Como era esperado, as campanhas eleitorais para as eleições de 2026 seguem a todo vapor. Neste sábado (7) se encerraram as comemorações do aniversário de 46 anos do Partido dos Trabalhadores (PT), na Bahia, e se iniciou oficialmente a pré-campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que pode enfrentar resistência de parte do eleitorado.
De acordo com o último levantamento da Pesquisa Meio/Ideia, divulgado na última quarta-feira (4), Lula vem enfrentando uma redução da sua vantagem. Segundo a pesquisa de intenção de votos, caso as eleições ocorressem atualmente, Lula enfrentaria um empate técnico no segundo turno em uma eventual disputa contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), ou a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Porém, apesar dessa aproximação dos nomes da direita de Lula, há um fator que, ao final, pode atrapalhar o segmento: a sua divisão em torno de seus projetos.
As brigas que vêm acontecendo especialmente em torno da formação dos palanques regionais podem resvalar para o quadro nacional. “Em eleição presidencial, tempo perdido acaba saindo muito caro”, alerta ao Correio da Manhã o cientista político Elias Tavares.
Um exemplo nítido é a disputa que está acontece em Santa Catarina. Inicialmente, o governador do estado Jorginho Mello (PL), candidato à reeleição, tinha inicialmente firmado sua chapa com o deputado federal licenciado Carlos Chiodini (MDB) como seu vice e lançando como seus representantes para o Senado por Santa Catarina o senador Esperidião Amin (PP) e a deputada federal Caroline De Toni (PL). A equação, contudo, mudou quando o vereador do Rio de Janeiro, Carlos Bolsonaro (PL), decidiu que também iria concorrer ao Senado por Santa Catarina.
Na dança das cadeiras para englobar o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, Jorginho Mello rompeu com o MDB para ter como vice o prefeito de Joinville, Adriano Silva (Novo), e definiu que lançaria para o Senado Carlos Bolsonaro e Caroline de Toni, descartando Espiridião Amin. No entanto, na última terça-feira (3), por orientação do presidente do Partido Liberal Valdemar Costa Neto, o governador voltou atrás e descartou de Toni para firmar a candidatura de Espiridião Amin ao Senado. Segundo Valdemar, a medida visa reforçar a aliança do partido com o PP.
Por outro lado, a parlamentar, que conta com o apoio de Michelle Bolsonaro, se sentiu traída com a troca. A expectativa é que ela saia do partido e se filie a outra sigla para disputar o Senado.
“Se percebe que a disputa não é ideológica. É uma disputa por espaço, por protagonismo, e sobretudo por quem fica mais próximo do bolsonarismo. O Espiridião Amin quer ocupar esse lugar, a Carol também, e não há espaço para todo mundo dentro do mesmo guarda-chuva partidário. Isso acaba aumentando essa fragmentação e a troca de lideranças por campos eleitorais”, declarou Elias Tavares.
Piauí e DF
Outro exemplo de ramificação na direita envolve o senador Ciro Nogueira (PP-PI). Com medo de não ser reeleito senador, Nogueira procurou o presidente Lula para tentar firmar um acordo ao Senado pelo Piauí. As informações são da Folha de São Paulo. Nesse acordo, Lula se comprometeria a somente lançar como seu candidato ao Senado pelo Piauí o senador Marcelo Castro (MDB). A medida deixaria a vaga restante para a Casa Legislativa livre para Ciro Nogueira. Em troca, o PP se absteria de apoiar a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para a Presidência. Não se sabe se Lula aceitará o acordo.
Nas articulações internas para os representantes do Distrito Federal, a situação não é diferente. Como adiantado pelo Correio da Manhã, na capital federal há um embate na composição da chapa da vice-governadora Celina Leão (PP), que inicialmente era considerada a candidata favorita da disputa , com chances de vir a ser eleita sem muito esforço. O atual governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB) seria o candidato ao Senado na chapa. Mas foi atropelado pela intenção do PL de ter como candidatas Michelle Bolsonaro e a deputada federal Bia Kicis, o que deixaria Ibaneis, que agora ainda se vê desgastado com a crise da negociação entre o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB), sem vaga.
A reportagem ainda conversou com o cientista político Rócio Barreto, o qual reiterou que, apesar de todos os exemplos evidenciarem uma direita desunida, Santa Catarina se tornou um “exemplo clássico de que a direita pode perder uma vaga que seria dela, por excesso de ego”.
“Os palanques estaduais, sem ter um palanque unificado, presidenciáveis, ficam órfãos em estados-chave, governadores negociam com Lula por conveniência, a direita perde a narrativa nacional”, pontuou ao Correio da Manhã.
Eleições
Para a reportagem, ambos os cientistas políticos destacaram que, apesar da direita brasileira ser mais volumosa que a esquerda, ela está mais desorganizada, o que pode prejudicá-la.
“A esquerda tem um candidato claro, que é Lula, um campo político relativamente delimitado, sabemos os partidos que vão apoiá-lo [Lula], a estratégia é previsível, existe coordenação. Isso não significa facilidade eleitoral, mas significa organização, e organização nesse ponto pesa muito. Já a direita vive um problema de representatividade de comando. Seu principal líder, Jair Bolsonaro, está preso e fora do processo eleitoral, e não existe uma herança automática desse capital político. Isso abre uma disputa intensa por protagonismo dentro da direita. Não há um centro de gravidade claro, não há um nome que consiga unificar esse campo, até então”, destacou Elias Tavares.
Para Rócio Barreto, o peso dessas divergências pode ser baixo para a definição do primeiro turno presidencial, mas “para o Senado e nos estados é altíssimo”. E pode acabar decisivo no segundo turno.
“Se a direita chegar dividida ao segundo turno, com feridas abertas, traições recentes e lideranças ressentidas, ela entra em campo com mais voto, mas menos controle do jogo. Isso abre espaço para neutralidade de aliados que ficam de pender para o lado mais forte ou para o lado onde possam ter maiores compensações, apoios ‘envergonhados’, migração silenciosa de palanques”, ressaltou o cientista político.
“As brigas não destroem o capital eleitoral da direita, mas reduzem sua capacidade de convertê-la em vitória, especialmente no segundo turno”, ele ressaltou.
Não é vida fácil
Tavares ainda destaca que, do ponto de vista eleitoral, essa racha da direita favorece Lula a curto prazo. “Mas isso não quer dizer que ele terá uma vida fácil. Pelo contrário, o que as pesquisas mostram, é que qualquer nome da direita que chegue ao segundo turno vai enfrentar Lula com a mesma força. Flávio Bolsonaro tem sim um potencial eleitoral, teria ainda mais se a direita estivesse concentrada em seu nome como a grande aliança nacional, mas esse não é o cenário hoje”, ponderou o analista.
Ele ainda destacou que, a tendência é o processo eleitoral ser definido por um margem mínima, tal como em 2022, com “forte rejeição dos dois lados e um eleitorado desmobilizado”.