Em meio às repercussões entre o conflito entre a Venezuela e os Estados Unidos, o embaixador do Brasil junto ao Conselho Permanente da Organização dos Estados Americanos (OEA), Benoni Belli, criticou, nesta terça-feira (6), a invasão dos Estados Unidos, alegando que a situação “ultrapassa uma linha inaceitável”.
“Não podemos aceitar o argumento de que os fins justificam os meios. Esse raciocínio carece de legitimidade e abre a possibilidade de conferir aos mais fortes o direito de definir o que é justo ou injusto, o que é certo ou errado, de ignorar as soberanias nacionais ditando as decisões que devem tomar os mais fracos”, ele declarou em reunião extraordinária da OEA.
Fluxo migratório
Desde que os Estados Unidos invadiram a Venezuela e sequestraram o então presidente Nicolás Maduro, acusado pelos americanos por supostamente liderar uma organização narcoterrorista, seguem as repercussões das consequências do conflito no Brasil. Ao Correio da Manhã, a advogada especialista em direito internacional Hanna Gomes cita que, dentre as consequências no Brasil em relação ao conflito venezuelano com os Estados Unidos, está o aumento do fluxo migratório que pode impactar os sistemas de benefícios sociais e de saúde no norte do país.
“Já como consequência econômica e geopolítica, a instabilidade na região pode afetar o preço do petróleo no mercado internacional, impactando a política de preços da Petrobras e, consequentemente, a inflação (combustíveis e alimentos) no Brasil”, ela reiterou.
A reportagem também conversou com a Mestre em Direito Internacional e Relações Exteriores e Internacionais pelo Instituto Europeu Campus Stellae (Espanha) Elisa de Sousa Ribeiro, que também reiterou a necessidade do controle e proteção da fronteira contra o crime organizado. “Em cenário de colapso estatal num país vizinho, poderia ser utilizada a área de fronteira para dar vazão aos produtos ilícitos e o tráfico de drogas, contrabando de armas ou de documentos falsos. Então, existe o risco de que facções transnacionais cruzem a fronteira da Venezuela com o Brasil”, declarou a advogada internacionalista.
Diplomacia
Na mesma linha da participação brasileira na OEA, Hanna Gomes avalia que, no atual cenário, a tendência é que a diplomacia do Brasil mantenha sua tradição de neutralidade, porém atuando sob a doutrina de “dissuadir e proteger”.
“Ou seja, empreender esforços diplomáticos em conjunto e em cooperação com outros países aliados para demover o presidente Trump da estratégia de avançar sobre a Venezuela e sobre a América Latina”, ela explicou.
“O Brasil não quer os EUA operando livremente no seu entorno estratégico, mas também não pode apoiar um regime em colapso. O governo deve agir como o mediador necessário, lembrando ao mundo que a estabilidade da América do Sul é uma responsabilidade nossa, e não de potências que estão a milhares de quilômetros de distância”, completou a advogada.
A internacionalista Elisa Ribeiro destacou que, historicamente, o Brasil é um país que se posiciona contrário a invasão de países estrangeiros, além de reconhecer a soberania dos países e a não intervenção. Contudo, ela ponderou que a falta de consenso entre países reforça a dificuldade de se tomar uma decisão sobre o fato.
“Temos a necessidade de articulação entre os próprios países da região. Nós conseguimos ver que não foi logrado um comunicado conjunto da Celac [Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos] e os países do Mercosul também tem posicionamentos muito diferentes com relação ao que aconteceu. Então, nós temos uma série de fóruns internacionais em que não se consegue lograr uma posição comum. E isso para as relações internacionais na região é um grande dificultador”, alertou Ribeiro.