O Banco Central anunciou nesta quarta-feira (21) a liquidação extrajudicial da Will Financeira, controlada pelo Banco Master, dois meses após a quebra do banco líder do conglomerado. A decisão aciona um novo processo de ressarcimento pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e amplia o impacto financeiro do colapso, que já havia mobilizado o sistema de garantias no fim de 2025.
Classificado como de porte pequeno e enquadrado no segmento prudencial S3, o conglomerado Master detinha 0,57% do ativo total e 0,55% das captações do Sistema Financeiro Nacional. À época da liquidação do Banco Master, o Banco Central avaliou que a imposição do Regime Especial de Administração Temporária (RAET) ao Master Múltiplo poderia preservar o funcionamento da Will Financeira. A alternativa, no entanto, não se sustentou.
No dia 19 de janeiro, a fintech descumpriu a grade de pagamentos com o arranjo da Mastercard, o que levou ao bloqueio de sua participação no sistema e tornou inevitável a decretação da liquidação.
O agravamento do caso ocorre enquanto o Banco Central atua para preservar decisões anteriores relacionadas ao conglomerado. No mesmo dia do anúncio da liquidação da Will, o presidente da autoridade monetária, Gabriel Galípolo, reuniu-se com o vice-presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), Jorge Oliveira, para tratar do processo que analisa, na Corte de Contas, a tentativa de aquisição do Banco Master pelo BRB.
O encontro deve definir os próximos passos do processo. Nos bastidores, Galípolo tem articulado junto a ministros do TCU para garantir que as decisões do Banco Central sejam mantidas, mesmo diante do aprofundamento da crise com a quebra da Will.
Quebra em cadeia
Segundo o Banco Central, a liquidação decorre do comprometimento da situação econômico-financeira da Will, de sua insolvência e do vínculo de controle com o Banco Master, já em processo de liquidação extrajudicial. Com a decisão, ficam indisponíveis os bens dos controladores e dos ex-administradores da instituição, enquanto a autoridade monetária segue apurando responsabilidades que podem resultar em sanções administrativas e comunicações a outros órgãos.
Na véspera do decreto, a Mastercard já havia suspendido o uso dos cartões da fintech. Todos os cartões do Will Bank foram cancelados, encerrando de vez a operação da instituição digital.
FGC acionado
Com a liquidação, o FGC informou o acionamento do mecanismo de garantia em favor dos depositantes e investidores elegíveis. Com base no censo de novembro de 2025 informado pela própria Will, o valor estimado para pagamento é de aproximadamente R$ 6,3 bilhões, montante que pode variar após a consolidação da base de credores pelo liquidante nomeado pelo Banco Central.
O fundo esclarece que clientes que adquiriram produtos antes da compra da Will pelo Banco Master, em 21 de agosto de 2024, têm a garantia preservada. Já os valores aplicados após essa data serão consolidados por CPF ou CNPJ, respeitando o limite de R$ 250 mil por conglomerado. Quem já atingiu esse teto na liquidação do Banco Master, do Banco Master de Investimento ou do Letsbank não terá novos valores a receber. O excedente não coberto pelo FGC entra na massa falida, sem garantia de ressarcimento.
Embora não exista prazo legal para o início dos pagamentos, o histórico recente aponta que os desembolsos costumam começar entre 30 e 60 dias após a consolidação das informações.
Para o pró-reitor do Ibmec Belo Horizonte, Eduardo Coutinho, o funcionamento do FGC tende a ser eficiente, mas depende da qualidade das informações repassadas. “De maneira geral, o FGC é muito eficiente, muito rápido no reembolso dos recursos das instituições financeiras que tenham sido liquidadas pelo Banco Central. Os problemas surgem quando há restrição na envio dos dados de cadastro dos correntistas beneficiários da instituição liquidada para o fundo garantidor do crédito”, afirma.
Segundo ele, “no caso do Iubank, os problemas que tivemos aí com o Master, por exemplo, de interferência de natureza judicial e de ordem alguns públicos, exceto o próprio Banco Central, implicaram um atraso nesse pagamento”. Ainda assim, pondera: “entretanto, a gente não acredita que vai ocorrer novamente, já que se trata de uma instituição financeira do mesmo grupo econômico”.
Já o presidente da Abradeb, Raimundo Nonato, reforça que a maior parte dos clientes não deve perder recursos e orienta os consumidores a acompanhar os canais oficiais do FGC, lembrando que o pagamento não é automático e exige manifestação do credor.