Por: Beatriz Matos

Caso Master: "influencers" na mira da PF

Influenciadores teriam sido pagos para desgastar o BC | Foto: Agência Brasil

A Polícia Federal abriu nesta quarta-feira (28) um novo inquérito para investigar influenciadores digitais que teriam sido pagos para defender o Banco Master e atacar o Banco Central nas redes sociais. A apuração foi autorizada pelo ministro Dias Toffoli, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), e se soma às investigações já em curso sobre suspeitas de fraude financeira envolvendo a instituição comandada por Daniel Vorcaro.

A nova linha de investigação mira a possibilidade de uma campanha digital orquestrada e remunerada, com o objetivo de descredibilizar o Banco Central (BC) após a decretação da liquidação extrajudicial do Master, ocorrida em novembro do ano passado.

Esquema

As suspeitas surgiram após influenciadores digitais ligados à direita relatarem terem sido abordados com propostas financeiras para gravar vídeos criticando a atuação do BC e questionando a decisão que levou ao fechamento do banco. Um dos primeiros a tornar o caso público foi o vereador de Erechim (RS) Rony Gabriel (PL), que afirmou ao jornal O Globo ter sido procurado por pessoas ligadas a Daniel Vorcaro.

Segundo o relato, a estratégia consistiria em difundir a narrativa de que a liquidação teria sido precipitada e tecnicamente questionável, colocando em xeque a credibilidade da autoridade monetária e criando instabilidade no debate público sobre o sistema financeiro.

A Polícia Federal avalia se a atuação dos influenciadores pode configurar obstrução de Justiça ou interferência na instrução do processo que investiga o caso Master. Os investigadores analisam se houve desinformação coordenada e paga, com potencial de afetar a condução das apurações e a confiança nas instituições.

Pela legislação brasileira, o crime de obstrução de Justiça ocorre quando alguém “impede ou, de qualquer forma, embaraça a investigação de infração penal que envolva organização criminosa”, com pena prevista de três a oito anos de reclusão, além de multa.

Antes de autorizar a abertura do novo inquérito, Toffoli recebeu da PF um relatório preliminar com análise de postagens, vídeos e conexões entre os conteúdos publicados. A partir desse material, o ministro entendeu haver indícios suficientes para aprofundar a investigação em uma frente específica voltada à atuação digital.

Fraude

O Banco Master segue no centro de um inquérito no STF que apura suspeitas de fraude financeira na tentativa de venda da instituição ao Banco de Brasília (BRB). O negócio foi barrado pelo Banco Central diante da suspeita de aquisição de carteiras de crédito sem lastro em ativos reais.

Até o momento, não há um valor oficial para o rombo, mas estimativas apontam prejuízos entre R$ 2,4 bilhões e R$ 4 bilhões. Executivos ligados ao banco, incluindo o próprio Daniel Vorcaro, já começaram a ser ouvidos pela Polícia Federal nesta semana, enquanto outros, tiveram seus depoimentos desmarcados após alegarem que não tiveram acesso aos documentos. A Polícia Federal vai marcar uma nova data.

Lewandowski

Com o avanço das investigações envolvendo o Banco Master, o nome do ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski passou a circular nos bastidores políticos e jurídicos, diante de sua atuação anterior como consultor do banco antes de assumir o comando da pasta responsável pela Polícia Federal.

O Planalto, no entanto, reconheceu que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tinha conhecimento de que o ex-ministro do Supremo prestava consultorias privadas ao banco antes de assumir o cargo.

Nesta quarta-feira (28), após café com jornalistas, a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, afirmou que não houve irregularidade. “Ele sabia que o ministro tinha contratos privados e o ministro informou que ia cumprir a lei e desvencilhar-se de todos os contratos que fez. Não há problema, irregularidade nenhuma, crime nenhum ele ter contrato de consultoria”. Ela acrescentou: “E quero aqui lembrar que toda essa apuração feita em relação ao Banco Master foi feita sob a gestão do ministro Lewandowski, que é a gestão da Polícia Federal.”

Em nota, o ex-ministro Lewandowski confirmou a prestação de serviços ao Master, mas não detalhou o período do contrato. Disse apenas que, ao assumir o ministério em janeiro de 2024, “retirou-se do escritório de advocacia e suspendeu seu registro na OAB”. O escritório, porém, continuou atuando sob comando da mulher e dos filhos do ex-ministro, mantendo a relação contratual com o banco.

Congresso

No Congresso Nacional, o caso alimenta a disputa pela instalação de comissões parlamentares de inquérito. Um dos pedidos, apresentado pelo senador Eduardo Girão (Novo-CE), já reúne 42 assinaturas no Senado, superando o mínimo exigido de 27. O governo atua nos bastidores para evitar o avanço das CPIs, sob o argumento de que as comissões podem se transformar em palanque da oposição em ano eleitoral.

Para a professora de Direito Empresarial do Ibmec Brasília, Juliana Garcia, o caso envolve riscos institucionais simultâneos. “Existem dois riscos simultâneos. O primeiro é a escalada, caso surjam fatos novos que ampliem o perímetro de apuração e tragam novas frentes investigativas, com reflexos imediatos no ambiente político e no debate público. O segundo é o arrasto, quando a complexidade e a multiplicação de diligências prolongam o caso sem marcos claros de evolução e decisão.”

Segundo ela, o maior perigo está na combinação desses fatores. “Do ponto de vista institucional, o cenário mais arriscado costuma ser a combinação entre duração prolongada e baixa previsibilidade, porque ela mantém a crise em modo permanente e ainda aumenta o desgaste das instituições.”

Já o advogado constitucionalista Rafael Durand avalia que o episódio expôs fissuras internas no Supremo. “O que assistimos é o transbordamento de um conflito profundo entre a necessidade de preservar a instituição e a conduta de ministros que transformaram seus gabinetes em zonas de opacidade. A crise revela que a Corte está dividida entre aqueles que buscam restaurar a liturgia e a impessoalidade e aqueles que operam na fronteira cinzenta das relações extrajudiciais. O ‘Caso Master’ expôs as vísceras de um sistema onde a escala de suspeição era calibrada pela conveniência política.”