Escrito por José Mauro de Vasconcelos (1920-1984), Meu Pé de Laranja Lima (1968) é um romance infanto-juvenil, traduzido para 52 idiomas, publicado em 19 países, adotado em escolas e adaptado para o cinema, televisão e teatro. O autor brasileiro escreveu mais de 20 romances direcionados aos adolescentes e entre os sucessos temos "Rosinha, Minha Canoa" (1962); "Coração de Vidro" (1964); "A Ceia "(1975); e, "O Menino Invisível" (1978).
'Meu pé de laranja lima' retrata a história de Zezé, um menino de seis anos, travesso, esperto, criativo e com imaginação fértil, pertencente a uma família paupérrima e numerosa. O pai, desempregado, bebia. A mãe trabalhava em uma fábrica. Única fonte de renda da família. As irmãs mais velhas cuidavam dos mais novos, Zezé cuidava do irmão menor, Luís. Solitário e incompreendido pela família, Zezé tem como amigo Minguinho ou Xururuca, o pé de laranja lima. Trabalhando escondido para comprar cigarro para o pai, Zezé conheceu o solitário Manuel Valadares, muito idoso e rico, tornaram-se amigos e o guri, carinhosamente, chamava-o de Portuga. A inusitada amizade era o consolo à solidão e o amparo afetivo de ambos.
Zezé usa sua imaginação como escape à dura realidade provocada não apenas peça pobreza, como também pela sua imaturidade. O amadurecimento chega quando o menino perde seus únicos amigos: o Portuga morre atropelado e, pouco tempo depois, a árvore de estimação é cortada. Zezé aprende com Minguinho que a dor verdadeira é aquela sentida no peito, é um sofrimento mais nocivo do que as dores físicas causadas pelas surras que levava.
A morte de Portuga e o corte de Minguinho retratam o fim precoce da infância e da inocência de Zezé. Agora as fantasias e ilusões são deixadas de lado e o garoto percebe a necessidade de viver com coragem a dura realidade. A principal mensagem da obra é, sem dúvida, a possibilidade de construirmos amizades sinceras e desinteressadas. Foi exatamente a tristeza da perda que fez o menino encontrar forças para continuar, acalentado pela esperança de conquistar novas amizades.
O autor tem o dom raro de captar as emoções provocadas pelos fatos e retratá-las sem pieguismo. A escrita de José Mauro de Vasconcelos é tão verdadeira e realista que não nos causa espanto perceber crianças, adolescentes e marmanjos se desmanchando em lágrimas. Não é a tristeza em si que emociona, pois o menino é travesso e apronta muito. É a bondade ingênua do menino. São as confidências sinceras e inocentes, feitas à sombra de Minguinho acerca da vida, do pai, da mãe, dos irmãos... ele quer consolar e proteger a todos. São as conversas com o Portuga.
No Natal, Zezé resolve trabalhar para presentear seu irmãozinho Luís, fingindo haver Papai Noel. Na noite natalina não houve ceia. Não são as duras frustrações e carência enfrentadas por Zezé que nos atingem. O problema é você se perguntar: como sobreviver? É a veracidade dos fatos. É a realidade.
Rosina Bezerra de Mello é doutora em estudos literários e professora