Correio da Manhã
EDITORIAL

Fila em todo o quarteirão é incompetência

Fila dando a volta no quarteirão é incompetência

Fila em todo o quarteirão é incompetência

Fila que dobra quarteirão, gente sob o sol na rua, "amarelinhos" ajudando a orientar o trânsito, pressa, irritação, muita conversa… e a sensação de déjà vu. A cena registrada em Campinas no penúltimo dia (0605) para regularizar o título eleitoral não é novidade, tampouco exceção. Ela se repete com teimosa e regularidade a cada ciclo eleitoral: 2018, 2020, 2022, 2024 e, agora, novamente. A pergunta que se impõe não é "o que aconteceu?", mas "por que continua acontecendo?".

Afinal, não se trata de falta de prazo, que é de meses, mas sim da concentração de decisões em poucos dias, transformando um serviço ordinário em uma corrida contra o relógio. Essa constatação revela, para além de um comportamento individual, uma engrenagem coletiva emperrada.

É claro que existe a cultura de deixar tudo para a última hora, um traço conhecido da vida brasileira. Contudo, reduzir a questão a isso é conveniente e insuficiente, uma vez que, sendo um fenômeno previsível, ele também é administrável.

O poder público sabe, por experiência reiterada, que a demanda explode na reta final. Sabe que campanhas de conscientização ganham tração apenas quando o prazo aperta. Sabe que o atendimento digital, embora ampliado, ainda não alcança todos com a mesma eficiência. No entanto, a cena se repete: filas longas, estrutura tensionada, cidadãos expostos ao desgaste físico e emocional.

Não se trata apenas de falta de gestão de fluxo. Trata-se de respeito. Horas na fila sob o sol não deveria ser o preço a pagar pelo exercício de um direito básico. A previsibilidade da situação recorrente, há muito, deveria ter gerado soluções mais robustas, como a ampliação efetiva de horários nos dias críticos, reforço de equipes, mutirões antecipados, comunicação mais incisiva e segmentada, além de plataformas digitais mais acessíveis e resolutivas.

É preciso reconhecer ainda que o ambiente digital, embora avance, ainda exclui. Nem todos têm familiaridade, acesso ou condições para resolver pendências on-line. Isso exige uma política híbrida mais inteligente, que distribua a demanda ao longo do tempo em vez de concentrá-la em um limite do prazo.

O que se vê, ano após ano, é uma espécie de pacto tácito entre o comportamento social e a resposta institucional insuficiente. Naturalizar essas filas é aceitar que o previsível continue sendo tratado como exceção, sabendo-se de antemão que não é. É rotina, algo que se repete, expõe falhas conhecidas e, pior, toleradas há anos. Se já sabemos como a história termina, talvez esteja na hora de mudar o roteiro!