Por Leandra Lima
A sociedade, esse grupo de humanos que habita o espaço comum, compartilhando princípios que moldam o comportamento entre os iguais, sempre pregou certos estereótipos e padrões "normais", aceitos por muitos sem a justificativa do porquê.
Esse comportamento é colocado à prova quando apenas um indivíduo se questiona sobre o tal comum e aceitável pelo grupo social, e é exatamente isso que a peça teatral "Normal", do dramaturgo escocês Anthony Neilson, que estará em cartaz no dia 25 de abril, no Centro Cultural Sesc Quitandinha, propõe.
Montagem
A montagem traz aspectos reais e contemporâneos sobre violência, silenciamento, principalmente das mulheres, e limites da normalidade, no caso, no consenso social sobre esse princípio. Um fato interessante da história, interpretada pelos atores Fifo Benicasa, Ricardo Soares e Hayla Barcellos, é a tradução de uma utopia criada por trás de aparências, algo bem comum para se manter uma alta expectativa social.
A trama envolve acontecimentos que marcaram a Alemanha de 1929. Ela acompanha as investigações do advogado Justus Wehner sobre a vida do serial killer Peter Kürten, um assassino que abusava sexualmente de adultos e crianças.
Ele foi condenado em 1931 e, segundo pesquisas relacionadas ao tema, o caso gerou repercussão principalmente na chamada "malha social", pois o criminoso era considerado um indivíduo da alta classe, sempre andava com trajes arrumados, passando a imagem de um cidadão comum e respeitoso. Na ocasião, surgiu o conceito de que o crime não tem face, pois, aparentemente, Peter era um homem bom.
Porém, essa imagem era apenas externa, pois a verdadeira essência do homem se mostrava em casa, entre quatro paredes, e também na hora de cometer o crime. Na residência, a esposa Frau Kürten, personagem central da trama, vive um cenário de violência, mesmo que de forma sutil.
Lembrando que qualquer ato de discriminação, agressão ou coerção de uma pessoa, que, por consequência, cause morte, danos, constrangimento, limitação dos direitos sociais, sofrimento moral, psicológico, físico, sexual, político, econômico e patrimonial, é considerado violência.
Reflexão
A esposa questiona a natureza violenta do marido e, na peça, traz essa inquietação de forma latente, levantando reflexões. "Interpretar Frau Kürten é encarar o desconforto de uma pergunta atual: quantas vezes ainda nos ensinam a ficar no silêncio entre o amor e a violência?", afirma a atriz Hayla Barcellos.
A narrativa acompanha as investigações do advogado Justus Wehner sobre a vida do serial killer Peter Kürten, a partir dos encontros com o criminoso e sua esposa, construindo uma análise sobre a natureza humana e os mecanismos sociais que envolvem a violência.
Com tradução de Alexandre Amorim e direção de Luiz Furlanetto, a montagem aposta em uma estética de suspense psicológico, inspirada no noir, criando uma atmosfera que convida o público à reflexão.