O conflito entre os Estados Unidos e a Venezuela, desde que os norte americanos invadiram o país latino-americano e sequestraram o então presidente venezuelano Nicolás Maduro, tem gerado uma série de incertezas e especulações sobre os impactos no Brasil. Mas, para além dos impactos diretos, começam as especulações acerca de como o episódio pode repercurtir nas eleições deste ano.
O Correio da Manhã conversou com três analistas políticos sobre o questionamento e todos apontaram que ainda é cedo para se ter certeza de possível resultado eleitoral e, portanto, é necessário atenção para ver como só tema se alastrará até outubro de 2026.
Narrativa
Para a reportagem, o coordenador do curso de Relações Internacionais do Ibmec BH Adriano Gianturco concorda que, caso as eleições brasileiras ocorressem no atual cenário, o tema seria uma pauta em que tanto a direta quanto a esquerda “puxariam cada um com sua interpretação e a sua narrativa”.
Para Gianturco, a prisão de Maduro “fortalece mais a esquerda, que reclama da violação da soberania, de uma invasão ao território de forma ilegal e da quebra do direito internacional”.
Na mesma linha, o cientista político e coordenador de Análise Política na BMJ Consultores Associados Lucas Fernandes completou que o pano de fundo da situação apresenta um cenário mais complexo “que diz respeito à segurança e soberania nacional”.
“Se os Estados Unidos fazem isso com um país que é nosso vizinho amazônico, tem uma região de fronteira com o Brasil muito extensa, numa área de difícil acesso, onde não é tão fácil você colocar um contingente militar muito forte, o que impediria os Estados Unidos de fazerem a mesma coisa com o Brasil? Então, esse aspecto da soberania pode ser bastante explorado e quem se posicionar fortemente a favor do [presidente dos EUA Donald] Trump, pode se prejudicar”, avaliou Fernandes para o Correio da Manhã.
Contudo, o cientista político pondera que, caso a principal discussão referente à Venezuela venha a ser “o combate à ditadura Maduro, candidatos de esquerda tendem a ficar mais prejudicados”.
O professor de relações internacionais Adriano Gianturco ainda reiterou que a narrativa escolhida vai depender da atuação do governo da vice-presidente venezuelana (agora presidente interina) Delcy Rodríguez. “Se essa escalada autoritária [na Venezuela] continuar, isso vai fortalecer a direita. Por outro lado, se ela for moderada, as coisas ainda podem mudar”, ele disse.
Eleitor
O cientista político Elias Tavares ponderou ao Correio da Manhã que o conflito representa maior influência “no plano da narrativa do que no comportamento direto do voto”.
“Não é um tema que, isoladamente, vá decidir a eleição, mas ele ajuda a organizar discursos, identidades políticas e estratégias de campanha, especialmente em um ambiente já polarizado”, afirmou o analista. “Isso não se converte automaticamente em ganho de votos”, reforçou.
“O conflito acaba reforçando enquadramentos clássicos: soberania nacional, intervenção estrangeira, autoritarismo e alinhamento internacional. Esses elementos mobilizam eleitorados mais politizados e formadores de opinião, mas não substituem temas centrais para o eleitor médio, como economia, emprego, inflação e segurança pública”, reforçou Tavares.