Há algo de déjà vu, e de cansaço, em mais uma edição de programa que "promete resolver" o endividamento crônico do brasileiro. O nomeado "Desenrola 2.0", anunciado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, chega "embalado" como um alívio imediato, mas soa mais como um remendo mal feito em um tecido esgarçado. "Desnegativar" dívidas de até R$ 100 não é o mesmo que ajudar a resolver o que está por trás disso. A dívida continua lá, intacta, apenas invisível aos olhos do mercado. O mecanismo da decisão pode ser comparado a um "varrer a poeira para debaixo do tapete". No curto prazo, a medida devolve o CPF ao jogo ensandecido do consumo. No longo, perpetua-se o ciclo de endividamento e inconsciência que aprisiona milhões de brasileiros à uma realidade social e política complexa. O problema não nasce no Serasa, nasce na renda e na falta de educação e conscientização. Num país onde grande parte da população sobrevive com até cinco salários mínimos, é necessário muito mais do que o perdão de R$ 100 e programas de renegociação; é preciso desenvolver a capacidade real de não contraí-las. E isso passa por emprego, renda, educação financeira consistente e, sobretudo, de um ambiente econômico menos hostil ao cidadão comum.
Há ainda um ponto incômodo que raramente entra no discurso oficial: o estímulo permanente ao consumo. "Desnegativar" nomes sem enfrentar esse mecanismo é, no mínimo, contraditório. Ensina-se pouco sobre como não cair na "armadilha", mas oferece-se, repetidamente, a escada para sair dela, ainda que ela leve de volta ao mesmo buraco, só que mais fundo, porque esta prática se torna mais um vício.
O Governo argumenta que os bancos também ganham, ao recuperarem parte dos valores antes perdidos. No entanto, a pergunta que insiste em gritar é outra: "Quem, de fato, tem o poder de quebrar esse ciclo?". Porque o cidadão volta ao mercado, consome, endivida-se, renegocia e… recomeça tudo de novo. Ói nóis aqui traveis! Uma engrenagem que gira sem jamais sair do lugar. No pano de fundo, permanece a sensação de um país que insiste em tratar sintomas enquanto ignora causas estruturais: desigualdade persistente, baixa educação financeira, crédito caro e uma cultura econômica que penaliza quem ganha pouco e consome para sobrevive ou para se sentir incluído.
Programas como o "Desenrola" têm seu valor pontual. Porém, elevá-los à condição conveniente de "tapa-buracos" é um erro que acaba saindo mais caro. O Brasil não precisa de alívios pontuais. Precisa de ruptura com o modelo que produz endividados em série.