Por: Rudolfo Lago -BSB

2026: o ano em que viveremos em dúvida

Para Ricardo de João Braga, eventuais erros e acertos de Lula estarão no centro do ano | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Dúvida sobre o seu futuro. Esse deverá ser o principal sentimento que marcará o ano de 2026 no Brasil.

Um ano que já no seu terceiro dia vê a Venezuela, seu país vizinho ao Norte ser invadida pelos Estados Unidos com a prisão de seu presidente, o ditador Nicolás Maduro. O que isso deverá significar para a autonomia dos demais povos da América Latina, para as suas economias e suas situações políticas é, portanto, a primeira grande dúvida do ano.

Um ano com eleições para presidente da República, govenador, deputados e senadores. Que conformação política sairá das urnas é outra dúvida. Que marcará como será o país em seguida.

O Correio da Manhã convidou políticos de variadas posições e analistas para responderem sobre suas expectativas para o ano que se inicia. Há um ponto comum a todas as avaliações. 2026 deverá ser um ano difícil.

Veja abaixo o que eles pensam:

André Cesar, cientista político
“Será um ano difícil, com o Congresso trabalhando a meio termo com o olho nas eleições. Muito do que acontecerá nessas eleições poderá depender dessa boa vontade – ou não – do Congresso. Quem acha que o Lula desde já está reeleito, se engana. O governo terá que trabalhar muito.
A entrada do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como candidato à Presidência embaralhou o jogo eleitoral. Não creio que seja uma candidatura que se sustente até o final, mas ela estabeleceu o caos. Aumentou a imprevisibilidade.
A polarização mantém um esgarçamento político muito ruim para o país. Vislumbro uma campanha baixa, difícil. Finalmente, há essa incógnita do Banco Master e de seus desdobramentos. Poderemos ter um janeiro de grandes novidades. E elas podem não ser boas para a democracia”.

Ângelo Coronel, senador (PSD-BA)
“Não vislumbro votação de pautas complexas nesse ano eleitoral. O Brasil está muito dividido e será uma eleição vitoriosa de quem errar menos.
Detalhes positivos serão cruciais nesse pleito. Candidato pode dormir vitorioso e acordar chorando”.

Benedito Tadeu Cesar, cientista político
“O ano será desafiador. O cenário global aponta para o enfraquecimento da democracia como valor e prática, com o agravamento das crises econômica e política e poucas perspectivas de avanços no enfrentamento do desequilíbrio climático.
Embora existam alertas sobre a urgência de respostas sustentáveis e democráticas, predominam o sentimento de impotência e a sensação de fatalidade, abrindo espaço ao autoritarismo e à xenofobia.
No Brasil, apesar dos avanços econômicos, sociais e do protagonismo internacional dos últimos anos, o país enfrentará eleições federais intensamente polarizadas e possivelmente radicalizadas, enquanto nos estados e no Congresso Nacional tende a crescer a força da direita e da extrema-direita. Diante desse quadro, torna-se essencial fortalecer o diálogo democrático e a coesão social, para conter os riscos de retrocessos institucionais”.

Celina Leão, governadora em exercício do Distrito Federal (PP)
“Para 2026, a expectativa é aprofundar políticas públicas estruturantes em áreas sensíveis como segurança, saúde, mobilidade urbana e educação, com foco em gestão, continuidade e resultados mensuráveis.
O Distrito Federal tem demonstrado que planejamento, integração e uso estratégico de dados produzem respostas mais eficientes, seja no fortalecimento das forças de segurança, na ampliação da capacidade de atendimento em saúde ou no avanço da rede pública de ensino.
Nesse contexto, a inovação e a tecnologia passam a ocupar papel ainda mais central, como instrumentos para qualificar processos, ampliar a eficiência administrativa e fortalecer a tomada de decisões no âmbito do Governo do Distrito Federal. A incorporação de soluções tecnológicas e práticas inovadoras contribui para uma gestão pública cada vez mais moderna, transparente e orientada a resultados.
Outro eixo permanente é a consolidação das políticas para as mulheres, especialmente no enfrentamento à violência de gênero, com ações contínuas de proteção, autonomia e acolhimento. O desafio deste ano é transformar avanços já alcançados em políticas duradouras, capazes de responder a demandas complexas, preservando a estabilidade institucional e mantendo o Governo do Distrito Federal organizado, presente e comprometido com a melhoria constante dos serviços públicos”.

Damares Alves, senadora (Republicanos-DF)
“Será um ano de grandes revelações. Porque a CPMI do INSS e a CPI do Crime Organizado vão trazer essas revelações. Será ainda um ano de grandes revelações, porque estamos na investigação desse caso do Banco Master.
Acredito também que será um ano de aprovação de matérias importantes, especialmente ligadas à atuação do Supremo Tribunal Federal (STF). O Brasil não aguenta mais uma Corte sem controle, onde seus ministros são deuses e não respondem por seus erros.
Acredito ainda que 2026 será um ano difícil na área da economia. Teremos muitos problemas. Teremos fome no Brasil.
E, por fim, acredito que vamos eleger o maior número de deputados e senadores conservadores. E vamos eleger também nas Assembleias Legislativas e muitos governadores”.

