Por: Nei Carvalho

Reino das Capivaras - Parte 2

No outrora próspero Reino das Capivaras, onde as trilhas eram limpas e as águas corriam mansas, o povo ainda tentava entender como o caos havia se tornado rotina. A Corte real atual, já sobrecarregada com buracos, dívidas e doenças, começou a abrir os antigos pergaminhos deixados pela gestão passada — e, ao soprar o pó, descobriu que o tão falado "Bom Tempo" não tinha sido tão bom assim.

Os documentos mostravam enfermarias sem remédios, contratos misteriosos, contas atrasadas e promessas que evaporaram como neblina em manhã fria. O povo, que antes ouvira histórias de que tudo andava bem, agora percebia que aquele suposto "Bom Tempo" só servia para nublar a visão.

Nas vilas e nos vales, começaram então os cochichos:

— Como pode? — perguntavam as capivaras anciãs.

— Diziam que vivíamos no Bom Tempo, mas agora a tempestade caiu justamente das nuvens que ele deixou.

A cada gaveta aberta, surgia uma nova surpresa: dívidas escondidas, folhas de pagamento infladas, obras prometidas e jamais iniciadas. A saúde, que deveria ser o grande lago da vida, parecia mais um brejo abandonado. Nos postos, as capivaras enfermas esperavam por socorro, enquanto os novos guardiões anotavam tudo e tentavam entender como o "Bom Tempo" deixou um vendaval tão grande para trás.

O atual rei, ainda tentando domar a avalanche de problemas herdados, virou alvo das críticas do ex-soberano, que agora passeava pelo reino como se fosse o salvador das águas, fingindo não reconhecer o rastro de lama que havia deixado. Pior: tentava convencer alguns de que a crise atual era obra exclusiva do novo governo — como se o Bom Tempo não tivesse sido o próprio início da tempestade.

No fim das contas, o povo "capivalitano" sabia:

Quando o "Bom Tempo" é só de nome, o resultado é sempre tempestade, enchente e lama.

E a parte mais irônica?

Agora, quem espalhou nuvens negras tenta posar de sol brilhante - e olha que o sol sempre foi utilizado pelo ex-rei, para tentar esconder o mau tempo.

Mas no Reino das Capivaras, onde a memória é curta, mas não inexistente, já se começa a perceber que não adianta querer vender a ideia de que vivíamos em "céu azul" — porque os estragos deixados provam que o Bom Tempo passou… e deixou o mau tempo instalado.

Nei Carvalho é radialista e apresentador na TV Correio da Manhã.