Por: Beatriz Matos

Captura de Maduro lança incertezas sobre eleições

Maduro sendo conduzido pelos soldados norte-americanos | Foto: RS/Fotos Públicas

A captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos, no último fim de semana, inaugurou uma nova fase de instabilidade política na América Latina e lançou dúvidas sobre as condições de realização das eleições previstas para este ano na Venezuela.

O episódio reacendeu temores de interferência externa no processo eleitoral e passou a ser acompanhado com cautela por governos da região, entre eles o Brasil, que tenta calibrar o discurso diplomático para defender a soberania regional sem ser associado a uma defesa do regime chavista.

Na manhã de sábado (3), poucas horas após o anúncio da captura, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conversou por telefone com a vice-presidente venezuelana Delcy Rodríguez, que assumiu interinamente o comando do país por decisão do Tribunal Supremo de Justiça.

Segundo o Palácio do Planalto, Lula buscou apenas “tomar pé” da situação e não tratou de sucessão política. Segundo fontes, um novo telefonema entre os dois deve ocorrer até a manhã desta terça-feira (6), dentro da estratégia brasileira de acompanhar de perto a evolução do cenário e evitar uma escalada diplomática.

Pressão externa

Para a diplomacia brasileira, o argumento apresentado por Washington — o combate ao narcotráfico — funcionou como pretexto para a ação militar que resultou na prisão de Maduro.

A avaliação predominante no Itamaraty é de que o foco real da ofensiva esteja ligado ao petróleo venezuelano e à consolidação de uma nova estratégia de segurança dos Estados Unidos para a região, anunciada no início de dezembro pelo governo de Donald Trump.

O plano busca reafirmar a liderança norte-americana no hemisfério ocidental, em um cenário de disputa com China e Rússia por influência na América Latina.

Nesse contexto, a Venezuela passa a ser vista como um teste prático dessa política. Ministros e assessores próximos a Lula relatam preocupação com o grau de influência que os Estados Unidos podem exercer não apenas sobre o futuro político venezuelano, mas também sobre o ambiente eleitoral regional. Apesar das críticas à ação militar, o Planalto aposta na “boa química” entre Lula e Trump para reduzir tensões e evitar que a defesa da soberania seja interpretada como alinhamento automático a Caracas.

Articulação regional

O Itamaraty intensificou contatos com países da região. O chanceler Mauro Vieira conversou com representantes do Chile, Uruguai, México e Colômbia, em um esforço de coordenação diplomática. O clima se deteriorou após Trump associar o presidente colombiano Gustavo Petro ao narcotráfico e sugerir que uma operação militar contra a Colômbia “soaria bem”. Petro reagiu publicamente, acusando o presidente norte-americano de calúnia e afirmando que não aceitará ameaças externas.

Encabeçada pelo Brasil, uma declaração conjunta assinada por cinco países latino-americanos e pela Espanha expressou “profunda preocupação” com o que classificam como tentativas de controle governamental por parte dos Estados Unidos. O texto condena o uso da força, critica a violação da soberania territorial venezuelana e alerta para um precedente considerado “extremamente perigoso” para a estabilidade regional. Os signatários defendem que a crise seja resolvida por meios pacíficos e pedem a atuação do secretário-geral da ONU, António Guterres.

Vazio institucional

No plano interno, o Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela determinou que Delcy Rodríguez assuma interinamente o governo, mas decidiu que a prisão de Maduro não configura ausência absoluta nem falta temporária prevista na Constituição. Com isso, não foi estabelecido prazo para a convocação de novas eleições, ampliando a incerteza sobre o calendário eleitoral de 2026. Paralelamente, Trump afirmou estudar a formação de um grupo com integrantes do alto escalão americano para administrar a Venezuela durante um período de transição, declaração vista no Itamaraty como sinal de ingerência direta.

Maduro declarou-se inocente em audiência em Nova York, alegando ser “prisioneiro de guerra” do governo Trump. Acusado de narcoterrorismo, tráfico de cocaína e posse de armas, ele terá nova audiência marcada para março. Na avaliação de Eduardo Galvão, professor de Políticas Públicas do Ibmec e especialista em risco político, o maior perigo não está apenas no ataque em si, mas no “dia seguinte”: o vácuo de poder, a reorganização de forças internas e a disputa por controle institucional podem criar um ambiente ainda mais instável, com impactos diretos sobre a legitimidade e a segurança das eleições.

No governo brasileiro, a leitura é que a crise venezuelana não pode se consolidar como precedente de interferência externa aberta em processos políticos nacionais. Segundo interlocutores do Planalto e do Itamaraty, a defesa da soberania, do direito internacional e de eleições sem tutela estrangeira será o eixo do discurso brasileiro.

Disputa Eleitoral

A advogada internacionalista Elisa de Sousa Ribeiro, avalia que a prisão de Nicolás Maduro impõe um novo grau de incerteza ao processo eleitoral venezuelano, ao interromper o arranjo político que sustentava o poder. “A captura de Maduro altera de forma substantiva o contexto institucional e político das eleições venezuelanas. A saída forçada do chefe do Executivo rompe a continuidade do arranjo de poder que controlava o processo eleitoral, o que pode impactar diretamente no calendário, na organização e nas condições do pleito”, afirma. Segundo ela, “a elevada atenção internacional tende a aumentar a pressão por um processo eleitoral mais transparente, com maior presença de observadores internacionais e maior escrutínio externo”. A especialista também alerta que “qualquer grau de intervenção estrangeira em um Estado soberano historicamente aumenta os riscos de instabilidade política e fragilização institucional”.

Já o coordenador do curso de Relações Internacionais do Ibmec BH, Adriano Gianturco, avalia que a principal incerteza está no calendário eleitoral. “Existe um cenário no qual podem se manter as eleições em outubro e outro cenário em que pode haver eleições antecipadas”, diz. Para ele, “esperar até outubro é muito longe, são dez meses, e de lá até lá pode ter conflitos, caos e violências”. Gianturco afirma que uma antecipação poderia reduzir tensões internas e impactos regionais: “as eleições antecipadas acalmariam muitos ânimos e entregariam o poder para um governo legitimamente eleito mais rapidamente”. Caso contrário, alerta, grupos fiéis ao chavismo podem tentar desestabilizar o processo. “Podem provocar ruídos, hostilidade e até casos de violência para tentar boicotar as eleições”, afirma.

Captura de Maduro lança incertezas sobre eleições

Governo brasileiro acompanha crise com cautela diante do risco de ingerência dos EUA e de um vácuo de poder na Venezuela



A captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos, no último fim de semana, inaugurou uma nova fase de instabilidade política na América Latina e lançou dúvidas sobre as condições de realização das eleições previstas para este ano na Venezuela.



O episódio reacendeu temores de interferência externa no processo eleitoral e passou a ser acompanhado com cautela por governos da região, entre eles o Brasil, que tenta calibrar o discurso diplomático para defender a soberania regional sem ser associado a uma defesa do regime chavista.



Na manhã de sábado (3), poucas horas após o anúncio da captura, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conversou por telefone com a vice-presidente venezuelana Delcy Rodríguez, que assumiu interinamente o comando do país por decisão do Tribunal Supremo de Justiça.



Segundo o Palácio do Planalto, Lula buscou apenas “tomar pé” da situação e não tratou de sucessão política. Segundo fontes, um novo telefonema entre os dois deve ocorrer até a manhã desta terça-feira (6), dentro da estratégia brasileira de acompanhar de perto a evolução do cenário e evitar uma escalada diplomática.



Pressão externa



Para a diplomacia brasileira, o argumento apresentado por Washington — o combate ao narcotráfico — funcionou como pretexto para a ação militar que resultou na prisão de Maduro.



A avaliação predominante no Itamaraty é de que o foco real da ofensiva esteja ligado ao petróleo venezuelano e à consolidação de uma nova estratégia de segurança dos Estados Unidos para a região, anunciada no início de dezembro pelo governo de Donald Trump.



O plano busca reafirmar a liderança norte-americana no hemisfério ocidental, em um cenário de disputa com China e Rússia por influência na América Latina.



Nesse contexto, a Venezuela passa a ser vista como um teste prático dessa política. Ministros e assessores próximos a Lula relatam preocupação com o grau de influência que os Estados Unidos podem exercer não apenas sobre o futuro político venezuelano, mas também sobre o ambiente eleitoral regional. Apesar das críticas à ação militar, o Planalto aposta na “boa química” entre Lula e Trump para reduzir tensões e evitar que a defesa da soberania seja interpretada como alinhamento automático a Caracas.



Articulação regional



O Itamaraty intensificou contatos com países da região. O chanceler Mauro Vieira conversou com representantes do Chile, Uruguai, México e Colômbia, em um esforço de coordenação diplomática. O clima se deteriorou após Trump associar o presidente colombiano Gustavo Petro ao narcotráfico e sugerir que uma operação militar contra a Colômbia “soaria bem”. Petro reagiu publicamente, acusando o presidente norte-americano de calúnia e afirmando que não aceitará ameaças externas.



Encabeçada pelo Brasil, uma declaração conjunta assinada por cinco países latino-americanos e pela Espanha expressou “profunda preocupação” com o que classificam como tentativas de controle governamental por parte dos Estados Unidos. O texto condena o uso da força, critica a violação da soberania territorial venezuelana e alerta para um precedente considerado “extremamente perigoso” para a estabilidade regional. Os signatários defendem que a crise seja resolvida por meios pacíficos e pedem a atuação do secretário-geral da ONU, António Guterres.



Vazio institucional



No plano interno, o Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela determinou que Delcy Rodríguez assuma interinamente o governo, mas decidiu que a prisão de Maduro não configura ausência absoluta nem falta temporária prevista na Constituição. Com isso, não foi estabelecido prazo para a convocação de novas eleições, ampliando a incerteza sobre o calendário eleitoral de 2026. Paralelamente, Trump afirmou estudar a formação de um grupo com integrantes do alto escalão americano para administrar a Venezuela durante um período de transição, declaração vista no Itamaraty como sinal de ingerência direta.



Maduro declarou-se inocente em audiência em Nova York, alegando ser “prisioneiro de guerra” do governo Trump. Acusado de narcoterrorismo, tráfico de cocaína e posse de armas, ele terá nova audiência marcada para março. Na avaliação de Eduardo Galvão, professor de Políticas Públicas do Ibmec e especialista em risco político, o maior perigo não está apenas no ataque em si, mas no “dia seguinte”: o vácuo de poder, a reorganização de forças internas e a disputa por controle institucional podem criar um ambiente ainda mais instável, com impactos diretos sobre a legitimidade e a segurança das eleições.



No governo brasileiro, a leitura é que a crise venezuelana não pode se consolidar como precedente de interferência externa aberta em processos políticos nacionais. Segundo interlocutores do Planalto e do Itamaraty, a defesa da soberania, do direito internacional e de eleições sem tutela estrangeira será o eixo do discurso brasileiro.



Disputa Eleitoral



A advogada internacionalista Elisa de Sousa Ribeiro, avalia que a prisão de Nicolás Maduro impõe um novo grau de incerteza ao processo eleitoral venezuelano, ao interromper o arranjo político que sustentava o poder. “A captura de Maduro altera de forma substantiva o contexto institucional e político das eleições venezuelanas. A saída forçada do chefe do Executivo rompe a continuidade do arranjo de poder que controlava o processo eleitoral, o que pode impactar diretamente no calendário, na organização e nas condições do pleito”, afirma. Segundo ela, “a elevada atenção internacional tende a aumentar a pressão por um processo eleitoral mais transparente, com maior presença de observadores internacionais e maior escrutínio externo”. A especialista também alerta que “qualquer grau de intervenção estrangeira em um Estado soberano historicamente aumenta os riscos de instabilidade política e fragilização institucional”.



Já o coordenador do curso de Relações Internacionais do Ibmec BH, Adriano Gianturco, avalia que a principal incerteza está no calendário eleitoral. “Existe um cenário no qual podem se manter as eleições em outubro e outro cenário em que pode haver eleições antecipadas”, diz. Para ele, “esperar até outubro é muito longe, são dez meses, e de lá até lá pode ter conflitos, caos e violências”. Gianturco afirma que uma antecipação poderia reduzir tensões internas e impactos regionais: “as eleições antecipadas acalmariam muitos ânimos e entregariam o poder para um governo legitimamente eleito mais rapidamente”. Caso contrário, alerta, grupos fiéis ao chavismo podem tentar desestabilizar o processo. “Podem provocar ruídos, hostilidade e até casos de violência para tentar boicotar as eleições”, afirma.