Correio da Manhã
EDITORIAL

Praça do Coco e o desprezo pela arborização

Praça do Coco e o desprezo pela arborização

A história da Praça do Coco deixou de ser apenas uma discussão sobre árvores. Ela se transformou em um debate sobre cidade, ciência, planejamento urbano e responsabilidade pública em tempos de mudanças climáticas. Para alguns, o tema pode parecer menor diante de tantos problemas enfrentados diariamente por Campinas. Mas é justamente esse pensamento que ajuda a explicar por que cidades brasileiras seguem perdendo cobertura vegetal, aumentando ilhas de calor e se tornando cada vez mais hostis à própria população.

As duas figueiras retiradas da Praça do Coco não eram apenas árvores comuns. Eram exemplares de grande porte, com cerca de 20 e 22 metros de altura e aproximadamente meio século de existência. Árvores que ajudavam a reduzir a temperatura, ofereciam sombra, absorviam água da chuva, amenizavam a poluição e faziam parte da paisagem afetiva de Barão Geraldo. É evidente que árvores urbanas precisam ser monitoradas e, quando realmente oferecem risco, removidas. Nenhum especialista sério defende irresponsabilidade. O problema é outro: a fragilidade técnica dos documentos utilizados para justificar uma decisão tão extrema e irreversível.

Os laudos apresentados inicialmente pela Prefeitura foram duramente questionados por engenheiros florestais, agrônomos e pesquisadores ligados ao Comdema, à USP, à Unicamp e à Unesp. Segundo esses especialistas, os documentos eram superficiais e insuficientes para sustentar a eliminação de árvores daquele porte e importância ambiental.

Mais grave ainda: análises posteriores realizadas com equipamentos de avaliação interna da madeira indicaram que os exemplares apresentavam condições de preservação. Ou seja, havia possibilidade técnica de manutenção das árvores no local.

Campinas abriga algumas das melhores universidades do país. A cidade possui pesquisadores, laboratórios e tecnologia capazes de realizar avaliações avançadas, acessíveis e muito mais precisas sobre a saúde estrutural de árvores urbanas. A própria Unicamp dispõe de equipamentos desenvolvidos para esse tipo de análise.

Por que não transformar esse conhecimento em política pública permanente? Em vez de decisões rápidas baseadas apenas em avaliações visuais simplificadas, Campinas poderia estabelecer protocolos mais modernos, técnicos e transparentes para manejo arbóreo. Isso evitaria cortes desnecessários, reduziria conflitos com a população e protegeria um patrimônio ambiental cada vez mais raro.

O episódio da Praça do Coco também revelou outro problema: a sensação de improviso. Troncos permaneceram suspensos por dias em uma praça pública, operações ocorreram à noite e surgiram questionamentos sobre segurança dos trabalhadores e condução técnica dos serviços.

Tudo isso poderia ter sido evitado com planejamento, diálogo e rigor técnico. Em tempos de emergência climática, preservar árvores urbanas não é capricho de ambientalista. É uma questão de saúde pública, qualidade de vida e responsabilidade com o futuro da cidade.