Por: Gabriela Gallo

Brasil ainda avalia se entrará ou não em Conselho de Paz de Trump

Trump seria o presidente eterno do conselho | Foto: Daniel Torok/ Casa Branca

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (Republicano), lançou oficialmente, nesta quinta-feira (22), o “Conselho de Paz de Gaza”, durante sua participação no Fórum Econômico de Davos, na Suíça. De acordo com o governo norte-americano, apesar de estar sendo fundado para tratar do conflito entre Israel e a Faixa de Gaza, a atuação do conselho seria expandida para outros conflitos ao redor do mundo. A proposta foi desenvolvida pelo próprio Trump, que propõe a construção de arranha-céus e polos turísticos no território palestino. Além disso, Donald Trump será o presidente vitalício do grupo.

O presidente norte-americano enviou uma série de convites para outros países participarem do conselho. Dentre os convites, está o Brasil, que ainda não se manifestou sobre o caso. Dos 56 países convidados, 23 confirmaram que participarão do grupo. São eles: Armênia, Arábia Saudita, Argentina, Azerbaijão, Bahrein, Belarus, Bulgária, Catar, Cazaquistão, Egito, Emirados Árabes Unidos, Hungria, Indonésia, Israel, Jordânia, Kosovo, Marrocos, Mongólia, Paquistão, Paraguai, Turquia, Uzbequistão e Vietnã. Até o fechamento desta reportagem, França, Noruega, Eslovênia e Suécia recusaram o convite do presidente norte-americano.

No mesmo dia, ainda sobre o tema, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conversou por telefone com o presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, para discutirem sobre a atual situação em Gaza desde a assinatura do acordo de cessar-fogo entre os territórios palestinos e israelenses.

Adesão

O assessor-chefe da Assessoria Especial do presidente da República, Celso Amorim, disse que o Conselho proposto pro Trump é “confuso” e avalia que o Brasil deve rejeitar o convite.

“A carta [do Conselho, redigida pela Casa Branca] é confusa, porque começa a falar de uma coisa e depois vai alargando no documento anexo. Representa, na prática, uma revogação da ONU, sobretudo na área de paz e segurança. Essa parte, com certeza, eu não vejo como aceitar. Não dá para considerar uma reforma da PNU feita por um país”, disse Amorim em entrevista ao O Globo.

Apesar da manifestação do assessor especial da presidência, aguarda-se uma manifestação oficial do Palácio do Itamaraty.

Ao Correio da Manhã, o mestre em Relações Internacionais pelas Universidades de Groningen (Países Baixos) e Estrasburgo (França) Uriã Fancelli concorda que o Brasil não deve aceitar o convite. Ele considerou a composição do grupo como “problemática”, visto que ele está vinculado “não à presidência dos Estados Unidos, mas sim à figura do Donald Trump”. Portanto, mesmo quando ele deixar de ser o presidente dos EUA, “ele continuaria presidente desse conselho”.

Ele ainda destacou um “aspecto oportunista” na criação desse conselho. “Na posição de presidente dos Estados Unidos, o país teoricamente teria o poder e o peso necessário para promover uma reforma das instituições internacionais, como é o caso da ONU que, de fato, tem deixado desejar e não refletem mais o mundo como ele é hoje. Então ele [Trump] deixa de promover essas reformas para apresentar uma nova instituição, uma instituição que inclusive acaba beneficiando a ele próprio como pessoa física”, destacou o analista de Relações Internacionais.

Retaliação

A reportagem ainda conversou com o pesquisador da Universidade de Helsinque (Finlândia), o cientista político Kleber Carrilho o qual destacou do risco de retaliação dos EUA com uma possível recusa de Lula a participar do grupo, especialmente em ano de eleições presidenciais brasileiras. Ele reiterou, contudo, que é importante aguardar a manifestação do governo brasileiro sobre o convite.

“Se a gente pensar que o Brasil vai passar por um processo eleitoral neste ano, o risco que há de ter alguma discordância com o governo Trump é que haja alguma interferência no processo eleitoral. E eu acho que é isso também que está sendo é observado pelo pela equipe do Itamaraty e pelos negociadores que vão levar os dados para o presidente Lula tomar a decisão final”, ponderou o cientista político.