos Estados Unidos.”
Inteligência Artificial
Nos dias 19 e 20, Lula participa, em Nova Délhi, da Cúpula Global sobre Inteligência Artificial, que deve reunir cerca de 40 mil participantes de 50 países. Brasil e Japão copresidirão um grupo de trabalho sobre IA segura e confiável.
A pauta inclui governança digital e acesso a minerais críticos e terras raras, insumos essenciais para a indústria de tecnologia e para a produção de semicondutores. Esses materiais estão no centro da disputa internacional por inovação e cadeias produtivas estratégicas. Os Estados Unidos, por exemplo, vêm adotando políticas para reduzir dependências consideradas sensíveis e diversificar fornecedores de minerais estratégicos, enquanto potências asiáticas buscam consolidar sua liderança tecnológica.
Nesse cenário de competição entre grandes polos econômicos, cresce a pressão para que países médios definam alinhamentos estratégicos.
Para Uriã Fancelli, o Brasil tenta sustentar uma posição de equilíbrio. “O Brasil já deixou bastante claro que não pretende escolher lados e que não vê vantagem em escolher lados”, afirma.
Coreia do Sul
A partir de 22 de fevereiro, Lula segue para Seul, onde realiza visita de Estado e participa do Fórum Empresarial Brasil-Coreia. Está prevista a assinatura de um plano de ação 2026-2029 para elevar o relacionamento bilateral.
A abertura do mercado sul-coreano para a carne bovina brasileira é a principal meta comercial. Atualmente, o país importa majoritariamente da Austrália e da Nova Zelândia.
Ofensiva Comercial
O comércio bilateral entre Brasil e Índia alcançou US$ 15 bilhões em 2025. Com a Coreia do Sul, o fluxo foi de US$ 10,8 bilhões.
A missão empresarial evidencia o peso econômico da viagem. A lista atualizada reúne mais de 300 representantes de setores como mineração, agronegócio, indústria farmacêutica, tecnologia da informação, energia elétrica e economia criativa . Estão entre os inscritos empresas como Vale, Embraer, BRF, Minerva, Banco do Brasil, Petrobras e WEG. Dos mais de 300 empresários convidados, menos de 100 confirmaram presença.
A comitiva oficial inclui ministros como Alexandre Padilha, da Saúde; Carlos Fávaro, da Agricultura e Pecuária; Luciana Santos, da Ciência, Tecnologia e Inovação; Mauro Vieira, das Relações Exteriores. e Paulo Teixeira, do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar.