Diante das incertezas de quem será o principal representante da direita para concorrer contra a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na corrida presidencial de 2026, diversos políticos vinculados à direita têm enfrentado desavenças e conflitos.
Após nova rodada da Pesquisa Genial Quaest apresentar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como um nome fortalecido para representar a direita na corrida presidencial de 2026, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), manifestou na última semana que o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) é o seu candidato. “Para mim o Flávio é um grande nome, já falei que ele é o meu candidato e vai ter o nosso apoio”, disse Tarcísio durante a inauguração de uma obra viária em Suzano, na Grande São Paulo.
Um dia antes da pesquisa Quaest, a primeira-dama de São Paulo, Cristiane Freitas, publicou em suas redes sociais que “o Brasil precisa de um novo CEO”. A publicação foi interpretada como uma manifestação favorável à candidatura do marido para a Presidência e, inclusive, foi curtida pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Questionado pela imprensa, Tarcísio justificou que a fala se referia a um “desabafo” pela gestão do presidente Lula.
“A mensagem era uma mensagem de desabafo contra o PT. O que estava dizendo era que a gente precisa de um gestor que pense no Brasil para resolver os problemas”, justificou o governador de São Paulo. “Não tem nada a ver com presidencial, estava dizendo só ‘PT não’. A direita vai estar unida em torno de um nome e meu nome é Flávio [Bolsonaro]”, ele reiterou.
Michelle
A interação de Michelle Bolsonaro com a publicação nas redes sociais gerou um desentendimento com duas figuras públicas. Ao interagir com publicações citando o nome de Tarcísio de Freitas, a ex-primeira-dama foi alvo de críticas do jornalista e blogueiro bolsonarista Allan dos Santos.
“A mulher de Tarcísio deixou escapar, ‘sem querer’, que o plano dela e do marido é a faixa presidencial. Sabe quem curtiu o comentário? A mesma pessoa que publicou o vídeo nos Stories do Instagram [Michelle]. Quando apontei isso, chamaram-me de tudo que é pérfido. Sempre que alguém tenta levar luz a quem está na caverna, os que preferem a escuridão se voltam contra quem aponta a claridade”, escreveu Allan dos Santos em suas redes sociais.
Dias depois da crítica do blogueiro, a ex-primeira-dama publicou uma extensa resposta criticando o posicionamento do fundador do canal “Terça Livre”, inclusive fazendo um trocadilho com seu nome afirmando que, ao invés de “dos Santos” ele poderia ser “dos demônios”.
“Esse tal de Allan fez acusações levianas e injustas contra mim, servindo de ventríloquo de alguém que está perto dele, totalmente interessado em atacar mulheres ou qualquer um que possa ser um obstáculo aos seus espúrios interesses umbilicais”, escreveu Michelle.
“Esse tal de Allan não sabe o que eu e o meu marido conversamos, ignora os nossos planos de vida e tampouco me conhece, mas se apressa em me julgar e a outras pessoas como se seus achismos fossem verdade. Eu estou no PL Mulher e viajo a pedido do meu marido para manter o legado dele vivo por onde passo; para denunciar o que fazem contra ele e para manter o povo com esperança. Tudo a pedido dele!”, ela reiterou.
Indiretamente, Michelle parecia estar respondendo a seu enteado, o filho mais velho de Bolsonaro, Flávio. Porque, quando ela compartilhou o vídeo de Tarcísio, Flávio respondeu que não era ele quem “rodava o Brasil” tentando viabilizar sua candidatura. E Michelle ainda disse que Alan dos Santos era “ventríloquo” de alguém, sem mencionar a quem se referia.
“Eu nunca costurei, nunca procurei, não rodei o Brasil atrás disso, não corri atrás de ser o pré-candidato”, disse Flávio.
Michelle mesmo deixou claro o golpe, quando justificou as viagens que faz pelo PL Mulher.
Damares
No meio conservador, Michelle tem uma grande amiga e aliada: a senadora Damares Alves (Republicanos-DF). O desentendimento entre figuras políticas da direita também tem se estendido para o segmento religioso. Como adiantara o Correio da Manhã, a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e o pastor Silas Malafaia trocaram farpas após a parlamentar informar em uma entrevista que há igrejas evangélicas e líderes religiosos que estão sendo investigados pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que apura os desvios ilegais de recursos de aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Após as falas, Malafaia disse que, caso ela não apresentasse os “nomes dos grandes líderes evangélicos e das grandes igrejas que estão envolvidos na falcatrua da roubalheira dos aposentados do INSS”, ela seria uma “leviana linguaruda”. Em resposta, Damares, uma das principais articuladoras para a instalação da CPMI do INSS, divulgou as igrejas e líderes religiosos conforme pedira Malafaia.
Na lista divulgada estão os pedidos de quebra de sigilo das igrejas: Adoração Church, Igreja Assembleia de Deus Ministério do Renovo, Ministério Deus é Fiel Church (SeteChurch) e a Igreja Evangélica Campo de Anatote. Além das igrejas, a comissão também convidou diversos líderes religiosos para prestar depoimento na CPMI. Foram convidados: André Fernandes, Cesar Belucci do Nascimento, Fabiano Campos Zettel e Péricles Albino Gonçalves. Já o líder religioso André Machado Valadão foi convocado para prestar depoimentos aos membros da comissão mista.
Contudo, mesmo com a divulgação dos nomes, o pastor Silas Malafaia escreveu, nesta sexta-feira (16), respondendo que os nomes denunciados não eram amplamente conhecidos, minimizando as informações divulgadas pela senadora.
“Senadora Damares, não seja cínica e nem mentirosa. A senhora fez uma denúncia no SBT dizendo que grandes igrejas evangélicas estavam envolvidas na roubalheira do INSS sem citar o nome de nenhuma. Até agora não citou um nome de uma grande igreja e nem quem fez lobby para a senhora ficar calada. O desafio continua de pé! Quais são as grandes igrejas? Só citou pequenas igrejas sem relevância, em documentos expostos anteriormente. A senhora, além de precisar orar, precisa se converter para deixar a mentira e falar a verdade”, acusou Malafaia.
Dificuldades
Ao Correio da Manhã, o professor de políticas públicas do Ibmec Brasília Eduardo Galvão avaliou que os episódios recentes envolvendo essas figuras “expõem algo maior do que desentendimentos pontuais”.
“Esses episódios revelam um problema recorrente da direita brasileira: a dificuldade de coordenar liderança, discurso e estratégia em momentos decisivos”, reiterou o professor.
“Do ponto de vista eleitoral, brigas públicas quase sempre prejudicam a performance do campo político que as protagoniza. Elas fragmentam o eleitorado, confundem aliados, inibem doadores e deslocam o debate do confronto de projetos para disputas pessoais. Em vez de ampliar base, a direita passa a gastar energia administrando ruído interno, enquanto o adversário observa”, completou Galvão.
Na mesma linha, o cientista político Rócio Barreto destacou para a reportagem como desentendimentos desse nível geram atritos que fragilizam a direita.
“Em ano eleitoral os conflitos públicos entre figuras relevantes fragilizam a imagem de unidade e passam ao eleitor a sensação de improviso e disputa por protagonismo, as pessoas brigando para serem os candidatos. Quando lideranças gastam sua energia em disputas internas, deixam de pautar o debate nacional com propostas, críticas estruturadas ao governo e uma agenda clara para o país. Tudo isso enfraquece a capacidade da direita de se apresentar como uma alternativa sólida de poder. E isso além de enfraquecer toda possibilidade, cria vantagem aos opositores que aproveitam e já usam o grupo desorganizado como uma narrativa para o debate nacional”, disse Rócio para o Correio da Manhã.
Contudo, apesar de concordar que as brigas entre essas lideranças enfraquecem a direita, o analista político da BMJ Consultores Associados Érico Oyama destaca que isso não necessariamente implica em um fortalecimento na candidatura a reeleição de Lula. “Não se pode afirmar um fortalecimento de Lula porque, se por um lado Jair Bolsonaro contava com uma parcela fiel a ele nas urnas de forma irrestrita, por outro lado tanto Flávio como Tarcísio de Freitas têm potencial de atrair votos da direita moderada”, ponderou o analista.
Questionado pelo Correio, Oyama destaca que a tendência é que a união da direita de fato se consolide quando forem oficialmente formalizadas as candidaturas. “Enquanto houver espaço para negociações e desistências os atores políticos irão pregar pela cautela. Seja qual for o candidato da direita, nenhum deles terá a mesma força de coesão de Jair Bolsonaro. Para além de questões políticas, há um elemento importante que dificulta a união da direita, especialmente no PL, que é a falta de alinhamento e bom relacionamento entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e os filhos do ex-presidente”, ele avaliou.