Danilo Forte, deputado federal (União Brasil-CE)
“O ano de 2026 será muito desafiador para o Brasil.
Há uma preocupação muito grande com o crescimento da violência e da participação do crime organizado seja na economia e na política. Isso fragiliza ainda mais as instituições nacionais.
A relação entre os poderes está totalmente deteriorada. Há uma sobreposição e um abalo da política de freios e contrapesos, com uma preocupação com as posições do poder Judiciário, criando instabilidade e gerando insegurança jurídica.
Vivemos o sério problema da polarização política, que atrofia as chances de o país sair deste estado em que estamos vivendo.
Apostar na polarização é ruim. Criar espaços para que o debate possa surgir é fundamental. O Brasil vem caminhando por uma estrada muito ruim e perigosa. 2026 vai ser o marco decisório no caminho da Nação brasileira”.

Heloísa Helena, deputada federal (Rede-RJ)
“Sinceramente, minha expectativa é que as instâncias de decisão política tenham vergonha na cara e amor no coração. Que pensem mais no coletivo do que em seus próprios planos eleitoreiros.
No meu caso, tentarei cumprir minha obrigação, com honra, coragem e compromisso social, ao lado dos que dividem comigo as mesmas concepções ideológicas, na dura travessia pelos campos de batalhas minados da realpolitik”.

Márlon Reis, advogado, ex-juiz eleitoral, criador da Lei da Ficha Limpa
“Tenho observado com preocupação o Brasil caminhar por uma rota de crescente irracionalidade na definição das prioridades orçamentárias e no trato de matérias de alta relevância que ocupam tempo e energia do Congresso Nacional. Esse cenário, embora preocupante, também abre uma grande oportunidade para 2026: a renovação qualificada do Parlamento e a reconstrução de um debate político mais maduro, responsável e voltado a projetos concretos para o país.
Precisamos superar a era do ódio superficial, marcada pela ausência de propostas consistentes e por práticas pouco republicanas nos processos eleitorais, que acabam contaminando a qualidade da representação política.
O maior desafio coletivo do ano que se inicia é justamente esse: elevar o nível do debate público e fortalecer instituições por meio de escolhas mais conscientes. Meu otimismo, que me é inerente, me leva a acreditar que a sociedade brasileira não perderá essa oportunidade de aprimorar a qualidade do nosso Parlamento”.

Melillo Dinis, advogado e analista político
“2026 tem tudo para ser um ano tenso e intenso. Eleições nacionais, disputas orçamentárias, Copa do Mundo e as muitas idas e vindas da política farão deste ano um tempo intenso.
Já os atritos entre os poderes, as investigações policiais e os escândalos darão às tensões um tempero especial, aquecidas pelas redes sociais e pelas disputas inerentes à governabilidade da democracia à la brasileira, entre a coalizão e a colisão.
É um ano para observar os muitos pontos de vista e tentar entender os pontos cegos da vida nacional. E não deixar de ter muita paciência com todos os nossos desafios, sem perder a esperança e o cuidado com os outros, razão do bem comum”.

Ricardo de João Braga, economista e cientista político
“A eleição será muito competida, na margem para os competidores, que serão o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e quem vier da direita. Não vejo muita diferença para a decisão do eleitor quem será esse nome da direita. Terá diferença na formação das suas alianças. Se for [o senador] Flávio Bolsonaro, é uma conformação. Se for, por exemplo, [o governador de Goiás] Ronaldo Caiado, é outra conformação de alianças.
Agora, tudo irá se jogar a partir de Lula. Tudo dependerá muito do quanto Lula errar ou acertar.
Nesse sentido, uma eventual queda na taxa de juros poderá ser fundamental. Creio que toda a calibragem feita foi no sentido de manter altas as taxas de juros até agora para conter a inflação, mas com uma tendência agora a cair. Se começar a cair, vai estimular a atividade econômica, e isso será bom para Lula.
Também será fundamental para o resultado final a construção das políticas de alianças estaduais. Naturalmente, as alianças nos estados contrários a Lula irão para a oposição. E deverão ser favoráveis nos estados onde ele tem muita força. Então, o importante é o jogo nos estados pêndulos, intermediários, quem conseguirá formar as melhores alianças”.

Rodrigo Rollemberg, deputado federal (PSB-DF)
“2026 será um ano fundamental para consolidar a democracia e ampliar as conquistas sociais no Brasil . A reeleição de Lula-Alckmim, a aprovação do fim da escala 6 x 1 e a eleição de bancadas progressistas na Câmara e no Senado são desafios importantes e devem ser priorizados pelos que querem um Brasil democrático, menos desigual e soberano”.

Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara (RJ)
“Será um ano com foco na CPMI do INSS para desgastar ao máximo o Lula com os aposentados e pensionistas. E planejamento para eleger o Senado mais conservadorismo da história do país e eleger o Flávio Bolsonaro presidente”.

Tereza Cristina, senadora (PP-MS)
"Acho que teremos mais um ano de desequilíbrios na política fiscal do governo. Os gastos, que não param de crescer, estarão ainda mais pressionados pela agenda eleitoral. É praticamente unânime a projeção de que teremos crise nas contas públicas no mais tardar em 2027. Veja que arrecadamos cada vez mais e continuamos com déficit, dívida e juros altíssimos.
Se há esses desafios na economia, na politica também haverá muita movimentação. Teremos eleições presidenciais e torço para que a direita tenha um candidato competitivo, capaz de enfrentar o presidente Lula. Para isso temos bons nomes; só precisamos estar unidos em torno de um projeto inovador e corajoso para o país, diferente deste que está aí. Ainda temos um tempinho.
Como senadora, quero sim contribuir nessa jornada e fico, claro, honrada de ver meu nome citado no tabuleiro eleitoral. Mas precisamos esperar no mínimo até abril, quando o quadro ficará mais definido. Bons nomes, repito, que podem compor chapas fortes, não faltam no arco da centro-direita."