A Polícia Federal (PF) informou ao Supremo Tribunal Federal (STF) que encontrou menções a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, em três diferentes conjuntos de informações analisadas no curso da investigação que apura descontos indevidos realizados por associações em benefícios previdenciários pagos pelo INSS.
Segundo os investigadores, as referências aparecem em conversas de terceiros, sem que haja, até o momento, indícios de participação direta do filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nos fatos sob apuração.
A representação foi encaminhada ao ministro do STF, André Mendonça, e ressalta que Lulinha não é investigado formalmente. Ainda assim, a PF apura se ele poderia ter atuado como “sócio oculto” do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, hipótese que, segundo o próprio relatório, não foi comprovada.
A PF destaca que o nome de Lulinha surge em diálogos de terceiros analisados durante a investigação, mas afirma não ter encontrado elementos materiais que indiquem sua atuação no esquema de descontos associativos irregulares, prática que consistia em cobranças não autorizadas aplicadas mensalmente sobre aposentadorias.
Em dezembro, durante uma cerimônia no Palácio do Planalto, o presidente Lula defendeu o avanço das investigações sobre o esquema de descontos indevidos em benefícios previdenciários do INSS e afirmou que todos os envolvidos devem ser responsabilizados. Na ocasião, Lula disse que “quem tiver envolvido vai pagar o preço” e ressaltou que não haveria exceções.
“É importante que haja seriedade para que a gente possa investigar todas as pessoas que estão envolvidas. Ninguém ficará livre. Se tiver filho meu metido nisso, ele será investigado”, afirmou.
Reação da defesa
O advogado Marco Aurélio de Carvalho, que já atuou anteriormente na defesa de Lulinha, afirmou que o filho do presidente “não tem qualquer envolvimento com as investigações” e classificou as citações como “ilações e pirotecnia”. Segundo ele, o próprio relatório da Polícia Federal deixa claro que Lulinha não é alvo, nem direta nem indiretamente, da apuração.
“O que veio a público é resultado de um vazamento criminoso, que precisa ser rigorosamente apurado”, disse o advogado, acrescentando que pretende tratar do assunto com o diretor-geral da Polícia Federal, a quem elogiou, classificando-o como uma pessoa séria, íntegra e com espírito público. Na avaliação da defesa, o episódio remete a práticas do período da Lava Jato, com vazamentos seletivos e objetivos políticos e eleitorais.
O advogado de Lulinha também afirmou que não existe, nem nunca existiu, qualquer sociedade ou patrimônio relacionado ao empresário investigado. Segundo ele, Lulinha não constituiu advogado neste caso justamente por não ser investigado e não pretende adotar nenhuma medida jurídica no momento.
Movimento político
Mesmo sem investigação formal, o nome de Lulinha é centro do debate político na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do INSS. O relator da comissão, deputado Alfredo Gaspar (União-AL), protocolou em 19 de dezembro um novo requerimento pedindo a convocação do filho do presidente para prestar esclarecimentos, além da empresária Roberta Luchsinger, citada nas investigações.
No início do mês, pedido semelhante havia sido rejeitado após articulação da base governista. No requerimento, Alfredo sustenta que Lulinha seria “pessoa de interesse” no contexto das apurações sobre descontos fraudulentos em benefícios previdenciários — argumento que é rechaçado pela defesa, que classifica a iniciativa como “mais uma pirotecnia”.
Pagamentos suspeitos
A Polícia Federal investiga cinco transferências de R$ 300 mil feitas por Antônio Carlos Camilo Antunes a uma empresa ligada a Roberta Luchsinger. Em mensagens analisadas, o empresário afirma que o destinatário final dos valores seria “o filho do rapaz”, sem especificar a quem se referia. A defesa de Lulinha nega qualquer vínculo e afirma que a hipótese não encontra respaldo nos autos.
O presidente da CPMI, senador Carlos Viana (Podemos/MG), informou que o relator deve apresentar um relatório preliminar no início de 2026. Em fevereiro, o colegiado deve se reunir para avaliar o documento parcial e decidir sobre novas oitivas.
O senador Carlos Viana também anunciou que apresentará requerimento para prorrogar por mais dois meses o funcionamento da comissão. A oposição já reuniu assinaturas suficientes para estender os trabalhos até 26 de julho. Instalada em agosto, a CPMI realizou 28 reuniões, ouviu 26 testemunhas e analisou 4.800 documentos. Entre os dados preliminares estão 48 quebras de sigilo aprovadas, 108 empresas suspeitas identificadas e mais de R$ 1,2 bilhão em movimentações consideradas incompatíveis, além de descontos mensais de dezenas de milhões de reais em benefícios previdenciários.