Franz Kafka nasceu em Praga, Império Austro-Húngaro (atual República Tcheca), em 3 de julho de 1883 e faleceu em 1924, na Áustria. Foi um dos escritores de língua alemã mais influentes do século XX. Seus romances e contos, como "A Metamorfose", "O Processo" e "O Castelo", abordam temas sobre alienação, violência física e psicológica, conflitos familiares, labirintos burocráticos, opressão estatal, absurdos e irracionalidades jurídicos, privação da liberdade, desumanização e aniquilamento do indivíduo. Kafka era judeu de origem familiar e formação inicial, cursou Direito, falava alemão, tcheco e iídiche com fluência e lia em grego e francês. Teve poucas obras publicadas em vida. Albert Camus, Gabriel García Márquez e Jean-Paul Sartre são exemplos de autores influenciados por Kafka.
O romance "O processo" foi escrito (ficou inacabado) entre 1914 e 1915, em plena crise da 1ª Guerra Mundial e publicado em 1925, pelo amigo Max Brod. Nele, Kafka aborda os temas relacionados a uma atmosfera sufocante, absurda e a uma sociedade imaginária opressiva, sombria e pessimista, produzida por uma sequência de atos arbitrários, surreais, irracionais e surpreendentes, quase oníricos, provocados por uma lei superior desconhecida e inacessível, em perfeita referência aos modelos reais da sociedade da época. Josef K., protagonista, sofre um processo com motivação desconhecida e é condenado à morte brutal sem possibilidade de defesa dos absurdos a que fora exposto.
A figura de Josef K. permite diferentes interpretações. Pode ser a representação do perseguido sem ciência das causas reais da perseguição, possuindo apenas alguns fragmentos aleatórios e falsos de variadas origens. É ainda o retrato da burocracia e do autoritarismo da Justiça com absoluto poder para condenar alguém, sem defesa, conhecimento de causa e com punição. Retrata também a arbitrariedade presente em diferentes áreas da vida humana: trabalho, religião, família, escola, ambientes e regras sociais.
Para muitos, O Processo reproduz a negação do estado democrático de direito e conduz o leitor a refletir profundamente acerca da democracia plena, cônscio de que as instituições estatais devem manter seu foco na prestação de serviço público, sem apego subserviente a processos burocráticos, a ritos sem lógica ou coerência, a tribunais bizarros, a ordens injustas e ilegais. A desumanização do indivíduo até sua morte é inacreditavelmente semelhante a situações reais de aniquilamento do outro que tramitavam em pesadas estruturas judiciais arcaicas de diferentes sociedades de seu tempo, principal crítica do autor na obra.
Podemos dizer que o maior mérito de Franz Kafka foi, no início dos anos 1900, ter retratado a sociedade com extrema fidelidade, profundo detalhamento e crueza, características expressionistas que conferiram imortalidade à sua obra. Nesse caso, a Arte imitou a Vida. Às vezes, a Vida imita a Arte!
*Rosina Bezerra de Mello é doutora em estudos literários e professora